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Meninas na robótica: projeto em escolas do Rio de Janeiro incentiva presença feminina nas áreas tecnológicas

O projeto busca despertar e incentivar o interesse pelas áreas das Ciências Exatas, Engenharias e Computação em meninas do segundo segmento do ensino fundamental e do ensino médio

2 jun 2026 - 11h31
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Imagine poder desfrutar de uma lixeira ultrassônica, projetada por sua filha, que abre a tampa automaticamente ao detectar a aproximação da mão.

E já pensou em implantar em casa uma horta com irrigação automatizada que une tecnologia e sustentabilidade? E se eu te disser que ela também pode ser projetada e instalada por sua filha?

Esses são apenas dois dos miniprojetos direcionados especialmente para meninas interessadas pelas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Os miniprojetos, dentre outros, são ensinados nas oficinas de robótica oferecidas entre as atividades do projeto Meninas na Robótica, do campus de Nova Iguaçu do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ), na Baixada Fluminense.

Desigualdades de gênero

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o percentual de mulheres graduadas em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) no ensino superior no Brasil era de 37%.

Na divisão sexual do trabalho, dados internacionais mostram uma presença ainda reduzida das mulheres nessas áreas. Estudos recentes revelam que pouco mais de 40% das mulheres em idade ativa participam da força de trabalho global. Em alguns países, esse percentual é ainda menor.

Além disso, mulheres costumam receber salários menores do que homens. E ainda têm maior probabilidade de sofrer discriminação de gênero.

O percentual das mulheres na ativa e nas áreas de STEM vem aumentando aos poucos. Porém, ainda representa uma proporção bastante desfavorável.

Vale destacar que 50% da população mundial é composta por mulheres e meninas.

Desconstrução da ideologia patriarcal

Diante disso, incentivar meninas para as áreas das Ciências Exatas é essencial. Importante melhorar esse índice e contribuir para a desconstrução de uma ideologia patriarcal que ainda interdita, mesmo em níveis simbólicos, a atuação delas em determinados campos laborais.

A ideia do nosso projeto é atuar no combate e na prevenção à discriminação. E contra a falta de representatividade feminina nas áreas tecnológicas.

O foco foi no empoderamento feminino em escolas públicas da educação básica na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Desde 2019, já conseguimos beneficiar cerca de 500 alunos, em 11 escolas.

O projeto busca despertar e incentivar o interesse pelas áreas das Ciências Exatas, Engenharias e Computação em meninas do segundo segmento do ensino fundamental e do ensino médio.

A iniciativa também visa criar ações paradidáticas para disseminar conhecimentos básicos de robótica e programação. Acreditamos que esses conhecimentos representam um campo agregador de competências dessas áreas.

Para além do ambiente da sala de aula, as ações elaboradas potencializam o desenvolvimento individual das estudantes a partir de uma proposta de aprendizagem baseada em projetos pequenos e simples de robótica.

Mais do que dialogar com um conhecimento técnico, há a reflexão e a potencialização de mensagens sobre o contexto do empoderamento feminino na ciência, a fim de incentivar o ingresso de meninas na área.

Na participação em capacitações formativas, são apresentados às alunas temas relevantes como: violência de gênero, assédio, relações étnico-raciais, saúde sexual e reprodutiva.

Estas temáticas são consideradas fundamentais para refletir sobre a condição das mulheres na sociedade. Desejamos que as jovens confrontem suas concepções iniciais, ampliem seu repertório de informações e se posicionem de forma mais qualificada diante de situações presentes no cotidiano social.

Tecnologia aplicada ao cotidiano

Além da lixeira ultrassônica e da horta automatizada, elaboramos outras atividades.

Uma delas utiliza sensores para demonstrar como a tecnologia pode ser aplicada no dia a dia para garantir a saúde das plantas, evitando tanto a seca quanto o excesso de água no solo.

Dentro do universo da robótica, também criamos atividades para a montagem de um carrinho ultrassônico. Neste projeto procuramos demonstrar como a tecnologia pode ser aplicada à mobilidade inteligente.

Outra proposta foi a criação de um carrinho controlado por bluetooth. A ideia é mostrar às meninas como funcionam os sistemas de controle sem fio e a integração entre circuitos eletrônicos e dispositivos móveis, permitindo que o carrinho fosse comandado à distância.

Uma outra iniciativa implantada foi a criação de um ventilador. Nesse caso, o objetivo é demonstrar como funcionam os circuitos elétricos simples e a conversão de energia elétrica em movimento, por meio de um motor que aciona a hélice do equipamento.

Para nós, tais projetos são capazes de proporcionar experiências e desenvolver competências consideradas fundamentais dentro do paradigma dos sistemas produtivos baseados nos preceitos da Indústria 4.0.

Com a implantação dessas atividades, percebemos melhorias no aprendizado e na mitigação de dificuldades relacionadas à concentração. Incentivamos o pensamento analítico e o planejamento de tarefas no cotidiano dessas jovens adolescentes.

Formação e impacto social

Além de despertar o interesse das estudantes por cursos como Engenharia de Controle e Automação, Engenharia Mecânica, Engenharia de Produção, oferecidos pelo campus, e ainda os cursos de Ciência da Computação, Engenharia da Computação e Sistemas de Informação, disponíveis em outros campi, como Maracanã e Petrópolis, o projeto integra o ecossistema de inovação e empreendedorismo do local. Além de equipes de protagonismo estudantil, a iniciativa conta também com a empresa júnior de consultoria Onix Jr e uma incubadora de empresas.

O projeto teve origem na equipe de robótica do campus Nova Iguaçu do Cefet/RJ, a Bodetronic. A equipe tem como principal objetivo aplicar a robótica em projetos que dialoguem com a sociedade e causem impacto social.

As atividades englobam projeto e fabricação de robôs de combate para competições discentes, robótica educacional voltada para escolas das redes municipal e estadual da Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, e projetos desenvolvidos sob demanda da comunidade e de movimentos sociais.

Neste ano, o projeto Meninas na Robótica completa 10 anos de existência, e só alcançamos esses resultados pelo apoio histórico e exitoso de financiamentos tanto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2018 e 2024, como da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) em 2021, 2022 e 2024.

Atualmente, contamos com o apoio de ambas as agências de fomento. Com esse apoio, continuamos impulsionado a formação de uma comunidade atuante. E, estamos expandindo nossas ações, levando iniciativas de inclusão, formação técnica e impacto social para além da Baixada Fluminense. A partir de 2025, também estamos atuando na Região Serrana e na cidade do Rio de Janeiro.

Lugar de meninas e mulheres é onde elas quiserem. Precisamos desmistificar que áreas como as das Ciências Exatas sejam uma espécie de reserva de mercado para eles e incentivar todas aquelas que também tenham interesse.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Rafaelli de Carvalho Coutinho recebe, ou já recebeu, financiamento do CNPq, FAPERJ e Cefet/RJ.

Fabrício Lopes e Silva recebe, ou já recebeu financiamento da FAPERJ e CEFET/RJ.

Thiago de Moura Prego recebeu financiamento da Faperj.

Carla Romão e Cristiano S. de Carvalho não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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