Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Bairro da Liberdade vai ganhar memorial e mirante para capela; conheça história

Proposta vencida por professores e estudantes de arquitetura da FAAP sugere construção de três andares e mirante na altura da Rua Galvão para melhor visualização da Capela dos Aflitos

12 jun 2023 - 17h10
(atualizado em 12/6/2023 às 16h46)
Compartilhar
Exibir comentários

A Prefeitura de São Paulo elegeu o projeto arquitetônico que vai dar materialidade ao Memorial dos Aflitos, no bairro da Liberdade, região central da capital paulista. A edificação foi desenhada por uma equipe de arquitetos, professores e estudantes de arquitetura da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), que foi a vencedora do concurso promovido pela própria administração pública, no final do ano passado, para definir o modelo do monumento.

A edificação vai ser erguida em um lote estreito e longo, entre a Rua Galvão Bueno e a Rua dos Aflitos. A diferença de altura entre as extremidades é de 4,5 metros, e o Memorial funcionará como um caminho contínuo que ligará as duas vias. O projeto prevê que o espaço tenha três andares conectados por escada e uma plataforma hidráulica, duas praças - uma em cada entrada do Memorial -, e que o piso superior, na altura da Galvão Bueno, sirva de mirante para a Capela dos Aflitos, que também foi valorizada no projeto.

A Capela dos Aflitos é tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).

O monumento será construído estrategicamente no Sítio Arqueológico Cemitério dos Aflitos, nas adjacências da Capela, como forma de fazer uma reparação histórica a grupos de populações negras e indígenas que viveram na região, mas que, segundo historiadores e movimentos sociais, tiveram essa ocupação excluída dos registros oficiais da cidade.

"Poucos sabem que a Liberdade era um bairro negro", diz Marcio Coelho, arquiteto e professor da FAAP, um dos responsáveis por coordenar a equipe vencedora do concurso. "O projeto que desenvolvemos pretende dar o devido reconhecimento a grupos sociais, no caso a população negra e indígena, que não eram contemplados por essa história oficial, pois não eram entendidos como dignos de serem incluídos", explicou o docente.

De acordo com o arquiteto Coelho, a obra do Memorial não deve impactar a rotina da população que vive e trabalha nas redondezas. "É normal ter barulho e poeira, mas a rotina da região não deve mudar tanto porque é uma construção restrita ao terreno da Prefeitura", diz. As obras ainda não têm prazo para começar.

No momento, estão sendo feitas reuniões entre os autores do projeto, a Secretaria Municipal da Cultura e a comunidade local visando o detalhamento da proposta. A Prefeitura ainda depende do desenvolvimento do projeto executivo, que tem prazo de entrega de 90 dias, para lançar o edital de contratação da empresa que vai executar a obra. O valor apresentado no edital do concurso para custear o empreendimento é de R$ 3,6 milhões.

A ideia é que o Memorial dos Aflitos seja, de acordo com Coelho, um espaço de encontro, "essencialmente público", e que possa chamar a atenção por contar uma história que, por tempos, "foi desprezada e apagada". Além do acervo que será instalado - a escolha do conteúdo expositivo caberá à Secretaria Municipal de Cultura -, o arquiteto espera que o monumento também receba manifestações e celebrações culturais voltadas à memória dos povos homenageados.

A equipe vencedora é composta pelos arquitetos e professores de Arquitetura da Faap Ana Marta Ditolvo, Eduardo Colonelli e Marcio Novaes Coelho Jr.; pelo arquiteto formado Arthur dos Santos da Silva; e pelos estudantes Fernanda Silva, Luigi Miguel, Thiago Santos de Oliveira, Vitoria Vertoni e Yannick Kablan.

Outros detalhes que vão fazer parte do Memorial dos Aflitos

  • Fachadas envidraças nas duas extremidades - o projeto também propõe a instalação de um painel artístico na calçada da Galvão Bueno;
  • Vista desobstruída para a torre da Capela a partir do acesso da rua;
  • Frestas longitudinais junto às paredes de taipa para entrada de luz e ventilação naturais nos espaços internos;
  • Fechamento do acesso inferior (rua dos Aflitos) será feito em diagonal para que a torre da Capela seja refletida para quem se aproxima a partir do beco;
  • No acesso superior (rua Galvão Bueno) o fechamento será recuado e será criado um fosso inglês para iluminação ventilação natural do subsolo;
  • O encontro do piso interno, de ladrilho hidráulico, com as paredes de divisa será de terra batida para lembrar a escavação arqueológica que origina o Memorial.

História do Cemitério dos Aflitos

O Cemitério dos Aflitos foi inaugurado em 1775, e teve a sua construção motivada pelo aumento de óbitos provocados por surtos de doenças que atingiram São Paulo em meados do século 18 e 19. Seu terreno cobria todo o quarteirão que hoje é delimitado pelas rua da Glória, Galvão Bueno e dos Estudantes.

O local onde atualmente é bairro da Liberdade acomodava, além do cemitério, uma prisão, uma forca e o pelourinho. "Esses quatro elementos formavam um complexo de sentenciamento, tortura, morte e enterro", explica Wesley Vieira, historiador e membro da Unamca.

Na época, a região era considerada semirrural e pouco urbanizada, mas com um posição geográfica importante: era a porta de entrada e saída da cidade para o sul do País e também para o litoral paulista. "Esse território vai servir como rota de fuga para vários escravizados. Então, essa região, assim como Bixiga, Bela Vista e Jabaquara, já eram lugares de ocorrência da presença negra, de pessoas escravizadas, sobretudo para fugas e esconderijos", diz o Vieira.

Com isso, segundo o historiador, durante os mais de 80 anos em que esteve ativo, o Cemitério dos Aflitos serviu de destino para o sepultamento das pessoas marginalizadas, excluídas socialmente e que não eram cristãos ou não pertenciam a nenhuma irmandade religiosa. Na sua maioria, eram negros e indígenas com histórico de escravização.

"Em 1775, os enterros eram feitos nos adros das igrejas, ou dentro delas, ou então no cemitério das irmandades religiosas. Aqueles e aquelas que não faziam parte da igreja católica, portanto não eram brancos e não tinham posses e que não fazia parte de alguma irmandade, tinham como destino o Cemitério dos Aflitos", conta o historiador.

Em 1858, é inaugurado o Cemitério da Consolação, o primeiro cemitério público de São Paulo, levando ao fechamento e desativação do Cemitério dos Aflitos. De acordo com os registros históricos, todas as ossadas sepultadas no antigo cemitério foram transportadas para o recém-aberto. Entretanto, as descobertas recentes de 2018 de remanescentes humanos na Liberdade podem apontar para a necessidade de uma revisão da história oficial.

Estadão
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade