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Alto Solimões é rota central do narcotráfico na Amazônia, com área dominada pelo CV e PCC, diz estudo

Região no sudoeste amazonense se tornou rota central do tráfico internacional e impacta comunidades indígenas da região

19 nov 2025 - 12h02
(atualizado às 12h19)
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Resumo
O Alto Solimões, no sudoeste do Amazonas, revelou-se uma rota chave do narcotráfico internacional, dominada por disputas entre as facções CV e PCC, em um cenário de vulnerabilidade socioeconômica, isolamento e baixa presença do Estado.
Casas na região Alto Solimões, no extremo oeste do estado Amazonas
Casas na região Alto Solimões, no extremo oeste do estado Amazonas
Foto: Mônica Nobrega/Estadão / Estadão

A região do Alto Solimões, no sudoeste amazonense, tornou-se um dos principais corredores do tráfico internacional de drogas na Amazônia, cenário marcado pela intensa disputa entre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). A avaliação integra o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado nesta quarta-feira, 19, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, países que concentram a maior produção mundial de folha de coca e cloridrato de cocaína, o Alto Solimões funciona como uma das principais portas de entrada da droga no território brasileiro. A região opera como corredor estratégico e entreposto do narcotráfico internacional. As hidrovias do Rio Solimões e de seus afluentes, como Içá e Japurá, favorecem o escoamento da cocaína processada no Peru, sobretudo na área próxima ao Rio Javari, e na Colômbia.

Com cerca de 281 mil habitantes, sendo 54% deles indígenas, e forte dependência de recursos públicos, o Alto Solimões combina vulnerabilidade socioeconômica, isolamento geográfico e baixa presença do Estado. Esse conjunto de fatores cria condições propícias para a atuação de facções, especialmente do Comando Vermelho, que, segundo o estudo, está presente em seis dos nove municípios da região. Além da análise de dados, o levantamento também ouviu moradores locais para avaliar como a presença desses grupos impacta o cotidiano das comunidades.

A predominância do Comando Vermelho na Amazônia Legal e seu controle sobre a rota do Rio Solimões se mantêm, embora ainda haja disputas com o PCC e com grupos criminosos locais em algumas cidades. No Alto Solimões, o estudo identificou a presença do CV em Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Tabatinga e Tonantins, seis dos nove municípios da região.

Região e vulnerabilidade social

O Alto Solimões é uma microrregião situada no extremo sudoeste do Amazonas e composta por nove municípios: Amaturá, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Fonte Boa, Jutaí, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Tabatinga e Tonantins. Com uma vasta área de 213.314 km², equivalente ao território de países como o Reino Unido, o território combina áreas urbanas, rios, igarapés, várzeas inundáveis, florestas de terra firme e de várzea, além de unidades de conservação e extensas terras indígenas, que representam a maior parte da área total.

Entre os nove municípios, apenas Tabatinga é classificado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como urbano. Benjamin Constant, Fonte Boa, Jutaí e Santo Antônio do Içá são considerados intermediários, enquanto Amaturá, Atalaia do Norte, São Paulo de Olivença e Tonantins se enquadram na categoria rural.

O Rio Solimões é o principal eixo natural da região, alimentado por diversos igarapés e afluentes; ao encontrar o Rio Negro, em Manaus, transforma-se no Rio Amazonas. O rio estrutura praticamente todas as dinâmicas sociais, econômicas e culturais do Alto Solimões. Para muitos moradores, ele funciona como uma verdadeira “estrada”, conectando localidades que, de outra forma, seriam isoladas. Em vários trechos, as fronteiras com Peru e Colômbia são delimitadas pelo próprio leito do Solimões, com cada país ocupando uma das margens.

A microrregião apresenta baixíssima densidade demográfica: 1,2 habitante por km². A composição demográfica varia de município para município, tanto em densidade quanto em participação indígena. Tabatinga é a cidade mais populosa e mais densamente ocupada, enquanto Amaturá e São Paulo de Olivença se destacam pelos altos percentuais de população indígena, de 92% e 81%, respectivamente. A região também é mais jovem do que o Brasil: 36,5% dos moradores têm entre 0 e 14 anos, quase o dobro da média nacional (19,7%).

Os indicadores sociais revelam um quadro de vulnerabilidade. Mais de 80% da população está inscrita no Cadastro Único (CadÚnico), e 64,7% recebem Bolsa Família. A disparidade também aparece nos dados de trabalho: entre os moradores com mais de 14 anos, apenas 12,8% estão ocupados, enquanto no Brasil o índice é de 50,1%.

A economia local é fortemente dependente dos recursos públicos. A administração pública responde por 61,5% do Produto Interno Bruto da microrregião, seguida pelos setores de serviços e agropecuária; a indústria tem participação reduzida.

No território, a presença indígena é predominante: são 40 Terras Indígenas (TIs), 34 delas já homologadas, ocupando 56,1% da área total do Alto Solimões. Entre os 142 mil indígenas da região, quase metade (49,2%, ou 70.024 pessoas) vive dentro dessas TIs. As áreas ambientalmente protegidas incluem ainda a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Cujubim, nas proximidades de Jutaí, uma unidade de uso sustentável, destinada a conciliar preservação ambiental e atividades tradicionais, onde vivem famílias ribeirinhas.

Rota estratégia ao narcotráfico

A fronteira entre Tabatinga (Brasil) e Letícia (Colômbia) é caracterizada pela ausência de controle estatal efetivo e pelo livre trânsito de pessoas e mercadorias, uma condição amplamente explorada por organizações criminosas para movimentar recursos, integrantes e produtos ilícitos.

Segundo o estudo, nesse contexto as facções disputam o domínio territorial com o objetivo de exercer uma espécie de governança criminal e lucrar com um portfólio diversificado de ilegalidades. O crime organizado pode atuar como um “Estado paralelo”, cobrando pedágios para autorizar atividades ilícitas ou investindo diretamente nos empreendimentos ilegais.

A extração ilegal de ouro é o crime ambiental mais conectado ao narcotráfico. O capital do tráfico financia operações de garimpo, enquanto o ouro retirado das áreas de exploração funciona como moeda de troca para a compra de pasta-base no Peru e na Colômbia, de acordo com o levantamento.

As facções também se envolvem na pesca predatória de espécies protegidas e na exploração ilegal de madeira, que é posteriormente “legalizada” em serrarias peruanas para reingressar no Brasil como produto regularizado.

O dinheiro ilícito circula e é lavado em negócios aparentemente legítimos nas cidades, como empresas de pesca, comércio atacadista e transporte fluvial. Em Letícia, dezenas de casas de câmbio sem fiscalização facilitam a conversão de moedas e o fluxo financeiro das atividades criminosas.

Na região, o microtráfico -- o varejo de drogas -- é uma das principais formas de atuação das facções e tem forte impacto social. O consumo de “óxi”, subproduto barato da cocaína e similar ao crack, é apontado como o principal fator de desestruturação familiar e de cooptação de adolescentes e jovens.

Esse aumento no número de usuários contribui para o surgimento de “mini-cracolândias”, enquanto grande parte dos furtos e pequenos roubos é atribuída a dependentes químicos, ampliando a sensação de insegurança.

O crime organizado também provoca um cenário de insegurança fluvial. A pirataria, que vai desde pequenos ladrões até grupos de “narcopiratas” altamente organizados e armados, aterroriza a população ribeirinha e impede a navegação noturna, dificultando, inclusive, o acesso de equipes de saúde e outros serviços públicos a comunidades remotas.

Aliciamento de jovens indígenas 

O microtráfico alcança diretamente as comunidades indígenas, sobretudo aquelas mais acessíveis, onde são frequentes reuniões noturnas de adolescentes para consumo de álcool e drogas. Segundo o estudo, jovens indígenas têm sido aliciados para a venda de entorpecentes por meio do endividamento -- o chamado “aviamento” --, mecanismo que se aproveita da falta de oportunidades e do enfraquecimento dos laços étnicos e culturais.

No âmbito do macrotráfico, as Terras Indígenas (TIs) são utilizadas como corredores estratégicos, servindo como pontos de passagem, armazenamento e esconderijo de carregamentos ao longo do Rio Solimões.

A presença de traficantes coloca as lideranças indígenas em situação de extremo risco. Há relatos de ameaças de morte e até de assassinatos de familiares, o que gera medo coletivo e inibe denúncias.

Diante desse cenário, a principal demanda das lideranças é a criação e o fortalecimento das “guardas indígenas”, além de políticas de prevenção voltadas para esporte, cultura e redução de danos.

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Fonte: Portal Terra
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