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Controversa, vacina contra HPV modifica rotina escolar

Municípios que já vacinaram não registraram reações adversas graves, mas alguns pais e médicos questionam medida

17 mar 2014
21h32
atualizado em 18/3/2014 às 15h26
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Em 2014, escolas públicas e particulares de todo o Brasil modificam um pouco sua rotina para se adequar à nova campanha de vacinação do Ministério da Saúde, que pretende imunizar meninas de 11 a 13 anos contra o HPV. A vacina, que deve atingir pelo menos 80% do público-alvo, estimado em 5,2 milhões, tem como objetivo reforçar a prevenção do câncer de colo de útero e é eficaz contra quatro subtipos da doença, inclusive o 16 e o 18, responsáveis por 70% das ocorrências de câncer. Recomendada pela Organização Mundial da Saúde, a vacina, contudo, não é unanimidade entre o público nem entre a comunidade médica. Orientar pais, alunos e professores é um dos desafios da campanha.

No Distrito Federal, onde a imunização começou já em abril do ano passado, por decisão da gestão distrital, uma das prioridades foi a formação dos gestores e coordenadores da educação para o tema. "Queríamos empoderá-los para que eles fizessem a mobilização nas escolas, principalmente junto aos pais. Pela diversidade religiosa e cultural dos estudantes, buscamos evitar conflitos, e é importante informar as famílias para, respeitando suas vontades, adotar uma estratégia", explica Gisele Nascimento, assessora da Subsecretaria de Educação Básica do DF.

Na Escola Classe 215, de Santa Maria (DF), a introdução do tema HPV começou por uma reunião com os pais para explicar como funciona a doença e apresentar a vacina. Com os alunos, fizeram oficinas com o mesmo objetivo. "No geral, a aceitação é muito boa. Este ano, como já tínhamos a experiência anterior, foi mais fácil ainda. Na escola, temos gente com todo tipo de crença, e por causa deste trabalho de orientação, alguns que tinham resistência no início acabaram mudando de ideia", conta Tatiana Brito, diretora da instituição.

A vacinação no DF em 2013 abrangeu 50 mil meninas dos 11 aos 13 anos, 80% da população-alvo. Neste ano, a campanha foi ampliada para meninas dos 9 aos 13 anos, e espera-se vacinar pelo menos 64 mil jovens. Segundo Eudóxia Dantas, chefe do Núcleo de Imunização da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, até o momento, não foi relatada nenhuma reação adversa grave. 

Cidade gaúcha vacinou meninos
Farroupilha, no Rio Grande do Sul, também se antecipou à campanha nacional e começou a vacinação contra o HPV em maio do ano passado. Além de imunizar meninas nascidas em 1999, 2000 e 2001, o município optou por atender também os meninos nesta faixa etária."Os homens são transmissores, e vaciná-los torna a proteção da comunidade mais eficaz, e a erradicação do vírus mais rápida", explica o diretor técnico da Associação Farroupilhense Pró- Saúde e coordenador da estratégia Saúde da Família e Atenção Básica, Luís Antônio Rotta. 
Neste ano, a campanha do município seguirá a faixa etária nacional para as meninas, e vacinará os meninos nascidos em 2002. 

Preparando-se para o começo da campanha no ano passado, a secretaria municipal convidou um pesquisador especialista em HPV para capacitar profissionais de saúde e professores sobre a doença e a prevenção. Em seguida, foram feitos encontros com os pais para explicar a campanha, e os professores introduziram o tema em sala de aula. "A campanha também foi um movimento educativo nas escolas, especialmente pela sensibilização", avalia Rotta. Uma das formas de sensibilização, aliás, teve o envolvimento direto dos alunos: as propagandas televisivas sobre a campanha contaram com os estudantes como atores.

O Amazonas, Estado brasileiro em que há a maior incidência de câncer de colo de útero, conseguiu imunizar 97% da população-alvo - meninas de 11 a 13 anos - também no ano passado. "O trabalho todo foi de mobilização entre as secretarias de Saúde e Educação. Realizamos videoconferência para capacitar os professores, que trabalharam a conscientização junto aos pais”, conta o diretor-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, Bernardino Albuquerque.

Grupo no Facebook reúne pessoas contrárias à vacina
Apesar da mobilização nas redes de ensino, a falta de orientações sobre a imunização na escola foi um dos fatores que incomodou Aline Silva, 34 anos. Mãe de duas meninas, uma de 11 e outra de 9 anos, estudantes da rede estadual de Contagem (MG), ela disse sentir falta de mais explicações a respeito dos riscos da vacina, uma vez que a única fonte de informação vinda da escola foi a cartilha, elaborada pelo Ministério de Saúde, que a filha mais velha levou para casa.

Aline não autorizou a vacinação da filha por ter dúvidas em relação às possíveis reações adversas, mas também por questões religiosas. "Por ser cristã, acredito no princípio de só haver relação sexual após o casamento, e crio minhas filhas dentro deste princípio. Se eu permitir que minha filha de 11 anos tome a vacina contra uma doença sexualmente transmissível, que mensagem estou passando para ela?", questiona a dona de casa.

Desde que ouviu falar da vacina, ainda no ano passado, Aline começou a pesquisar sobre o vírus e a imunização. "Ela combate apenas quatro subtipos do HPV, ou seja, não garante nada. Se eu tivesse certeza de que ela impede o câncer de surgir, poderia pensar em vacinar após o casamento ou próximo ao casamento", diz. E Aline não está sozinha em seus questionamentos: ela faz parte de um grupo contra a vacina no Facebook que, até o fechamento desta matéria, contava com mais de 400 membros.

A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade foi uma das entidades a se posicionar contrariamente à estratégia do ministério. Segundo Daniel Knupp, diretor de pesquisa e pós-graduação da instituição, não é possível comprovar a eficácia da vacina, uma vez que o câncer de colo uterino pode se desenvolver ao longo de 30 anos a partir das lesões precursoras, e ainda não houve tempo suficiente para se constatar que ela reduz, de fato, a incidência da doença. 

Esta questão é abordada também em uma análise crítica divulgada pelo Núcleo de Telessaúde Técnico-Científico do Rio Grande do Sul, que aponta que os resultados de proteção encontrados para as lesões não refletem, necessariamente, na redução da incidência de câncer. Segundo a análise, 63% das neoplasias intra-epiteliais de grau 2 - as lesões que originam o câncer - em mulheres entre 13 e 24 anos regridem espontaneamente após três anos. 

Reações adversas
Knupp argumenta também que a segurança da vacina não foi comprovada. Uma avaliação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos mostrou que, entre os efeitos adversos mais comuns, estiveram síncope (desmaios), dor ou ardência no local, tontura, náusea e dor de cabeça, sintomas considerados comuns após vacinas. Dos 12.424 relatos de reações, 772 descreveram eventos sérios, incluindo 32 mortes. Não foi encontrado, contudo, um padrão comum entre as mortes, e não há provas de que elas têm relação com o medicamento. "As reações parecem estar um pouco acima das encontradas nas demais vacinas, mais ou menos quatro vezes o índice da meningocócica e oito a mais do que contra a influenza", analisa Knupp. Outro estudo, realizado na Suécia e na Dinamarca, publicado em outubro de 2013 no British Medical Journal, observou, inicialmente, associações da vacina com Síndrome de Behcet, Doença de Raynaud e diabetes tipo 1, mas não comprovou que elas foram decorrentes da imunização.

"Quando você vacina milhões de pessoas, elas não ficam imunes a outras enfermidades, e nem tudo que acontece depois tem relação com a vacina. Vacinaremos milhões de pessoas, algumas terão doenças normais da faixa etária", contrapõe o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa. O secretário reforça que as reações adversas serão monitoradas, e que a menina que apresentar sintomas atípicos após a imunização deve procurar a unidade de saúde mais próxima para relatar o caso. Sobre a questão moral levantada pelos pais, Barbosa nega que a vacina possa incentivar os jovens a iniciarem a vida sexual mais cedo. "Há pesquisas na Austrália e nos Estados Unidos que mostram que a aplicação da vacina não antecipou o início da atividade sexual. Respeitamos as convicções religiosas, mas as preocupações não se sustentam", afirma.

O HPV e a vacina
Em 2014, são esperados 15.590 casos novos de câncer do colo do útero no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Entre as mulheres, esta é a quarta causa de morte por câncer no País. Contudo, o diagnóstico precoce, aliado ao tratamento adequado, garante praticamente 100% de chance de cura. O ministério destaca que a vacina não substitui os outros métodos de prevenção contra o HPV, como o uso de preservativos durante a relação sexual, e a realização periódica do exame Papanicolau.

Fonte: Márcia Schuler Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra
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