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A corrida das montadoras alemãs para alcançar a China

8 jan 2026 - 14h50
(atualizado às 15h21)
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País asiático se tornou o maior fabricante de carros elétricos do mundo. Indústria automobilística alemã ameaçada tenta aprender com os erros do passado e agora se volta para a Índia.Nürburgring, nas colinas ocidentais da Alemanha, é a pista de corrida permanente mais longa do mundo. Tem quase um século de existência e foi palco de muitas disputas da Fórmula 1. A pista de mais de 20 quilômetros é apelidada de "Inferno Verde", por causa das florestas que cercam a região de Eifel e seu traçado desafiador.

Nürburgring: a famosa pista de corrida onde as montadoras alemãs testam seus carros
Nürburgring: a famosa pista de corrida onde as montadoras alemãs testam seus carros
Foto: DW / Deutsche Welle

Para entender a importância da engenharia e do desempenho na fabricação de carros alemães, este é um bom lugar para começar, diz Misha Charoudin, piloto e influenciador.

"Se um carro consegue fazer um bom tempo de volta aqui, significa que todos os componentes funcionam: suspensão, pneus, motor, chassi e, claro, o próprio motorista", diz ele enquanto faz uma curva a 190 quilômetros por hora. "É melhor do que uma montanha-russa."

A indústria automobilística alemã usou esse legado, junto a suas rodovias públicas sem limite de velocidade, as famosas Autobahnen, a seu favor para construir globalmente uma imagem.

Marcas como Mercedes-Benz, BMW, Audi e Volkswagen passaram a ser sinônimo de engenharia de precisão, desempenho e confiabilidade. Não eram apenas carros — eram ícones culturais e a espinha dorsal da economia alemã. Mas hoje, a magia está desaparecendo.

Década de rachaduras

Durante décadas, a fórmula era simples: engenharia de classe mundial mais demanda global igual a sucesso. Em 1950, as montadoras alemãs venderam cerca de 200 mil veículos. Hoje, vendem cerca de 14 milhões globalmente.

A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã. Mas o diagnóstico atual não é bom: as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento.

"A pressão aumenta", disse um funcionário da Mercedes, que preferiu não se identificar. "É tudo sobre cortes de custos em todos os lugares."

As primeiras rachaduras apareceram em 2015, com o Dieselgate, quando a Volkswagen foi pega trapaceando nos testes de emissões. O escândalo custou à empresa mais de 30 bilhões de euros e minou a confiança nas marcas alemãs.

Também coincidiu com o Acordo de Paris e uma mudança global para tecnologias mais amigáveis ao clima, que colocou em xeque a indústria. Enquanto a Tesla dobrou as vendas de carros elétricos, os fabricantes alemães hesitaram.

A corrida pelo ouro na China

Por anos, a China foi a terra prometida. Na década de 1980, líderes políticos chineses convidaram a Volkswagen para formar joint ventures e fabricar carros na China para o mercado doméstico.

Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático.

Quanto mais a economia da China crescia, maior se tornava o seu mercado automobilístico. Outras montadoras seguiram o exemplo da Volkswagen.

"Era tempo de garimpo", lembra Beatrix Keim, que passou duas décadas na Volkswagen na China e agora é diretora de uma consultoria do setor em Duisburg, na Alemanha. "Vendendo muitos carros, ganhando muito dinheiro. Não havia muita concorrência chinesa."

A China aprendeu com os parceiros estrangeiros para depois liderar. Em 2009, Pequim aprovou uma lei para impulsionar veículos elétricos. O objetivo, segundo Keim, era encontrar uma tecnologia onde a China pudesse prosperar.

Arrogância alemã?

Hoje, a cada dois carros vendidos na China, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante.

"Começando com os veículos elétricos, os chineses tiveram a chance única de ultrapassar a Alemanha. E conseguiram", diz Manuel Vermeer, professor que ensina cultura e negócios chineses na Universidade de Ciências Aplicadas em Ludwigshafen.

Para ele, as montadoras alemãs subestimaram a determinação chinesa e a velocidade do seu desenvolvimento. Bilhões em subsídios e infraestrutura depois, a China agora é líder mundial em veículos elétricos e baterias — recentemente, a BYD ultrapassou a Tesla em vendas.

"Acho que tem muito a ver com arrogância", aponta Vermeer. "O ponto de vista alemão sempre foi: 'somos superiores', 'como podemos ensiná-los?' e 'eles devem aprender conosco'. Mas quase nunca foi algo como: 'poderíamos aprender com eles', 'deveríamos ouvir mais', ou 'talvez eles sejam diferentes do que pensamos?'".

Hoje, a Alemanha depende da China para baterias. "Mesmo que construamos carros elétricos muito bons, ainda precisaríamos das baterias da China. Estamos mais dependentes do que costumávamos ser", prossegue o professor.

Próxima parada, Índia

Com a China escapando, a atenção se volta para a Índia, agora o país mais populoso do mundo. No tráfego denso em Chennai, uma cidade no sudeste do país, raramente passa um carro alemão.

Carros indianos, japoneses e coreanos dominam as ruas da cidade, que é frequentemente chamada de "Detroit da Índia", devido às suas muitas fábricas de automóveis.

A fábrica da BMW em Chennai produz cerca de 80 carros por dia, em comparação com 1,4 mil na sua unidade principal, na Alemanha. Ainda assim, o crescimento é forte — mais de 10% ao ano.

"Há uma grande corrida para o mercado indiano", diz o gerente da fábrica, Thomas Dose. "Todo mundo sente que, se não estivermos na Índia agora, perderemos alguma oportunidade."

Seria então a Índia uma nova China? Dose é realista: "Eu diria que não. É diferente e tem seu potencial. Mas não teremos o crescimento extensivo tal como na China."

Lições aprendidas — ou tarde demais?

Keim acredita que as montadoras alemãs estão tentando mudar. "Elas entenderam que precisam ser mais rápidas, descer de seu pedestal."

Enquanto isso, a corrida para construir veículos elétricos bem-sucedidos segue a todo vapor. Na China, os fabricantes locais enfrentam excesso de capacidade e queda nos preços. Eles também tentam vender seus produtos na Europa, até agora com sucesso moderado.

Agora, fabricantes de carros elétricos da China e de outros países estão testando seus veículos no circuito de Nürburgring, na Alemanha: uma reviravolta simbólica em uma história de perda de domínio.

As montadoras alemãs podem deixar completamente este barco passar? "Pode acontecer", opina o influenciador Misha Charoudin. "Olhe para a [fabricante finlandesa de celulares] Nokia. Eles estavam prosperando. E então, de repente, perderam o barco."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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