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Funcionário que enterrou mais de 100 vítimas da Kiss luta contra depressão

Funcionário do cemitério que presenciou o enterro de mais de 100 vítimas afirma que a tragédia da Kiss fez "coração amolecer"

27 jan 2014
06h09
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Viver uma tragédia como a da Boate Kiss, em Santa Maria, onde 242 pessoas morreram em um curto espaço de tempo, na madrugada de 27 de janeiro, é bem diferente de apenas ouvir os relatos a uma distância segura emocionalmente. Entretanto, até mesmo quem estava acostumado com a morte sucumbiu ao que aconteceu na cidade. É o caso do administrador dos cemitérios municipais, Gelson Altemir Silva da Silva, 49 anos, que presenciou mais de uma centena de enterros em apenas dois dias. Experiência que ele nunca vai esquecer, com consequências psicológicas contra as quais ele ainda luta, mas que amoleceu de vez o coração de alguém que lidava cotidianamente com a morte. 

Gelson Altemir Silva da Silva presenciou mais de uma centena de enterros em apenas dois dias
Gelson Altemir Silva da Silva presenciou mais de uma centena de enterros em apenas dois dias
Foto: Daniel Favero / Terra

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"A gente trabalha normal, só que a gente percebeu que, com aquilo, perdeu um pouco (da blindagem). A gente trabalha ali dentro, infelizmente a gente tem que ter o coração meio duro, saber separar. Mas depois daquilo a gente não conseguiu, o nosso coração amoleceu mais. A gente tratava aquilo friamente, e hoje não", relata Silva, ao contar na tarde nublada de sábado o cenário de guerra que vivenciou naqueles dias, e que ainda o assombram diariamente. 

Mesmo depois de décadas trabalhando com a morte, assunto que a maioria prefere evitar, Silva relata que ninguém poderia estar preparado para algo semelhante ao que aconteceu em Santa Maria. "A gente não sentiu a dor que a família sente, mas a gente podia imaginar, e um pouco você tira também. Era muito sofrimento, era muita gente chorando, tinha gente desmaiando. Aquilo ali virou tipo uma praça de guerra", relembra, dizendo que a cena mais horrível daqueles dias, e talvez de sua vida, foi o que presenciou no ginásio de esportes para onde eram levados os corpos das vítimas.

"A gente foi lá no CDM para ver a gravidade, ver realmente o que tinha de sepultamentos. (O que eu vi) eram os celulares tocando nos bolsos das pessoas ali. Os familiares tentando entrar em contato, não sabendo (que eles tinham morrido). Aquilo ali afetou bastante. Imaginando o desespero da pessoa ligando para o filho ou para a filha e não sendo atendido. E o celular tocando no bolso...", conta.

Entretanto, a mobilização daqueles dias fez com que Silva se isolasse do que realmente tinha acontecido. Ele apenas trabalhou incessantemente, tentando amenizar a dor daquelas famílias, dando um desfecho para a tragédia que cada uma vivia. Os efeitos do que ele viveu apareceram logo depois que aquilo tudo terminou, mas nem por isso foram amenos.

"A gente sente quando são pessoas jovens, como nesse caso... A gente viu todos (os corpos). Um por um... Todos (me marcaram). O sofrimento dos familiares era incalculável, as mães, os irmãos, as pessoas desmaiando o tempo todo... A gente sempre acha que vai conseguir superar. É que o nosso trabalho... a gente não leva coisas do serviço pra casa, e nem de casa para o serviço. Só que é um negócio que você não pode comentar, mas também não pode deletar. Você lida com a morte o dia todo. Então o meu dia a dia é caótico. É um trabalho que ninguém quer fazer, mas alguém tem que fazer."

Isso tudo mudou Silva, que hoje espera que os três anos que faltam para sua aposentadoria cheguem logo, uma vez que ele sente "um saco de cimento" nas costas quando entra no cemitério, onde diariamente cruza com as sepulturas de dezenas dos jovens mortos na tragédia.

"Eu andava ali dentro como se estivesse andando na rua, caminhando normal - nós temos na base de 30 a 50 mil sepultados ali. Então, para mim, andar ali dentro era como andar na cidade, numa praça. Só que, hoje, para todos os lados que você anda você enxerga as fotos (das vítimas da Kiss)."

Funcionário do cemitério, acostumado a lidar com a morte diariamente, afirma que a tragédia da Kiss fez "coração amolecer"
Funcionário do cemitério, acostumado a lidar com a morte diariamente, afirma que a tragédia da Kiss fez "coração amolecer"
Foto: Daniel Favero / Terra

O que mais mexe com ele é o futuro perdido daqueles jovens. "Era uma vida que estava começando, com sonhos, desejos, carreiras.  Eu, como funcionário, procuro não saber quem eram. Só sinto as vidas que foram ceifadas. Que saíram na melhor das intenções, se divertir. Quem sabe um dia seria alguém, seria um médico, um veterinário ou um advogado que um dia talvez fosse fazer algo para mim ou por mim, ou por toda a cidade? Uma vida que foi interrompida. Eu também tenho uma filha de 20 e poucos anos e um menino, então eu posso imaginar o que essa família sente. Para mim, os meus (filhos) são tudo", relata.

Em todos esses anos trabalhando no cemitério, ele aprendeu que, pelo menos ali, todos são iguais, porque não importa a classe social ou origem, todos um dia morrem. "Às vezes você vê um mendigo e você não dá muita bola para ele, e outro no carrão, endinheirado, mas, no final, quem vai enterrar é o pedreiro com o chinelo com a tira arrebentada, com a roupa rasgada, semianalfabeto ou até analfabeto... no final, todos são iguais", finaliza, com um sorriso no rosto, mesmo depois de demonstrar tanta dor no olhar e nas palavras.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissandro - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Terra
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