Emaranhado de fios é regra no Centro Histórico do Rio e preocupa especialistas; na Rua do Ouvidor, caso é crítico e há riscos
A quantidade de fios ocupa espaço relevante nas fachadas dos imóveis tombados, serve de obstáculo à apreciação do Centro Histórico e ainda pode vir a apresentar riscos à integridade dos imóveis, servindo pra disfarçar "gatos" e ligações irregulares de energia. Emaranhado de fios é regra no Centro Histórico do Rio e preocupa especialistas; na Rua do Ouvidor, caso é crítico e há riscos
Cada vez mais pessoas têm escolhido passar o sábado e o domingo, assim como os dias de semana, na região do Centro Histórico do Rio, cercada de centros culturais, exposições de arte e ícones da boa mesa que trazem opções de alimentação e entretenimento para todos os gostos e bolsos. Uma coisa, porém, une todos os freqüentadores da região: a paixão pelo Rio de antigamente, pelas fachadas dos sobrados, casarios e casarões, assim como a beleza única dos grandes palacetes que existem na região e que hoje têm uso cultural. A chamada 'Pequena Lisboa' atrai pessoas também pelo charme de suas ruelas, a graça de seus paralelepípedos, a beleza do Largo do Paço e a facilidade de transporte - VLT, Barcas e muito Estacionamento. Mas nem tudo são flores; enquanto o novo comando da PM da região deu uma boa reforçada na segurança - agora a gente vê polícia toda hora circulando pelas ruas estreitas e becos - os órgãos de patrimônio e a prefeitura têm investido quase nada numa boa fiscalização de problemas que prejudicam o local e podem inclusive ser fatores de risco de incêndio e curtos-circuitos que podem colocar a perder imóveis de mais de 200 anos.
É o caso dos pavorosos emaranhados de fios - grande parte deles completamente inúteis - que estão amarrados pelas fachadas dos imóveis históricos, presos de forma mal ajambrada, muitos deles inclusive já sem exercer função alguma. São dezenas de fios pretos, brancos, e caixas de conexão e passagem em péssimo estado de conservação, dependuradas sem nenhum tipo de cuidado ou apreço pelos bens culturais. A reportagem viu diversas caixas penduradas e quebradas, na fachada de sobrados históricos. A região da Praça XV é um Conjunto Tombado Nacional, desde os anos 30 a região é tombada pelo órgão federal de patrimônio histórico, o IPHAN. Além disso, a região tem um sem número de imóveis tutelados pelos órgãos de patrimônio estadual (INEPAC) e municipal (IRPH). Ainda assim, as concessionárias de serviços públicos parecem fazer o que querem por ali, e não só elas; umas empresas de internet móvel também furam os prédios e colocam rolos e mais rolos de fios pendurados a seu bel prazer sem que ninguém mova uma palha, causando uma grande confusão que camufla gatos de luz, ligações irregulares e uma gama de perigos que põem em risco quadras inteiras de casarões.
"As fachadas dos imóveis objeto de tutela pelos órgãos de patrimônio deveria ter prioridade na operação caça-fios da prefeitura", afirma Valdemar Barboza, gerente de uma administradora de imóveis. "As autoridades do patrimônio cultural nos cobram um cuidado extremo com as cantarias dos prédios e suas fachadas, mas permite que qualquer empresinha de internet fure a frente de um prédio do século XIX? Dois pesos e duas medidas! Ainda mais da forma que a situação está ocorrendo na rua do Ouvidor, rua do Mercado, e Travessa do Comércio. Fazem muitas exigências de quem faz obra mas ignoram todo o resto. Mas este resto enfeia a região e ainda pode causar um acidente", indigna-se. Para ele, permitir a desordem nos cabos nas fachadas só facilita quem faz gato de luz. "Ninguém nota, com tanto fio jogado".
https://diariodorio.com/apos-tres-decadas-prefeitura-volta-a-cacar-emaranhados-de-fios-que-enfeiam-a-cidade/
Um eletricista contratado pelo DIÁRIO subiu na escada e examinou a fiarada que passa na fachada dos prédios junto à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na rua do Ouvidor esquina de Travessa do Comércio. "A maioria desta fiação aérea é de telefone fixo e está morta. E o curioso é que a OI não está mais instalando telefones fixos na região. Os comerciantes da área mal conseguem internet a cabo", diz. A informação foi confirmada por um comerciante local: "Usamos aqueles modems de telefonia celular, não conseguimos que o cabo chegue aqui". Aliás, falando na Igrejinha que reabre no dia 10/6, teve sua fachada pintada e está tinindo, é impossível tirar uma foto perfeita dela de perto, por conta da quantidade de fios horrendos que atravessam a rua na diagonal bem na sua frente.
"Esse negócios dos fios é um absurdo. Antigamente, um fio dava problema e a empresa ia lá e consertava o fio. Agora, passam outro. Depois outro, depois mais outro. Por isso a maioria absoluta ali está fora de funcionamento. A situação é crítica. Corremos um risco por causa de algo que se tornou, em grande parte, inútil", diz Marconi Andrade, restaurador, ex-conselheiro municipal de patrimônio cultural e fundador do grupo SOS Patrimônio, um dos maiores da sociedade civil que reúne amantes do patrimônio histórico e cultural no Rio de Janeiro.
"A desordem aérea que se observa nas fiações entre os postes da cidade é reflexo da ausência ou insuficiência de fiscalização dos serviços concedidos às mais variadas empresas de telefonia. No centro, onde se concentram os mais significativos bens edificados do Rio, o resultado é desagradabilissimo à ambiência e visibilidade das fachadas, dispondo contra o ordenamento jurídico do Decreto-lei 25/37", declarou à reportagem o ex-superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, arquiteto e urbanista Manoel Vieira, que atua na área de bens culturais tombados há mais de 15 anos.
"Por décadas admitimos a fiação aparente em áreas densas e valorizadas, tanto econômica como culturalmente, porque havia apenas duas concessionárias: uma de energia elétrica e outra de telefonia fixa. Horrendas sempre foram, mas eram poucas, e só se dava conta disso quem viajava para o exterior e descobria o quanto as cidades com fiação embutida eram subitamente mais limpas", ensina o professor e arquiteto Carlos Fernando Andrade, doutor em urbanismo e um dos maiores especialistas em patrimônio histórico do país, que complementa: "De uns anos para cá, e como o Brasil sempre ingressa nas coisas pela porta dos fundos, o que já era ruim ficou insustentável. É um cipoal de telefonia, internet, televisão e, obviamente, eletricidade, transformou a ambiência urbana em uma imensa e inacreditável gambiarra." Ex-superintendente do Iphan, ele protesta dizendo que nos Centros Históricos: "o descaso é insuportável e, curiosamente, mais intensa a desordem, provocada pelo que deveria ser a tecnologia de ponta". Resta provado que 10 entre 10 especialistas se chocam com o caos urbanístico e os riscos ocasionados pela fiação no Centro Histórico. Ainda assim, a ação formal não vem.
Exigir Medidores de Luz nas Fachadas é ilegal
A própria Light foi obrigada a se adequar e parar de afixar relógios de luz na fachada dos imóveis tombados. Comerciantes a região, passaram, no início do ano passado, por uma série de arbitrariedades perpetradas pelos funcionários da concessionária Light S/A. Imóveis centenários e, por vezes, bicentenários - muitos tombados ou preservados pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) - foram comunicados que a empresa faria "modificações no fornecimento de energia." Só que estas modificações são ilegais.
Sob alegação de modernização, a concessionária determinou que os comerciantes instalassem os seus relógios de luz - os famosos "medidores"- na parte externa das unidades, produzindo modificações inaceitáveis e proibidas em fachadas tombadas. A medida impõe uma série de procedimentos agressivos à preservação da história da cidade, já que para instalar os medidores é preciso furar paredes, colocar braçadeiras de ferro, canos de borracha ou plástico preto, além de colocar das horrendas caixas de acrílico.
As fachadas dos imóveis do Centro Histórico, repletas de pedras de cantaria, portões de ferro fundido, ornatos, cariátides e outros detalhes de grande pureza arquitetônica; não combinam com o que a concessionária Light S/A pretende realizar em nome de uma suposta modernização.
Além de desrespeitosa à História e à Cultura, a Light foi obrigada a parar com a arbitrariedade, que era, desde 2010, proibida pela ANEEL, Agência responsável por regular as empresas de energia elétrica, por força de uma resolução.
Resolução Normativa nº 414/2010Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL"Art. 82 - É vedada à distribuidora a instalação de medição externa em locais onde houver patrimônio histórico, cultural e artístico objeto de tombamento pelo Poder Público Federal, Estadual ou Municipal, definidos em lei específica, exceto quando houver autorização explícita dos respectivos órgãos"
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