"Nasci outra vez", diz morador de pensão que explodiu em SP
Barman que ajudou a resgatar feridos disse ter visto “cenas terríveis”; Comgás tem até terça para providenciar alojamento definitivo para moradores
Morador da pensão que explodiu na madrugada de sábado após um vazamento de gás, o barman Isaías Pereira dos Santos, 27 anos, disse que ajudou a resgatar vítimas feridas e que as “cenas terríveis” que presenciou não saem da sua cabeça.
“A sensação fica na memória, foram cenas terríveis. Um homem estava sem os dedos das mãos, o outro estava soterrado até o pescoço. Tinha uma gestante ferida também. Eu estava dormindo quando tudo aconteceu, meu colega que me acordou. Nasci outra vez”, disse Santos.
A pensão, que acomodava 28 famílias, fica na Rua do Glicério, no bairro da Liberdade, centro de São Paulo. A explosão ocorreu por volta das 5h de sábado, em um encanamento da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás) na rua – e não dentro do imóvel. Segundo a Comgás, após uma reclamação sobre cheiro de gás recebida às 2h40, uma equipe foi enviada até o local.
Das nove pessoas feridas, cinco já tiveram alta e quatro continuam internadas – duas em hospitais particulares, uma no Hospital das Clínicas e outra na Santa Casa. A reportagem não conseguiu informações sobre o estado de saúde das vítimas.
“Vamos pedir indenização, sim. Não é querer se aproveitar da situação, mas eu poderia estar morto agora”, continuou Santos.
A Comgás informou na tarde deste domingo que de fato é de sua responsabilidade o pagamento de indenização relativa a bens materiais que tenham sido perdidos na explosão. A companhia informou também que tem de 24 horas a 48 horas, contadas a partir de hoje, para garantir alojamento definitivo às famílias – nesse caso, a Comgás informa que, como os moradores são inquilinos, e não proprietários, sua responsabilidade vai apenas até o fim do prazo dos aluguéis já pagos.
Descaso
Sem poder resgatar seus pertences e sem ter onde ficar, as famílias que moravam na pensão agora sofrem com a incerteza diante do futuro. Muitas também reclamam de descaso e relatam que, até chegar na tarde deste domingo em um hotel no Brás, no centro de São Paulo, passaram por outras duas pensões onde não havia nem água, no Cambuci e no Brás.
“Nos levaram para uma pensão toda bagunçada, com banheiro compartilhado, tudo sujo, não tinha nem água. Não tem condição de ir pra lá com as crianças”, disse a garçonete Maria de Fátima Souza Bandeira, 29 anos, que tem uma filha de 4 anos e um filho de 14 anos e preferiu dormir na casa da irmã.
"Tiram a nossa moradia e agora nos oferecem um lugar nessas condições? E hoje ainda aparece gente aqui dizendo que não pode fazer nada, que é domingo. Eles estão todos em suas casas, já dormiram e já comeram. E a gente aqui, nessa situação”, lamentou a auxiliar de ensino Patrícia Vieira da Silva, 26 anos, que também recusou a ospedagem e dormiu na casa da sogra.
Todas as pessoas com quem a reportagem conversou neste domingo disseram que foram encaminhadas por pessoal da Comgás às pensões e que somente após as reclamações e relatos na imprensa foram levadas para o hotel melhor. A Comgás nega, mas a reportagem encontrou duas representantes da companhia no hotel do Brás, onde estavam moradores que já haviam passado pelas outras duas pensões.
Em nota, a Comgás afirmou que "continua prestando assistência às pessoas do incidente" e que "algumas foram transferidas para albergues e hotéis, outras preferiram ir para casa de familiares e amigos". A companhia disse ainda que continua monitorando a evolução do quadro de saúde dos feridos. Quanto à Prefeitura de São Paulo, o Terra entrou em contato com a Secretaria Municipal de Assitência e Desenvolvimento Social, mas não obteve retorno.