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Sob risco romper, barragem em MG entra em estado de vigília

Alerta máximo do reservatório Sul Superior da Vale traz tensão e medo a cerca de 6 mil moradores de cidade mineira

25 mar 2019
03h11
atualizado às 07h38
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BARÃO DE COCAIS - No momento em que se completam dois meses da tragédia de Brumadinho, onde o rompimento de uma barragem de rejeitos da Vale deixou pelo menos 212 mortos, a cidade de Barão de Cocais (MG), onde também há uma barragem da empresa em risco iminente de rompimento, vive um estado de vigília.

Desde 8 de fevereiro, com a subida para o nível de segurança 2 da barragem Sul Superior, da mina de Gongo Soco, cerca de 6 mil dos 28 mil moradores da cidade, habitantes das margens do Rio São João, têm dificuldade para dormir. Em caso de rompimento, a lama de rejeitos descerá pelo curso d'água.

Vista geral do entorno da barragem Sul Superior, da mina do Gongo Soco, em Barão de Cocais, cidade da região Central de Minas
Vista geral do entorno da barragem Sul Superior, da mina do Gongo Soco, em Barão de Cocais, cidade da região Central de Minas
Foto: RAMON BITENCOURT/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO / Estadão Conteúdo

Desde sexta-feira, 22, com nova elevação do nível de segurança da estrutura, agora para 3, o que significa ruptura iminente ou em andamento, o temor se intensificou e moradores que poderão ser atingidos chegam a manter o carro pronto na garagem com documentos, álbum de formatura de filhos e lembranças da residência que pode ser destruída.

Maria Oliveira Coluna, de 52 anos, que mora às margens do rio, na região central da cidade, conta que está em pânico. Ela afirma ter feito a única coisa que poderá levar consigo se tiver que deixar sua casa. "Fiz um vídeo. Gravei tudo na minha casa. Até as plantas. Ao vê-lo depois, se eu tiver mesmo que ir embora, vou lembrar da vida que tive e arrancaram de mim."

Outra moradora da cidade com casa às margens do rio, a dona de casa Edna Aparecida Oliveira Silva, de 60 anos, decidiu se preparar para a partida a qualquer momento, levando tudo o que não pode deixar para trás. "Já disseram que a gente não vai ter tempo de pegar nada, então coloquei no porta-malas do carro o álbum de formatura da minha filha, algumas lembranças da casa e documentos."

Edna afirma que voltou a sentir sintomas de depressão e pânico - problemas que teve no passado, mas que julgava resolvidos. "Não estava tomando mais remédios, mas não tem jeito. Nem cochilo à noite. Vou ter que voltar com o tratamento."

Adriana Aparecida Dutra, de 37 anos, transformou o carro praticamente em um guarda-roupas. "Aqui ninguém aguenta mais. Tem hora que dá vontade de ver essa barragem ruir, para acabar com isso de vez." Ela conta que alguns conhecidos já abandonaram suas casas. "Uma família de Mariana, que tinha uma parente de 90 anos vivendo aqui, a levou embora", diz.

Placas indicando rotas de fuga foram instaladas na cidade. Com temor, um grupo de moradores faz vigília à noite em uma das pontes sobre o Rio São João. "Eles dormem de dia e ficam lá à noite", conta Edna.

Sem volta

A agente de saúde Isabel Cristina Batista, de 45 anos, perdeu a esperança de voltar para casa. Ela morava no distrito de Socorro, o mais próximo da represa, e foi retirada de casa no dia 8 de fevereiro, na elevação anterior do nível de segurança da barragem de 1 para 2.

Na ocasião, cerca de 500 pessoas que moravam na chamada zona de autossalvamento (ZAS) foram retiradas das suas casas. Essas moradias, que ficam a uma distância de até 10 km da barragem, seriam atingidas muito rapidamente em caso de rompimento. Já os moradores do centro, que vivem às margens do rio, seriam atingidos em cerca de 1 hora, o que, segundo a Defesa Civil, é tempo suficiente para evacuar todo mundo em risco.

Isabel, que morava no distrito com o filho, a irmã, o pai e a mãe, está agora em um hotel em Santa Bárbara, junto com todos os parentes. "A situação piorou. Quando disseram que a barragem seria descomissionada, achamos que poderíamos voltar. Agora, com essa incerteza, acho difícil", afirma.

A Defesa Civil concluiu no domingo, 24, um plano de salvamento para o caso de a barragem se romper. Com base em novos cálculos, o órgão estimou que 6.054 moradores de Barão de Cocais, em vez dos 9 mil anunciados anteriormente, terão de ser evacuados. Mas um eventual rompimento pode atingir também duas outras cidades: Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo. Somando as três cidades: cerca de 9,8 mil pessoas teriam de ser tiradas de suas casas.

Segundo o tenente-coronel Flávio Godinho, coordenador adjunto da Defesa Civil de Minas Gerais, o tempo para que a lama atinja Santa Bárbara é de 3h06 minutos. A São Gonçalo do Rio Abaixo, os rejeitos chegam 6 horas após o rompimento. As três cidades passarão por simulados de rompimento da barragem nos próximos dias. O de Barão de Cocais já será realizado nesta segunda, 25.

O Ministério Público de Minas enviou no domingo duas petições à Justiça. Na primeira, requer que a Vale "se responsabilize pelo abrigamento e acolhimento de pessoas e animais", prestando toda a assistência às famílias desabrigadas.

Em outra, pediu o bloqueio de R$ 120 milhões da Vale para realização de auditoria técnica para garantir a segurança das barragens como Sul Superior, Vargem Grande (Nova Lima), B3 e B4 do Complexo Minerário Mar Azul (Nova Lima) e Grupo Foquilhas do Complexo Mina de Fábrica (Ouro Preto). A promotoria afirma que, apesar de vários pedidos feitos à empresa, ainda não há certeza quanto à condição das estruturas.

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Estadão

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