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Os relatos de apuro de quem usa os trens da Supervia, no Rio

Após a colisão que deixou mais 200 feridos na noite da última segunda-feira, em Mesquita, o Terra ouviu relatos de quem usa diariamente os trens intermunicipais e está cansado do serviço prestado

6 jan 2015 - 16h27
(atualizado às 16h57)
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Composições ainda velhas, que já passaram por seguidas reformas, e, em alguns casos, “remendadas”. Calor insuportável quando o ar condicionado não está a contento, ou mesmo quando ele inexiste. Falta de segurança com os arrastões dentro dos vagões. Falta de manutenção. Usuários irresponsáveis que danificam portas e janelas. Funcionários despreparados – vale lembrar do episódio das chicotadas nos passageiros em Madureira.

O acidente entre dois trens na estação Presidente Juscelino, em Mesquita, na Baixada Fluminense, na noite da última segunda-feira, foi mais um episódio de serviços mal prestados pela Supervia, concessionária responsável pelos trens que circulam dentro da região metropolitana do Rio de Janeiro.

O choque entre as composições que estavam no mesmo sentido, uma em movimento, e a outra, abalroada enquanto estacionada na plataforma, deixou mais de 200 feridos e interrompeu o ramal de Japeri. O acidente entra na lista de uma série de eventos em que, por mais que a concessionária Supervia solte nota para a imprensa dizendo que prestou todos os serviços necessários de socorro aos passageiros, e que a Agetransp divulgue prontamente que, como agência reguladora, está investigando a fundo o caso, no fundo, o maior prejudicado é quem encontra no trem seu único sistema de locomoção entre os municípios da região metropolitana do Rio.

O Terra foi até a Central do Brasil, de onde partem todos os ramais do sistema, para conversar com quem diariamente usa os trens da Supervia.  Só valeriam os relatos aleatórios, sim, mas de quem usa, porém, todos os dias úteis da semana o trem para se locomover. As entrevistas não trazem novidade: misto de insegurança, calor, aperto nos horários de pico, vão excessivo entre trem e plataforma, dentre outras mazelas. Sem deixar de falar de alguns arruaceiros que insistem em danificar um bem privado, mas de uso público.

“Quando eu vi na TV o acidente, logo pensei que poderia ter acontecido comigo, que eu poderia ter morrido"
“Quando eu vi na TV o acidente, logo pensei que poderia ter acontecido comigo, que eu poderia ter morrido"
Foto: André Naddeo / Terra

O secretário estadual de Transportes, recém-empossado ao cargo, Carlos Roberto Osório, já anunciou que até o final do ano mais 53 novos trens chegarão para os usuários. A melhora até é sentida por quem já usa há décadas o sistema. Longe, porém, de agradar e dar o conforto necessário para quem passa horas por dia para ir e voltar do trabalho e ainda corre o risco de acidentes e de ser assaltado.

Lena Rodrigues, 56, telefonista. Usuária do ramal Deodoro

Eu acho tudo péssimo. Eu nem sei se deveria ficar aqui te dando essa entrevista porque nunca adianta nada. Vê aí há quantos anos vocês jornalistas contam problemas com os trens. Foram vários, né? Não tenho mais paciência, mas o que eu posso fazer se o trem é a minha única opção? Vou pegar van clandestina?

Para mim tinha que melhorar tudo. Tudo bem, você percebe que chegaram trens novos. Está melhor do que antes, sim. Mas, fala sério, já estamos em 2015 e você ainda vê trem circular de porta aberta! Sem falar na diferença, no espaço que tem entre o trem e a plataforma. Já cansei de ver senhores e senhoras de idade tropeçando ali. É muito perigoso. É meio que uma bomba relógio. Esse acidente de ontem foi um caso de muita sorte. Muita gente poderia ter morrido. É o que eu acho.”

Jurema Costa, 55, vendedora. Usuária do ramal Japeri

Quando eu vi na TV o acidente, logo pensei que poderia ter acontecido comigo, que eu poderia ter morrido. Acho que todo mundo que usa todo dia isso aqui pensou na mesma coisa. Melhorou bastante dos últimos anos para cá, tenho que dizer, porque antes era o verdadeiro inferno na Terra. Não só pelo calor, não, porque era tudo um lixo mesmo. Agora é um lixo melhorado, digamos assim.

As portas ficaram fechadas. Ninguém explicava nada. O tempo foi passando e as pessoas, ficando desesperadas. Muita gente começou a pular pelas janelas"
As portas ficaram fechadas. Ninguém explicava nada. O tempo foi passando e as pessoas, ficando desesperadas. Muita gente começou a pular pelas janelas"
Foto: André Naddeo / Terra
Não vou falar que fica muito cheio, que a gente não consegue sentar e que ainda passa calor, porque, meu filho, você sabe que isso acontece e todo mundo já está careca de saber. Mas o que tem me chamado atenção mesmo é a falta de segurança. Ainda existem muitas cracolândias nas próprias linhas de trem. Semana passada jogaram uma porção de pedras no vagão que eu estava. Qualquer hora o trem vai parar ali, como acontece sempre, né, e a gente vai ser atacado por esses caras. Fico com medo disso todo dia.

Euclício de Oliveira, 31, encarregado complementar. Usuário do ramal Saracuruna.

Para mim a qualidade melhorou, sim. Está um pouco melhor viajar pela Supervia. Pelo menos aumentaram o número de trens com ar condicionado. Só que ainda tem muito problema, meu deus. São dois os principais problemas. Primeiro, a falta de educação das pessoas. Ontem mesmo eu voltava para casa e um idiota estava chutando uma gaveta onde estava a fiação do trem. Para que isso? Vivo vendo gente abrindo a porta, chutando a janela. E claro que a Supervia também não tem uma boa manutenção, né? Mas enfim.

Ademilde: "O que eu reparei é que esses trens estão remendados. Alguns são novos, mas se você reparar bem, é um monte de remendo"
Ademilde: "O que eu reparei é que esses trens estão remendados. Alguns são novos, mas se você reparar bem, é um monte de remendo"
Foto: André Naddeo / Terra
Meus dois maiores apuros aconteceram, coincidentemente, em dezembro do ano passado. O primeiro foi quando eu cheguei na Central do Brasil e, do nada, o trem apagou. As portas ficaram fechadas. Ninguém explicava nada. O tempo foi passando e as pessoas, ficando desesperadas. Muita gente começou a pular pelas janelas, tentar quebrar a porta e ninguém para ajudar. Imagina, num calor daquele, tudo fechado, desligado? Uma sauna! Foram 15 minutos de muito sufoco até conseguirem abrir aquilo. Muita gente passou mal e alguns até desmaiaram.

Uma semana depois disso, eu passava por Manguinhos quando subiu um grupo de uns quatro caras mal encarados. Na hora escondi o meu celular na cueca. Não deu outra: o trem saiu, e eles começaram o arrastão. Fingi que estava dormindo, quem sabe com isso eles não perderiam tempo comigo. Acabou dando certo, porque teve gente agredida e eles levaram dinheiro e celular de muita gente. Mas não me encheram o saco. Desta vez eu tive sorte. Desta vez.

Ademilde Gouveia, 57, dona de casa. Usuária do ramal de Japeri

Não dá para ficar satisfeita, não. Voltar para casa sentada só com muita sorte. Faz parte, vai, tudo bem, mas quando é que vão consertar e colocar trens de verdade? Para mim é um bando de sucata. Vi esse acidente aí, é o ramal que eu uso todo dia. Todo dia eu passo pela estação do acidente até onde eu moro, em Nova Iguaçu.

José: "Considero tudo razoável. Não ligo de viajar em trem velho, não. Ué, foi assim a minha vida toda, por que vai mudar agora, né?
José: "Considero tudo razoável. Não ligo de viajar em trem velho, não. Ué, foi assim a minha vida toda, por que vai mudar agora, né?
Foto: André Naddeo / Terra
O que eu reparei é que esses trens estão remendados. Alguns são novos, mas se você reparar bem, é um monte de remendo. É só você entrar e ver. Ficam fazendo propaganda, mas a gente continua sofrendo. Até quando? Graças a deus meus filhos não têm que usar isso, porque semana passada mesmo roubaram a minha bolsa. Você passa calor, a porta às vezes fica aberta, o trem é velho e você ainda é assaltado?

José Carlos da Silva, 70, aposentado. Usuário do ramal Belford Roxo

Considero tudo razoável. Não ligo de viajar em trem velho, não. Ué, foi assim a minha vida toda, por que vai mudar agora, né? Às vezes eu fico esperando um tempão, demora, eu passo calor, mas tudo bem. O que me preocupa mesmo são esses bandidos. Já me assaltaram, e hoje em dia eu só confio mesmo é em deus. Tem que estar muito atento, mas já estou velho, então, como eu te disse, não tem muito o que fazer. É muito aperto, muito sufoco, mas vamos nessa. 

Fonte: Terra
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