As escolhas da imprensa: afinal, os Estados Unidos 'capturaram', 'prenderam' ou 'sequestraram' Nicolás Maduro?
A escolha da palavra diz muito sobre o alinhamento de um determinado veículo de imprensa com determinadas narrativas ou ideologias
Numa ação planejada por muito tempo e após vários ataques a embarcações no Mar do Caribe, que deixou dezenas de mortos, militares dos Estados Unidos provocaram explosões na capital da Venezuela, Caracas, invadiram o complexo militar de Fuerte Tiuna, local onde estava o presidente do país, Nicolás Maduro, e o retiraram à força do território venezuelano, algemado, junto com sua esposa, Cilia Flores. A ação deixou ao menos 80 mortos entre as forças de segurança do presidente, e o casal foi levado para Nova York, onde será "julgado".
De que modo a imprensa brasileira e internacional estão abordando essa ação? Ela pode ser chamada de captura, prisão, sequestro ou deposição? A escolha da palavra diz muito sobre o alinhamento do veículo de imprensa com determinadas narrativas ou ideologias. Por mais que Maduro seja considerado por muitos como um ditador, que não tenha ganho eleições limpas ou recaiam sobre ele acusações de corrupção, a invasão de um país por outro, sem uma guerra declarada e sem apresentação de provas, e a retirada à força do mandatário de seu território soberano não são ações triviais que possam ser medidas com eufemismos.
O uso do termo captura
No geral, a imprensa tem optado por usar "captura", corroborando a narrativa estadunidense. A acusação que o governo de Donald Trump faz contra Maduro é de "narcoterrorismo". O presidente venezuelano seria o chefe de uma organização especializada em enviar drogas para os Estados Unidos. Não é acusado de "fazer vista grossa" para o tráfico nem de facilitar a prática, mas de chefiar uma organização narcoterrorista. Provas? Não há. Nem contra Maduro e Flores nem contra os barcos bombardeados desde setembro. O presidente venezuelano foi indiciado nos Estados Unidos em 2020, durante o governo anterior de Trump.
Encontramos também o uso do termo "depuseram" Maduro, como na Reuters, e "queda" de Maduro, como no G1.
Vejamos: "prender" refere-se a aprisionar, colocar criminosos em privação de liberdade. "Captura" tem sentido parecido, relacionado a deter malfeitores. Ambas palavras sugerem uma legalidade na ação, trazem o sentido de que há um processo judicial em curso. Por outro lado,"sequestrar", quando relacionado a pessoas, é enclausurar ilegalmente, sentido bastante reconhecido pelas pessoas comuns como algo brusco e criminoso. Já "deposição" ou "queda" dão a impressão de um processo interno do país, como uma revolta popular ou processo jurídico que segue algum trâmite legal ou revolucionário.
Violações de direitos
Nas análises de contexto, temos que estudiosos de políticas de drogas rejeitam o uso do termo "narcoestado" para se referir à Venezuela. Diante do direito internacional, os atos foram considerados claramente ilegais e ignoraram o direito à autodeterminação dos povos.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, declarou que a Carta da ONU foi desrespeitada. O Papa Leão XIV defendeu a soberania da Venezuela. A China afirmou que o comportamento dos EUA viola seriamente o direito internacional. A Espanha não vai reconhecer a intervenção.
Deu até no The New York Times: "Ataque de Trump à Venezuela é ilegal e imprudente", representando um imperialismo moderno. Apesar de usar o termo "capture", o jornal traz uma boa lembrança aos que comemoram a ação: "Se há uma lição fundamental da política externa americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação. Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir criar um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam a afetar os Estados Unidos e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os Estados Unidos, esporadicamente, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentar derrubar governos pela força."
Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir criar um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam a afetar os Estados Unidos e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os Estados Unidos, esporadicamente, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentar derrubar governos pela força".
A Agência Brasil, serviço público de mídia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), pareceu indecisa quanto a que termo utilizar no começo da crise. Inclusive foi detectada uma supressão da palavra sequestro, utilizada em uma das primeiras matérias publicadas sobre o assunto no sábado, dia 3 de janeiro.
O título original, confirmado por print, dizia "Sequestrado, Maduro será julgado pelos Estados Unidos, diz procuradora". Agora, o título diz "Maduro será julgado pelos Estados Unidos, diz procuradora". Porém, na segunda-feira, dia 5, notamos que o "sequestro" foi liberado, passando, inclusive, boa parte do dia como manchete do portal com a matéria "Após sequestro, Maduro e esposa são levados para Corte em Nova York". Um bom exemplo da mídia pública, indo em caminho contrário ao alinhamento com os Estados Unidos adotado pela mídia hegemônica brasileira.
Os Estados Unidos podem chamar de "captura" o que fizeram com Maduro e Flores. Mas diante da soberania dos países, da Carta das Nações Unidas e do direito internacional, houve violação às regras legais. Ou seja, Maduro e Flores foram sequestrados. E o motivo foi explicitado pelo próprio Trump: não se trata de democracia ou guerra às drogas. Mas sim de petróleo, que já vinha sendo saqueado desde dezembro.
Agora, o que esperar do "julgamento" de alguém acusado sem provas e sequestrado para comparecer perante o juízo de um país que atentou contra sua soberania nacional? Não é de se imaginar um processo justo e com amplo direito à defesa.
Akemi Nitahara atualmente integra a equipe da Radioagência Nacional (EBC), na qual produz e apresenta podcasts. É representante dos trabalhadores no Comitê Editorial e de Programação da EBC (Comep), com mandato até julho de 2027.