Flávio Bolsonaro nega irregularidade após pedir dinheiro a Vorcaro para filme sobre o pai
O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negou nesta quarta-feira que tenha cometido qualquer irregularidade em sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, após a revelação pelo site Intercept Brasil de conversas entre ambos sobre pagamentos milionários para financiar um filme sobre a vida do pai do parlamentar, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
"No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público", disse Flávio em nota oficial. "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", acrescentou o senador, que também divulgou um vídeo nas redes sociais
Vorcaro, que está preso, está no epicentro de denúncias envolvendo fraudes financeiras e lavagem de dinheiro, culminando no escândalo da liquidação do Banco Master.
A reportagem do Intercept Brasil afirma que Flávio teria negociado com Vorcaro R$134 milhões para bancar um filme sobre a vida do ex-presidente Bolsonaro. O site divulgou trocas de mensagens entre ambos, e um áudio de Flávio cobrando pagamentos de Vorcaro para a produção do filme.
O site teve acesso, por exemplo, a uma mensagem escrita pelo WhatsApp de Flávio a Vorcaro em 16 de novembro de 2025, na véspera da primeira prisão do banqueiro pela Polícia Federal e também da liquidação do Banco Master.
"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu Flávio na ocasião.
Procurada, a defesa de Vorcaro não quis comentar a reportagem do Intercept.
O empresário Thiago Miranda, dono de uma agência de marketing que trabalhou em uma campanha de imagem para o Master, confirmou à Reuters informação publicada pelo Intercept que intermediou uma operação de investimento de Vorcaro na realização do filme sobre Bolsonaro. De acordo com Miranda, foi um investimento, não um patrocínio, e Vorcaro teria direito a uma parte da bilheteria resultante da exibição do filme.
Documentos do banco Master entregues à CPI do Crime Organizado e a que a Reuters teve acesso mostram ao menos um pagamento, de R$2,39 milhões, à empresa Entre Investimentos, que teria sido usada para repassar os recursos à produtora do filme do ex-presidente, atualmente preso em regime domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Esse pagamento aparece na declaração de Imposto de Renda de 2025 do banco.
Uma fonte com conhecimento direto das investigações confirmou à Reuters que as informações que embasaram a reportagem do Intercept estão corretas e constam do material que foi apreendido em uma das fases da operação Compliance Zero sobre as irregularidades envolvendo o Master.
Essa fonte disse que o material vai ser analisado para se avaliar se Flávio poderá ser alvo de investigação por indício de cometimento de algum crime.
REAÇÕES NO MERCADO E NA POLÍTICA
A revelação que veio à tona no início da tarde desta quarta causou forte reação na política e também impacto no mercado financeiro, uma vez que Flávio vem aparecendo em pesquisas de intenções de voto em empate técnico com o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva nas disputas de segundo turno em outubro.
O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) disse que a revelação da cobrança do dinheiro de Flávio a Vorcaro é "imperdoável".
"Ouvir você cobrando dinheiro do Daniel Vorcaro é imperdoável, é um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa", afirmou, em vídeo divulgado pelas redes sociais.
"É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil", reforçou ele, que chegou a ser cotado para ser vice do próprio Flávio na corrida presidencial.
Outro pré-candidato da direita, Ronaldo Caiado (PSD), também cobrou explicações.
Governistas cobraram investigações sobre a relação de Flávio com Vorcaro, embora ninguém no Palácio do Planalto ou diretamente ligado a Lula tenha comentado de imediato.
Um dos vice-líderes do governo na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), disse que apresentou a autoridades um pedido de prisão preventiva, busca e apreensão e outras diligências em desfavor de Flávio Bolsonaro.
Após a revelação, aliados de Flávio se reuniram no chamado QG de Campanha dele, em uma casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, segundo uma fonte com conhecimento do caso. O coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e outras lideranças discutiram a melhor reação e definiram divulgar a nota à imprensa e o vídeo com as explicações.
Segundo a fonte, houve surpresa entre aliados porque, de maneira geral, não se sabia dessas relações entre os dois.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcanti (RJ), saiu em defesa de Flávio nas redes sociais, dizendo que as explicações dele são "claras, coerentes e objetivas" e que os fatos se referem a patrocínio privado para um projeto privado.
"A bancada do PL permanece unida e confiante no senador Flávio Bolsonaro, certo da lisura de seus atos", ressaltou.
O dólar disparou durante a tarde e fechou o dia novamente acima dos R$5,00. As taxas dos DIs fecharam a quarta com fortes altas, próximas de 30 pontos-base em alguns vencimentos.
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