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A altura importa? O corpo masculino e a pressão estética de ser baixo

Estudos mostram que a insatisfação com o corpo não é exclusiva das mulheres; ela também está presente nos homens e influencia sua alimentação, musculatura e bem-estar emocional

2 jun 2026 - 11h04
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insatisfação corporal também está presente na população masculina e estudos recentes indicam que ela está associada à percepção do próprio corpo, à comparação social e ao bem-estar psicológico, bem como a comportamentos relacionados à alimentação ou à musculatura. Pixel-Shot/shutterstock
insatisfação corporal também está presente na população masculina e estudos recentes indicam que ela está associada à percepção do próprio corpo, à comparação social e ao bem-estar psicológico, bem como a comportamentos relacionados à alimentação ou à musculatura. Pixel-Shot/shutterstock
Foto: The Conversation

O músico e escritor Abraham Boba publicou 163 centímetros, um ensaio autobiográfico sobre o que significa viver sendo um homem com estatura abaixo da média. À primeira vista, poderia parecer um assunto trivial. Mas a altura, como outros traços corporais, não é socialmente neutra.

Durante décadas, a pesquisa acadêmica sobre imagem corporal se concentrou quase exclusivamente nas mulheres. A pressão estética sobre elas, da magreza à juventude, foi analisada como um mecanismo de controle social e de desigualdade de gênero.

Pesquisas mostram, porém, que a insatisfação corporal também está presente na população masculina. Estudos recentes realizados em contextos europeus indicam que ela está associada à percepção do próprio corpo, à comparação social e ao bem-estar psicológico, bem como a comportamentos relacionados à alimentação ou à musculatura. Nesse sentido, a insatisfação corporal masculina não é um fenômeno marginal, mas uma dimensão crescente da saúde mental na população em geral.

Altura e normas sociais

A altura masculina constitui um traço com implicações sociais. Numerosos estudos documentaram a existência da chamada "norma do homem mais alto" (male-taller norm): a expectativa cultural de que os homens sejam mais altos que suas parceiras. Estudos recentes confirmam que essa preferência não apenas persiste, mas que a altura é mais valorizada como um traço importante pelas mulheres do que pelos homens na escolha de parceiras ou parceiros.

A altura é culturalmente associada a traços como liderança ou proteção, o que ajuda a explicar por que pode influenciar a percepção de atratividade ou de status social. Nesse sentido, um traço aparentemente trivial, alguns centímetros a mais ou a menos, pode ter consequências em âmbitos tão diversos quanto as relações afetivas ou a autoestima.

O interesse de livros como o de Boba reside precisamente em tornar visível como características corporais aparentemente banais podem se converter em experiências sociais significativas.

O corpo: capital erótico, cultural ou social

Para compreender por que o corpo adquire tanta relevância social, alguns sociólogos recorreram ao conceito de capital erótico, proposto pela socióloga britânica Catherine Hakim e posteriormente discutido por autores como José Luis Moreno Pestaña em seu trabalho sobre corpo, estética e desigualdade.

Esse conceito descreve o conjunto de atributos relacionados à aparência física (beleza, estilo, encanto ou forma corporal) que podem se traduzir em vantagens sociais ou profissionais em determinados âmbitos da vida social.

Nesse sentido, o corpo pode ser entendido como uma forma de recurso social que, em determinados contextos, opera de maneira análoga a outras formas de capital descritas por Pierre Bourdieu, como o capital cultural, isto é, as competências, habilidades e conhecimentos que permitem a certos grupos obter reconhecimento e status.

Masculinidade e silêncio corporal

Apesar dessa pressão, existe uma diferença cultural importante entre homens e mulheres: a forma como se fala do corpo.

Nas últimas décadas, as mulheres desenvolveram movimentos sociais e culturais que questionam os padrões de beleza, como o body positive, com raízes em tradições feministas e interseccionais, voltados a promover uma maior aceitação corporal diante dos ideais normativos dominantes. Esses movimentos contribuíram para tornar visível o impacto psicológico e social dos cânones corporais e, segundo pesquisas recentes, a exposição a conteúdos body positive está associada a melhorias na satisfação corporal e no bem-estar emocional.

Em contrapartida, o mal-estar corporal masculino costuma se expressar de forma mais indireta. Diversos estudos qualitativos assinalam que os homens tendem a abordar sua relação com o corpo como uma trajetória de mudança e gestão. Os homens descrevem sua relação com o corpo por meio de práticas concretas, como exercício físico, dieta ou mudanças corporais, que organizam sua experiência corporal em termos de ação. Assim, o corpo masculino se apresenta como algo que se modifica, se administra e se otimiza ao longo do tempo, mais do que como uma realidade centrada na expressão direta do mal-estar ou da vulnerabilidade estética.

Essa diferença tem sido relacionada a normas tradicionais de masculinidade que valorizam o autocontrole e limitam a expressão pública do mal-estar corporal ou emocional. Nesse sentido, algumas autoras apontaram que a pressão estética não opera apenas como uma exigência externa, mas como uma forma de violência interiorizada que estrutura a relação com o próprio corpo, como propõe Elena Crespi.

Falar do corpo masculino

Nesse contexto, textos autobiográficos como o de Abraham Boba podem ser interpretados como parte de uma mudança cultural mais ampla: o início de uma conversa pública sobre o corpo masculino.

Mais do que inaugurar um tema novo, essas narrativas contribuem para tornar visíveis experiências que, durante muito tempo, permaneceram pouco nomeadas. Compreender essas dinâmicas é relevante não apenas para analisar as mudanças culturais em torno da masculinidade, mas também para abordar suas implicações na saúde mental e no bem-estar.

Por isso, o crescente interesse acadêmico pela imagem corporal masculina reflete uma mudança na forma de entender a relação entre corpo, gênero e bem-estar, e abre novas linhas de pesquisa sobre suas implicações sociais e psicológicas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Antoni Aguiló Bonet é membro da Homes Transitant, uma associação sem fins lucrativos dedicada à reflexão crítica sobre as masculinidades.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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