Ao classificar facções criminosas brasileiras como terroristas, EUA transformam segurança pública em pressão eleitoral
A interferência externa contemporânea raramente aparece como fraude direta sobre urnas. Ela se manifesta por discursos, símbolos, redes sociais, pressão econômica, sanções, tarifas, reuniões seletivas e enquadramentos narrativos
O anúncio feito essa semana pelos Estados Unidos de que as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) serão consideradas organizações terroristas, os Estados Unidos não miram apenas o combate ao crime organizado. A decisão americana cria novos riscos para o sistema financeiro, a soberania nacional e a eleição de 2026.
A decisão insere as facções na arquitetura de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão do Tesouro norte-americano. O argumento do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, foi que PCC e CV seriam organizações perigosas, com alcance regional e impacto sobre a segurança dos Estados Unidos.
A controvérsia começa na diferença entre terrorismo e crime organizado. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, embora não exista definição jurídica universalmente aceita de terrorismo, o termo pode ser entendido como método de coerção que usa ou ameaça usar violência para espalhar medo e alcançar objetivos políticos ou ideológicos.
Em suma, para enquadramentos, caso a caso, é importante avaliar se o ato de terror contra civis, por exemplo, teve finalidade política, ideológica ou religiosa: ataca vítimas diretas para pressionar governos, sociedades ou instituições. Por outro lado, no Brasil, a caracterização do terrorismo exige a presença de uma motivação discriminatória específica e da finalidade de provocar terror social ou generalizado.
Efeito bumerangue alcança eleições
A decisão dos Estados Unidos cria uma zona cinzenta. O Brasil trata PCC e CV como organizações criminosas. Washington passa a tratá-las como ameaça de contraterrorismo. Bancos, empresas, seguradoras, investidores, plataformas financeiras e fintechs podem ser submetidos a novo escrutínio. Relações indiretas com intermediários suspeitos de ligação com facções podem gerar investigação, bloqueio de ativos, perda de acesso a bancos correspondentes e aumento de custos de conformidade.
É nesse ponto que a decisão se conecta às eleições brasileiras. A interferência externa contemporânea raramente aparece como fraude direta sobre urnas. Ela se manifesta por discursos, símbolos, redes sociais, pressão econômica, sanções, tarifas, reuniões seletivas e enquadramentos narrativos.
A foto de um candidato brasileiro com Donald Trump pode funcionar como ativo simbólico para setores que valorizam proximidade com Washington, mas também pode ser lida como submissão.
Esse efeito bumerangue apareceu na Alemanha, onde gestos do vice-presidente J. D. Vance e declarações de Elon Musk em favor da Alternativa para a Alemanha foram recebidos como interferência indevida, e no Canadá, onde a pressão de Trump ajudou a mobilizar a defesa da soberania nacional e favoreceu Mark Carney. O apoio externo pode ajudar uma base ideológica, mas também unificar eleitores moderados contra a ingerência estrangeira.
No Brasil, a designação de PCC e CV produz ambiguidade semelhante. Para a oposição, permite acusar o governo de leniência com o crime organizado. Para o governo, permite enquadrar o tema como violação de soberania. Parte do eleitorado pode ver a ação americana como reforço ao combate ao crime; outra parte pode vê-la como tentativa de impor a agenda de Washington à política brasileira.
O tema torna-se mais sensível porque os Estados Unidos já abriram investigação contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A investigação conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos inclui comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, área em que o Pix se tornou símbolo da infraestrutura financeira brasileira.
A hegemonia predatória de Trump
Caso o combate ao financiamento do terrorismo seja conectado a lavagem de dinheiro, fintechs ou bancos brasileiros, a política de segurança norte-americana poderá afetar diretamente o sistema financeiro nacional.
Stephen M. Walt, professor de Relações Internacionais da Harvard Kennedy School, chamou a política externa de Trump de "hegemonia predatória": o uso da posição privilegiada dos Estados Unidos para extrair concessões de aliados e adversários.
Nessa lógica, tarifas, sanções, vistos, acesso ao dólar e pressão sobre empresas tornam-se instrumentos para obter alinhamento político. A relação Brasil-EUA deixa de ser apenas comercial. Passa a envolver segurança, finanças, tecnologia, crime transnacional, minerais críticos, China, Pix e eleições.
Esse movimento também dialoga com a retomada da Doutrina Monroe, muitas vezes chamada de "Doutrina Donroe". A nova doutrina de segurança norte-americana trata o hemisfério ocidental como espaço prioritário de influência dos Estados Unidos. Para o Brasil, temas domésticos podem ser reinterpretados por Washington como assuntos de segurança hemisférica.
É nesse contexto que ganha importância a observação de Feliciano de Sá Guimarães, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e pesquisador sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais:
A eleição de outubro de 2026 será, talvez, a primeira do Brasil, na história da República Nova, em que política externa estará nas urnas de uma forma muito forte.
A frase sintetiza o novo cenário: política externa entra na política doméstica por meio de tarifas, sanções, segurança pública, China, Estados Unidos, soberania e sistema financeiro.
A designação do PCC e do CV como terroristas não deve ser lida apenas como medida contra o crime organizado. Ela amplia o arsenal de coerção econômica dos Estados Unidos, aumenta a exposição do sistema financeiro brasileiro e transforma a segurança pública em variável da relação bilateral.
Alexandre Ramos Coelho não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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