Bando de Nem transforma presídio em entreposto do tráfico
Por:Jornal do Brasil
20 nov2011 - 09h31
(atualizado às 09h38)
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Duas cartas apreendidas segunda-feira na Rocinha, por agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope), mostram que a quadrilha do traficante Antônio Bomfim Lopes, o Nem, enviava drogas com regularidade para presos revenderem na Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho (Bangu 4).
Um comércio tão intenso, de acordo com o relato contido nas correspondências, que credencia a cadeia como entreposto da facção Amigos dos Amigos (ADA), comandada por Nem. As cartas, escritas por homens do bando do traficante - presos no ano passado durante o ataque ao Hotel Intercontinental, em São Conrado - foram encontradas pelos policiais na casa de Johny Wallace da Silva Viana, o Xexéo, administrador dos negócios de Nem.
Neste sábado, o chefe de segurança e disciplina do Presídio Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, Ricardo Marques Sarto, explicou que Nem terá direito a visita de familiares se esses fizerem cadastro no Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e obtiverem autorização, que é concedida após investigação detalhada do órgão.
Nem está no presídio federal de segurança máxima de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, e ficará 20 dias em completo isolamento, inclusive sem banho de sol. O mesmo procedimento será adotado com outros três traficantes transferidos juntamente com Nem - Flávio Melo dos Santos, Carré e Coelho.
Ainda de acordo com Sarto, todos os presos passaram por exame de corpo de delito no Rio de Janeiro. Sarto acrescentou que o isolamento é um procedimento comum, e serve para que os detentos passem pela avaliação de psicólogos, assistentes sociais e médicos. A partir da análise do comportamento dos detentos, será decidida em qual ala eles vão ficar. Eles também tomarão conhecimento das regras do presídio para, então, serem transferidos para a cela.
Por volta das 6h da manhã deste sábado, Nem e seus comparsas deixaram o presídio de Bangu 1, na Zona Oeste do Rio, sob forte escolta. Um comboio com dez carros, com apoio de 40 homens do Serviço de Operações Especiais (SOE) da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap), acompanhou os criminosos, que seguiam para o Presídio Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
O pedido de transferência foi feito pelo Tribunal de Justiça do Rio e autorizado pela Justiça Federal. O transporte foi feito em um avião da Polícia Federal.
Ocupação da Rocinha
Nem foi preso na madrugada do último dia 10, quando era levado no porta-malas de um carro de luxo. Policiais militares desconfiaram do veículo e o abordaram. Um dos ocupantes se identificou como cônsul honorário do Congo e se negou a permitir a vistoria. Os policiais então decidiram conduzir o veículo para a sede da polícia. Os ocupantes acabaram desistindo de evitar a vistoria e Nem foi descoberto no porta-malas do carro.
Na madrugada de domingo, dia 12, as forças de segurança do Rio deram início à operação de ocupação da Rocinha, na Zona Sul do Rio. A ação foi concluída com sucesso na manhã do mesmo dia, sem confronto com traficantes.
Viver em comunidades pobres e ter o rosto estampado em cartazes de procurados não impede que os chefes do tráfico de drogas se privem do luxo e do conforto que o dinheiro - mesmo ilícito - consegue comprar. Piscinas, banheiras de hidromassagem, eletroeletrônicos de última geração e carros importados de megatraficantes contrastam, muitas vezes, com a falta de saneamento básico de seus vizinhos ou clientes. Veja a seguir os bens de alguns criminosos:
Foto: Reinaldo Marques/Terra e Divulgação / Art by Terra
Viver em comunidades pobres e ter o rosto estampado em cartazes de procurados não impede que os chefes do tráfico de drogas se privem do luxo e do conforto que o dinheiro - mesmo ilícito - consegue comprar. Piscinas, banheiras de hidromassagem, eletroeletrônicos de última geração e carros importados de megatraficantes contrastam, muitas vezes, com a falta de saneamento básico de seus vizinhos ou clientes. Veja a seguir os bens de alguns criminosos:
Foto: Reinaldo Marques/Terra e Divulgação / Art by Terra
Em novembro de 2010, ao ocupar o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a polícia fez buscas na casa de um dos líderes do tráfico na região: Alexander Mendes da Silva, o Polegar. O criminoso, que conseguiu escapar da invasão das forças de segurança, tinha no terraço azulejos que imitavam o calçadão de Copacabana
Foto: Reinaldo Marques / Terra
Quem aproveitou a entrada da polícia no imóvel de Polegar foram as crianças do conjunto de favelas, que se refrescaram na piscina do traficante. Mais de seis meses depois da ocupação, as casas dos traficantes estavam à venda por até R$ 90 mil ou alugadas, segundo o Jornal do Brasil
Foto: AFP
Com a ocupação, crianças do Complexo do Alemão brincaram também na piscina de um traficante conhecido como Barrão. O imóvel, de azulejos novos e pintura recente, foi depredada após a saída dos policiais
Foto: Reinaldo Marques / Terra
A casa de Luciano Martiniano, o Pezão, também foi vasculhada durante a operação, realizada no final de novembro de 2010. Da área de lazer da sua residência, o traficante tinha vista para grande parte da comunidade
Foto: Guilherme Leporace/CPDoc JB / Futura Press
Durante a ocupação, policiais encontraram em um desmanche de veículos uma moto Suzuki GSX 1300 R, que seria do traficante Fabiano Atanásio da Silva, o FB. Avaliada em cerca de R$ 60 mil, o modelo de luxo era considerada moto comercial mais rápida do mundo na época
Foto: EFE
Éder de Souza Conde, conhecido como Beira-Mar do Paraná, morava em um dos condomínios mais luxuosos da Grande Curitiba, andava de BMW e Porche, recém havia comprado uma Ferrari de R$ 250 mil e namorava a vice-Miss Curitiba 2010. A ostentação acabou em maio de 2010, quando ele foi preso pela Polícia Federal, acusado de chefiar uma quadrilha que levava 100 kg de cocaína por mês de Mato Grosso do Sul ao Paraná
Foto: Polícia Federal / Divulgação
O chefe do tráfico na favela da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, era um dos homens mais procurados do Rio de Janeiro, mas não primava pela discrição: morava em uma casa espaçosa, com piscina e churrasqueira (foto), e frequentava as festas do morro. Foi preso em novembro de 2011, quando tentava fugir da comunidade prestes a ser ocupada para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP)
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
Nem estava no comando do tráfico da maior favela do País desde 2005, quando substituiu o traficante Bem-te-vi, que foi morto. Três dias após sua prisão, a polícia fez buscas em sua casa e encontrou a ampla cozinha revirada
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
Como todos seus "colegas" do tráfico, Nem tinha uma piscina para refrescar do forte calor carioca. O deck de madeira era protegido por um muro
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
Apontado como aliado de Nem no morro de São Carlos, Sandro Luís de Paula Amorim, o Peixe, tinha até banheira de hidromassagem no quarto. O conforto acabou em novembro de 2011, quando ele foi preso horas antes do chefão da Rocinha
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
No cômodo decorado em branco, preto e vermelho o traficante tinha à disposição, além da banheira, uma cama espaçosa, bar e ar-condicionado
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
O luxo da casa de três andares de Peixe foi destaque até no jornal britânico The Guardian, que traduziu seu apelido. No quarto de "Fish", havia até um aquário, com um aviso de "não bata no vidro"
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
Na área de lazer, o traficante tinha churrasqueira e piscina protegida por um muro alto, mas com vista privilegiada da Rocinha
Foto: Adriano Ishibashi / Futura Press
O traficante colombiano Juan Carlos Abadía tinha bens no exterior avaliados em US$ 1,8 bilhão quando foi preso pela Polícia Federal no Brasil em 2007. Só no País, cinco propriedades de Abadía, avaliadas em R$ 6 milhões, foram confiscadas pela Justiça: uma mansão em Jurerê Internacional, em Florianópolis (SC), uma casa em um condomínio de luxo em Aldeia da Serra (SP), outra em Angra dos Reis (RJ), uma fazenda no Rio Grande do Sul e um sítio em Pouso Alegre, interior de Minas Gerais