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Moro cria "clima de ameaça à imprensa livre", diz Greenwald

11 jul 2019
17h32
atualizado às 17h36
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O jornalista americano Glenn Greenwald, fundador do The Intercept Brasil, disse nesta quinta-feira (11/07) em audiência no Senado que o ministro da Justiça, Sergio Moro, está criando um "clima de ameaça à imprensa livre" ao não esclarecer se o site é alvo de investigação da Polícia Federal (PF).

Foto: Mateus Bonomi/Agif / Estadão

Desde 9 de junho, o Intercept e publicações parceiras, entre elas o jornal Folha de S. Paulo e a revista Veja, têm divulgado uma série de diálogos trocados entre Moro e procuradores no aplicativo Telegram à época em que o ministro atuava como juiz dos casos da Operação Lava Jato. Várias conversas levantaram suspeita de conluio entre Moro e os procuradores na condução dos processos.

"Há notícias de que ele [Moro] está investigando, e ele nunca negou. Isso mostra a mentalidade do ministro. Ele quer que fiquemos com medo e apreensão. Não temos medo nenhum. Continuamos publicando depois disso. Vamos continuar publicando", disse Greenwald sobre as notícias de que a PF, subordinada a Moro, teria solicitado um relatório sobre as movimentações financeiras do jornalista ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

No início do mês, Moro, durante uma audiência na Câmara, se esquivou de responder se a PF tem liderado alguma investigação nesse sentido. "A Polícia Federal tem absoluta autonomia. Eu não interfiro nessas investigações específicas", disse ele na ocasião.

Aos senadores, Greenwald disse que o posicionamento do ministro é uma forma de "assustar" a equipe do site. "O clima que o ministro da Justiça está tentando criar, acho que isso é uma ameaça a uma imprensa livre. Está tentando fazer isso de propósito para assustar a gente. Não vai funcionar, mas é uma ameaça muito grave", afirmou.

Na última terça-feira, o procurador do Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU), Lucas Furtado, pediu a imediata suspensão de qualquer investigação sobre Greenwald que esteja em curso até que fiquem claras as motivações.

Greenwald foi convidado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, a pedido do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), para falar sobre os vazamentos das conversas entre Moro e procuradores da Lava Jato.

O jornalista contou aos senadores ter ficado chocado quando se deparou com o material das conversas. "Eu tinha nas minhas mãos a evidência mostrando que, o tempo todo, Sergio Moro estava não só colaborando com os procuradores, mas mandando na força-tarefa da Lava Jato", disse.

Logo na abertura da audiência, o jornalista lamentou o baixo comparecimento de senadores, em especial dos alinhados com o governo, que, segundo ele, o atacam virtualmente, mas não compareceram para debater.

"Eu gostaria muito de discutir frente a frente essas acusações falsas que eles estão espalhando quando não estou presente, e esta é uma oportunidade para discutir essas acusações na minha cara, para examinar se elas são falsas ou verdadeiras. Mas infelizmente eles não estão aqui para fazer isso", apontou.

O jornalista também rechaçou o pedido de Moro para que o material em poder do Intercept seja entregue às autoridades para análise.

"Nós não entregamos e nunca vamos entregar nosso material jornalístico para a polícia ou tribunais, porque isso é uma coisa que acontece em países autoritários, tiranias, e não democracias. O que nós fizemos, como profissionais, nós verificamos com muita cautela que o material é totalmente autêntico", afirmou.

Ao ser questionado por um senador sobre como a população poderia avaliar a autenticidade do material, Greenwald disse: "Não sou eu falando. É Folha, Veja, Intercept, procuradores do Ministério Público, Buzzfeed, todos falam a mesma coisa: esse material é autêntico, palavra por palavra. Qual evidência existe para apoiar a insinuação de Moro e Deltan de que algo foi alterado? Nenhuma."

Por fim, Greenwald também negou que esteja agindo a soldo de algum partido político. "Não estamos defendendo um político. Nossa causa não é 'Lula livre', nossa causa não é destruir o governo Bolsonaro, não é defender um partido e prejudicar outro. Nosso jornalismo é sobre defender princípios que não têm nada a ver com ideologia nenhuma", disse o jornalista. "Somos independentes. Estamos defendendo os princípios cruciais e fundamentais para uma democracia: a imprensa livre."

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