Ex-sócio diz ter desconfiado de Gil Rugai e relata ameaças
Publicitário Rudi Kretschmar diz que recebeu ameaças após prestar depoimento à polícia dias depois dos assassinatos
O publicitário Rudi Otto Kretschmar, que trabalhou com Gil Rugai, 29 anos, acusado de ter matado o pai e a madrasta em 2004, disse nesta quinta-feira - quarto dia do julgamento do caso -, que desconfiou do ex-sócio logo após o crime. Em depoimento no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, Kretschmar disse ter estranhado o fato de ele possuir uma arma e uma estrela ninja em uma valise, e relatou que o acusado parecia nervoso na semana anterior aos assassinatos do pai dele, Luiz Carlos Rugai, 40 anos, e da madrasta, Alessandra de Fátima Troitiño, 33 anos.
"Não sei falar se era uma arma verdadeira ou falsa. Não o questionei", disse a testemunha, convocada pelo juiz Adilson Pauloski Simoni, e que falou por cerca de duas horas. Segundo o publicitário, ele viu a arma dentro de uma valise - que chamou de "mala de fuga" -, que continha ainda "selinhos" com ácido, além de uma estrela ninja, entre outros objetos. Ele admitiu, porém, não se lembrar das circunstâncias em que se deparou com essa valise, e afirmou que pode ter sido o próprio Gil Rugai quem o mostrou o material.
"Não foi uma situação confortável, ficar sabendo que ele tinha uma arma", continuou Kretschmar. Ainda segundo o publicitário, ele também achou estranho ter visto um coldre (uma espécie de porta-armas) na gaveta da sede da produtora. À época do crime, Kretschmar e Gil Rugai estavam iniciando uma sociedade para abrir uma produtora de vídeos do ramo publicitário, e haviam trabalhado juntos por cerca de dois meses.
Ainda segundo a testemunha, eles se conheciam há poucos meses, mas, até os acontecimentos, ele não havia notado nenhum problema na relação entre pai, filho e madrasta. O publicitário admitiu, no entanto, que havia se esquecido de boa parte dos fatos, pois o caso ocorreu há quase nove anos.
O ex-sócio também contou que prestou esclarecimentos no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) em duas ocasiões, e admitiu que chegou a ser tratado como suspeito, mas negou que tenha sido pressionado a tentar incriminar Gil Rugai. "Eu não inventaria (os fatos relatados à polícia)", disse o publicitário.
Após os depoimentos, que ocorreram entre março e abril de 2004 - dias após os assassinatos -, Kretschmar recebeu ameaças e, segundo ele, ligou imediatamente os recados deixados em sua secretária eletrônica ao caso. Ele enfatizou ainda que tentou não demonstrar a Gil Rugai que desconfiava dele, pois encontrou dados pessoais seus e de sua namorada com os objetos do ex-sócio e temia pela família.
"Era uma linguagem de ladrão, ameaçadora. Algo do tipo: 'você vai ser o próximo'", contou. Por fim, o publicitário descreveu como "apático" o comportamento de Gil Rugai após os assassinatos, demonstrando estranhamento com a reação do réu. "Ele estava apático. Não esboçou nenhuma reação", disse.
Por fim, o publicitário também revelou que, ao saber dos assassinatos, retornou ao escritório onde ficava a produtora e procurou pela arma de Gil Rugai, mas não a encontrou.
Rudi Otto Kretschmar foi a 12ª testemunha a depor desde o início do julgamento. As últimas duas testemunhas foram ouvidas em seguida, por cerca de 1 hora e 30 minutos no total. Uma delas foi o vigia Fabrício Silva dos Santos, que trabalhava na rua da casa onde o crime ocorreu, mas disse não ter visto ninguém deixar o imóvel. A versão dele constrata com a do vigia Domingos Ramos Oliveira de Andrade, que trabalhava a alguns metros dele em outra guarita, mas diz ter visto Gil Rugai deixar a casa após o crime. A última testemunha foi o motorista Francisco Luiz Valério ALves, que trabalhava para o vizinho das vítimas. Em sua fala, ele também negou ter visto os suspeitos do crime.
Após um intervalo de cerca de uma hora, que começou às 14h10, começará o interrogatório de Gil Rugai, que deve responder às perguntas da defesa, da acusação e do juiz. O depoimento do réu não tem prazo para terminar, mas deve ser o mais longo dos últimos quatro dias de juri. O julgamento deve terminar na sexta-feira, após o debate entre as duas partes.
Ao todo, 16 testemunhas foram arroladas, sendo cinco de acusação, 10 de defesa e três de juizo. Entretanto, duas testemunhas de defesa foram dispensadas - um contador e uma perita. A fase de oitiva das testemunhas durou quase quatro dias.