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Chuvas no Recife são 'consequências extremas' do fenômeno La Niña, diz especialista

Com o aumento de ventos e massas de ar úmido, Norte e Nordeste passam por período de chuva anormal em 2022

28 mai 2022 18h19
| atualizado às 18h26
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As chuvas que causaram mortes neste sábado, 28, no Recife podem estar diretamente relacionadas ao La Niña, fenômeno climatológico que causa o aumento de precipitações nas regiões Norte e Nordeste do País. Nesta madrugada, pelo menos 30 pessoas morreram vítimas de deslizamentos de terra na Grande Recife, informou a Defesa Civil de Pernambuco.

De acordo com Pedro Côrtes, geólogo da USP, o grande volume de chuva está sendo provocado pelo aumento dos ventos que sopram na direção do continente — que são típicos da região nesta época do ano. Esse fenômeno, intensificado em época de La Niña, converge massas de ar úmidas para o Norte e Nordeste, ocasionando fortes chuvas nos Estados.

Desde o ano passado, porém, com o período de enchentes na Bahia e em outros Estados da região, o volume de precipitação tem sido anormal mesmo para o período. Segundo Côrtes, o aumento da temperatura do Oceano Atlântico também é um fator que contribui para o aumento da umidade das massas de ar. O aquecimento, segundo ele, pode ter origem nas mudanças climáticas que ocorreram nos últimos anos.

"Durante o La Niña, é comum que haja um aumento dos ventos na região equatorial e, com isso, que mais massas de ar úmido sejam carregadas para o interior do continente. O aquecimento do Oceano Atlântico não está ligado a esse fenômeno, mas foi uma coincidência que potencializou as chuvas no Norte e no Nordeste", afirma Côrtes ao Estadão.

Em média, foi possível registrar nesta madrugada um volume de chuva de 236,01 milímetros, valor que corresponde a mais da metade do registrado em todo o mês de maio de 2021, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Para este ano, o volume já representa 70% do total previsto para o mês.

Outro fator determinante para os alagamentos é a própria estrutura litorânea da região. Por estar perto do mar, os rios que cortam a Grande Recife recebem um volume de água maior do que podem comportar. Assim, esses cursos não conseguem desaguar no oceano com facilidade, o que prolonga o escoamento da chuva.

"Os fenômenos climáticos continuam estáveis há um tempo, tanto o El Niño quanto o La Niña. Mas há uma tendência grande no aumento da intensidade de como as consequências desses eventos atingem o continente", explica Côrtes.

Para José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ainda é cedo para falar se a anormalidade das chuvas é, de fato, resultado do aquecimento global. "Mas o cenário futuro de clima mostra que esses extremos de chuva podem ser mais frequentes em uma área vulnerável, essas chuvas alcançam as consequências que podemos observar", explicou Marengo ao Estadão.

Estadão
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