Chácara centenária vai virar novo Sesc em São Paulo; veja onde
Futuro Sesc Pirituba inclui imóvel do antigo clube holandês; projeto vai recuperar características originais da casa
Era a chácara e mais nada. Há quase 100 anos, o casarão em que morou a família do inglês Aleck Martin Wellington ficava praticamente isolado ao norte da cidade de São Paulo, então bem menos urbanizado, sem os prédios, a rodovia e os milhares de habitantes de hoje. Como o entorno, a residência passou por transformações ao longo das décadas e até virou um clube holandês. Uma outra mudança ainda está por vir, com o resgate das características originais e a conversão em um dos principais atrativos do futuro Sesc Pirituba.
O casarão era a antiga casa-sede da chamada Chácara Ibiapaba, na qual a família Wellington viveu de 1929 a 1962, segundo levantamento histórico que embasa o projeto do Sesc. No terreno, havia jardim, piscina e um haras. A construção se destacava também pela lareira, os dois terraços e as janelas de estilo "bay-window", que se projetavam para fora da residência.
O terreno - na então denominada Estrada Velha de Campinas - pouco antes servia de pasto para um frigorífico norte-americano e foi parte da antiga Fazenda Anastácio Capuava, que remonta ao século 19. Junto à estação Pirituba, é um dos núcleos iniciais de povoamento daquela região após a colonização.
Em 1962, a residência passou ao Clube Holandês - fundado em 1927, então sem uma sede própria -, que realizou atividades sociais diversas no local, com a dissolução oficializada em 2007. Nesse período, a casa passou por alterações arquitetônicas, ganhando anexos, que serão demolidos.
Inicialmente, a agremiação destinava quartos no segundo pavimento para receber hóspedes holandeses de férias em São Paulo, enquanto o térreo contemplava restaurante e vestiário. O espaço era conhecido também pelas festas, quermesses e bazares beneficentes, além do restaurante panorâmico no casarão.
Em 1996, uma reportagem do Estadão descrevia a Sociedade Holandesa como "um clube familiar em meio à exuberância da natureza" e um "clube de campo dentro da cidade". À época, a presidência já se preocupava em aumentar o quadro societário, de então 813 sócios e dependentes, grande parte brasileiros. Segundo o texto, o imóvel foi adquirido com a contribuição de empresas holandesas, como a Philips.
Na resolução de tombamento do Conpresp, de 2016, é destacado "o valor histórico e urbanístico desse conjunto, representativo do processo de ocupação decorrente da implantação da linha férrea da São Paulo Railway e da presença expressiva da imigração inglesa e holandesa, fundamentais no desenvolvimento da região de Pirituba", assim como "o valor afetivo e cultural dessa área para a população do bairro".
Além da antiga chácara, o distrito tem outros dois imóveis tombados: o Hospital Psiquiátrico Philipe Pinel, inaugurado também nos anos 1920, e o "Castelinho de Pirituba", dos anos 1930, hoje parte de um condomínio. Além disso, há um estudo para o tombamento de um imóvel ligado à Fundação Casa Pirituba, na Rua Stéfano Mauser.
Um levantamento feito por encomenda do Sesc identificou que o casarão está em "razoável" conservação, com alguns problemas considerados superficiais, como manchas de umidade, trincas e pintura destacando. Ele é de alvenaria de tijolos e telhado de cerâmica.
No caso da pintura, uma prospecção identificou as cores originais da edificação, que serão recuperadas na obra, com o predomínio do bege (fachada), do verde e do cinza (em janelas, portas e aberturas em geral). Os pilares revestidos com granito também serão restaurados.
O projeto do Sesc contempla também novas edificações, concentradas principalmente no terreno municipal, com três blocos principais de até três pavimentos, com biblioteca, salas multiuso, clínica odontológica, comedoria, teatro, piscinas cobertas, salas de ginástica, quadra coberta e outros espaços. O térreo é aberto, com um vão livre abaixo dos pilotis (pilares), pelo qual o público poderá circular e passar o tempo.
O imóvel fica nas proximidades da Rodovia dos Bandeirantes e a cerca de 800 metros do Terminal Pirituba e da estação homônima da CPTM, da Linha 7-Rubi, que liga o centro paulistano a Jundiaí. O público-alvo principal é de moradores de distritos vizinhos, como Pirituba e Brasilândia.
Este será o segundo Sesc da zona norte paulistana, além do Santana. A autorização da concessão do terreno municipal está na lei 16.611/2017, a mesma que concedeu, por igualmente 99 anos, uma área municipal em São Miguel Paulista, na zona leste, para uma futura unidade do Sesc.