Inpe: negros passam a ter mais filhos do que brancos no País
Um estudo divulgado nesta quinta-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirma que a taxa de fecundidade do Brasil tem caído, mas a população negra segue com mais filhos que a branca. Enquanto na população negra a taxa de fecundidade total (número médio de filhos tidos por mulher ao final da vida reprodutiva) passou de 2,7 filhos para 2,1, na branca ela caiu de 2,2 para 1,6 entre 1999 e 2009.
Os diferenciais de fecundidade entre mulheres brancas e negras não são homogêneos dentro dos vários grupos etários. Em 2009, a maior variação foi encontrada entre as mulheres de 15 a 19 anos e a diferença cresceu ao longo do tempo. Em 1999, a fecundidade das adolescentes negras era 38,9% mais elevada que a das brancas. Em 2009, esta diferença foi de aproximadamente 65%. Isto significa que, embora a fecundidade dos dois grupos tenha diminuído, esta redução foi mais acentuada entre as mulheres brancas.
Já a taxa de crescimento da população negra entre 2000 e 2010 foi de 2,5% ao ano e a da branca aproximou-se de zero. Dessa forma, o número de pessoas autodeclaradas negras superou o de brancas no Brasil: 97 milhões frente a 91 milhões. De acordo com a pesquisa, isso pode ser decorrente da fecundidade mais elevada encontrada entre mulheres negras, mas também de um aumento de pessoas que se declararam pardas no Censo 2010.
Mortalidade
Com base em dados de 2001 e 2007, o Inpe concluiu que os óbitos dos brancos se concentravam mais em idades avançadas na comparação com os negros. A proporção de mortes entre jovens de 15 a 29 anos é bem mais elevada entre negros, o que pode ser explicada pelo fato dessa população ser mais afetada por causas externas - agressões, acidentes de transporte, quedas, afogamentos e outros. Isso sugere que população negra tem uma expectativa de vida menor.
Quanto aos homens, fatores externos foram responsáveis por 24,3% das mortes de negros, a segunda causa mais comum. Já para os brancos, o índice cai para 14,1%, a terceira mais comum. A segunda causa mais importante foram as neoplasias, seguidas das doenças do aparelho respiratório.
Dentre os tipos de mortes inseridas no campo dos fatores externos para os negros, destaca-se o homicídio: cerca de 50% em 2001 e um pouco menos 2007. O mesmo motivo para os brancos cai para 36,2% em 2001, mas em 2007 apresenta uma redução e perde para os acidentes de trânsito, que são a segunda causa mais comum de mortes externas para negros.
De uma maneira geral, o padrão de causas de mortes femininas não difere muito entre a população negra e branca: nela, fatores externos não aparecem entre as cinco principais em nenhum dos dois grupos raciais.
Papel da mulher
O arranjo familiar predominante no País é o do tipo casal com filhos (cerca de 64%), embora esta predominância tenha decrescido. Esta tendência se verifica independentemente da cor. Porém, uma diferença notada é a proporção maior de mulheres negras que chefiam domicílios, principalmente com filhos. Para o Ipea, isso possui uma certa relação com a participação feminina no mercado de trabalho, pois passaram a contribuir com a renda das famílias.
No entanto, a mulher continua como a principal responsável pelo cuidado doméstico. A proporção de mulheres negras ocupadas que se dedicavam a afazeres domésticos em 2009 foi de 91,0% e a de homens, 48,5%. Entre a população branca, as proporções comparáveis foram de 88,1% e 50,6%, respectivamente.
Mais expressivas ainda foram as diferenças no número médio de horas trabalhadas em afazeres domésticos. As mulheres negras ocupadas despendiam, em média, 22 horas semanais e os homens, 9,8. Já as mulheres brancas passavam 20,3 horas e os homens, 9,1, o que sugere uma relação de gênero mais desigual entre as negras.
Envelhecimento
Uma das características da população idosa é a alta proporção de mulheres, explicada pela maior mortalidade masculina. Essa proporção era maior entre as brancas. Na população idosa negra, a cada 100 mulheres, havia 88 homens. Entre as brancas, a relação foi de 75 homens para cada 100 mulheres.
Os benefícios da seguridade social - previdência urbana, previdência rural, assistência social e as pensões por morte - cobriam 77,3% da população idosa negra e 78,3% da branca em 2009, ou seja, aproximadamente 16,6 milhões de idosos. Aos 80 anos ou mais, 95,5% da população branca recebia algum benefício da seguridade social, enquanto a proporção comparável para os negros foi de 90,5%, o que permite concluir pela universalidade do sistema.