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'Perdi a virgindade em um estupro', diz Nana Gouvêa sobre abusos que sofreu ao longo da vida

Atriz revelou que os abusos começaram ainda na infância e falou sobre os traumas que carrega até hoje

27 fev 2026 - 11h57
(atualizado às 12h11)
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Nana Gouvêa desabafa sobre abusos e violência que sofreu ao longo da vida
Nana Gouvêa desabafa sobre abusos e violência que sofreu ao longo da vida
Foto: Reprodução/Instagram

Aos 50 anos, a modelo e atriz Nana Gouvêa decidiu romper o silêncio sobre uma realidade dolorosa: o casamento forçado aos 16 anos. Após ser vítima de violência sexual na adolescência e descobrir uma gravidez, ela relatou que foi forçada por sua própria família a manter um relacionamento com o agressor. Esse desabafo surgiu após uma recente decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que havia absolvido um homem condenado por estuprar uma criança de 12 anos.

Em relato concedido à revista Quem, Nana detalhou que o histórico de abusos começou muito cedo, com o primeiro episódio de assédio ocorrendo aos seis anos de idade. Ela revelou que sua iniciação sexual foi, na verdade, um estupro, e que as violações se repetiram ao longo da vida, ocorrendo inclusive em seu ambiente familiar. Privada de educação sexual ou suporte emocional, a atriz explicou que passou décadas aprisionada por sentimentos de culpa e medo.

De acordo com Nana, sua juventude foi moldada por um cenário doméstico de opressão e manipulação psicológica. Embora seu pai tivesse uma imagem respeitada socialmente, em casa havia um homem que exercia um controle sobre as finanças e o emocional de sua esposa e filhas. Ao engravidar na adolescência, em vez de amparo, a atriz afirma que encontrou agressões e o peso da culpabilização. "A culpa é sempre da mulher", desabafau.

A violência persistiu na vida adulta através de um matrimônio abusivo. Um dos momentos mais traumáticos ocorreu na sala de parto de sua segunda filha: aproveitando-se da vulnerabilidade de Nana sob efeito de anestesia, o então marido usou brechas na legislação para vetar uma laqueadura que ela já havia autorizado. "Chorei o parto inteiro. Ele me roubou o sorriso de ver minha filha nascer", recorda.

A atriz conta que sua vida mudou quando ela reuniu forças para abandonar o relacionamento e buscar um novo começo no Rio de Janeiro, onde consolidou sua independência e sua trajetória artística. Atualmente nos Estados Unidos e com as filhas já criadas, Nana utiliza sua voz para conscientizar outras mulheres. Ela defende que a superação desses traumas exige o fim dos tabus, o acesso à informação e, acima de tudo, a coragem de expor a verdade. "A vítima não tem culpa. Nunca", destaca.

Veja o depoimento dela à Quem na íntegra:

"Fui criada nessa mesma região [do caso julgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais]. Eu e minha irmã sofremos muito assédio quando éramos crianças. Fui assediada pela primeira vez aos 6 anos por um senhor idoso, amigo do meu pai. Fui abusada sexualmente. Aos 8 anos, aconteceu de novo, desta vez com gente da família. Cresci muito traumatizada. Não tinha coragem de sair na rua para brincar porque tinha medo que alguém fosse me pegar de novo. Então atravessava a rua e ia para a casa da minha amiga Gisele — que aos 12 anos parecia uma adulta para mim. Ouvia Menudo e voltava para casa. Aos 10 anos, comecei um namoro que durou seis anos. Ele veio a ser meu primeiro marido e pai das minhas filhas. Naquela época, eu não tinha consciência de que aquilo era um abuso.

Quando meu pai soube do meu namoro com um rapaz mais velho, ele me culpou, dizendo que eu era 'passada'. Era algo estrutural. Meu pai assediou minha mãe quando era professor de matemática dela. Ele tinha 32 anos e ela 16. Minha mãe vivia um abuso psicológico e financeiro. Ele era um homem rico, mas se negava a dar dinheiro para ela fazer a manicure ou ir a um restaurante. Na época do Plano Collor, descobrimos que ela nem sequer tinha conta bancária própria; ele usava o nome dela apenas para proteger o dinheiro dele. Para a sociedade, ele era o 'bonzinho', mas dentro de casa era um monstro.

Lembro-me de quando eu tinha 14 anos e minha irmã 15. Fomos convidadas para um suposto churrasco na casa de vizinhos. Chegando lá, não havia comida, apenas dois homens de cerca de 40 anos. Um deles me levou para o banheiro. E ali perdi a virgindade, em um estupro. Eu só entendi que aquilo era a minha primeira vez porque vi o sangue. Até então, eu não sabia que o pénis entrava na vagina. E tem esse esse tabu de não querer ensinar sobre isso nas escolas. Os pais têm vergonha, têm medo de falar com as filhas. E a gente cresce completamente exposta a todo tipo de abuso e crueldade.

O trauma é irrecuperável. Irrecuperável! Já fiz muita terapia, já mudei de país, já mudei de cidade, já mudei de relações e cada vez que me deparo com uma situação dessa na internet, do outro lado do continente, isso me revolta. Eu me lembro de quando estudava no colégio Messias Pedreiro em Uberlândia (MG), e tinha 12 anos. Os meninos da escola -- que nunca soube quem foram -- escreveram nos muros da rua da minha casa: 'a Nana é a menina mais linda da escola.' Levei a maior surra do meu pai por conta desse machismo impregnado que tudo é culpa da mulher. Você é culpada e vilanizada por ter nascido com essa aparência. Car$%&ho, o quê que eu fiz? Eu estava dormindo. Fui forçada pelo meu pai a ir na casa da vizinha e lavar o muro.

Quando meu pai descobriu que eu estava grávida, ele me bateu no meio da rua. Ele socava a minha barriga. Porque tudo sempre é culpa da mulher. Se a culpa é minha por que que nunca ninguém me explicou que o pênis entra na vagina? Por que que nunca ninguém me explicou que existe uma secreção que sai do pênis que faz você engravidar? Agora é culpa minha que eu não sei de nada e que não sabia que aquilo era violência? A única coisa que eu sabia é que era desconfortável, que doía, que eu não gostava, que eu falava não e ninguém parava.

Conto essa história ciente que sou mais uma em bilhões. E isso que tem que parar, a gente tem que perder a vergonha de ter sido vítima. A vítima não tem culpa. Eu não tenho culpa. Mas a gente sofre a violência várias vezes.

A minha maior dor foi no nascimento da minha segunda filha. Estava decidido entre eu, meu marido e minha ginecologista que eu faria uma laqueadura durante a cesariana. No entanto, meu ex-marido esperou eu ser anestesiada para entrar na sala e proibir o procedimento. A médica, com os olhos cheios d’água, disse que, por lei, como eu estava inconsciente, ele respondia pelo meu corpo. Chorei o parto inteiro. Ele me roubou o sorriso de ver minha filha nascer.

Consegui me separar quando ele viajou. Um amigo, o Renato, me buscou imediatamente. Minha família não aceitava mulheres separadas; meu pai dizia que eu era uma vergonha. Fugi para o Rio de Janeiro para trabalhar como recepcionista em uma feira. O que seriam quatro dias viraram meses, e logo me tornei modelo e capa de revista. Trabalhei no Domingão do Faustão, fiz Playboy e conquistei minha independência.

Durante dez anos após o divórcio, meu ex-marido me processou dez vezes, pedindo até pensão alimentícia por eu ser famosa e rica. Ele nunca pagou um centavo para as filhas e acabou fugindo do país para não ser preso. Hoje, minhas filhas moram nos Estados Unidos, são casadas e adultas. Meu pai faleceu no ano passado. O que eu digo para as mulheres é que a informação é a única saída. Precisamos ensinar as crianças sobre a privacidade do corpo e quebrar o tabu de falar sobre sexo e limites. Viver em cativeiro, sem ser dona do próprio corpo, é a pior monstruosidade que existe. Minha paz de espírito hoje vale muito. Se um relacionamento não for para multiplicar minha felicidade, eu prefiro a minha solidão e a minha liberdade."

Fonte: Portal Terra
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