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Mulher negra passa mal e desmaia após ser acusada de furtar loja

Vítima relata racismo cometido por segurança das Lojas Renner de shopping em Salvador e se emociona: "Por que me julgou pela minha cor?"

21 mai 2022 21h07
| atualizado em 22/5/2022 às 15h33
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Fernanda Rodrigues, de 42 anos, é vítima de racismo em Salvador
Fernanda Rodrigues, de 42 anos, é vítima de racismo em Salvador
Foto: Arquivo pessoal

Às vésperas de completar 43 anos, a recepcionista Fernanda Rodrigues foi acusada de furtar a unidade das Lojas Renner do Shopping Bela Vista, em Salvador. A mulher, que é negra, passou mal e desmaiou após a abordagem do segurança do estabelecimento, na tarde da última sexta-feira, 20. O caso foi registrado na polícia como racismo. 

A avaliação da vítima e de sua defesa não é à toa. Em entrevista ao Terra, Fernanda conta que estava olhando peças na seção masculina quando uma mulher foi flagrada pelo segurança com dois perfumes que teriam sido furtados da loja.

"Eu estava me direcionando para sair, ele estava entrando na loja e disse: 'A senhora, por favor...'. Na inocência, nem sei o que me passou, se eu cheguei a ver a mulher roubando, não sei. Só sei que ele já veio me acusando: 'Quer dizer que a senhora está roubando a loja junto com essa mulher'. Disse que me viu entrando com a mulher, que as câmeras provavam", relata Fernanda.

Segundo lembra, não havia qualquer razão para ela ser associada ou confundida com a suspeita. Em primeiro lugar, porque elas não estavam juntas. Além disso, as duas tinham outras diferenças: a mulher pega em flagrante era mais alta e usava um vestido longo estampado. Fernanda estava com um vestido justo com estampa de animal print, comprado na própria Renner.

O que a aproximava da suspeita era a cor da pele. Fernanda lembra também que havia outras pessoas próximas à mulher antes de ela ser flagrada, mas todas eram brancas. Fernanda era a única pessoa negra naquele momento.

Abordagem constrangedora

Durante a abordagem, considerada agressiva e constrangedora pela vítima, o segurança teria sido orientado, através de um radiocomunicador, a dispensá-la da loja, mandando-a "vazar" (expressão popular na Bahia, que significa "dê o fora" ou "saia"). Fernanda se recusou a deixar a situação passar despercebida e insistiu com o segurança para apurar a acusação.

"Ele me fez de cachorro, ignorou o que eu estava falando com ele, me deu as costas e saiu andando. Eu fui atrás. Ele entrou na área restrita da loja, eu fiquei esperando algum funcionário e pedi pra chamar o gerente geral. [...] A gerente afirmou que antes de ir falar comigo tinha que dar uma olhada nas câmeras, entender o que tinha acontecido... Ela disse que não viu ele [o segurança] me chamando, porque a câmera mostra eu indo até ele; não dá pra fazer leitura labial do que ele estava falando; e ela afirma que ele entrou dizendo que tinha cometido um erro", lembra a vítima.

O advogado de defesa de Fernanda Rodrigues, Marcos Alan Hora, aponta essa como a primeira incongruência da loja. Conforme a alegação da gerente, de que o funcionário havia sido demitido naquele momento e já não estava mais na loja, Hora entende que ela ajudou o segurança a fugir.

"A loja, ciente do crime que tinha acabado de ser praticado, deu fuga a essa pessoa que estava sendo acusada, ao invés de ser chamada para apresentar uma justificativa pelo que tinha feito. A loja simplesmente ocultou esse rapaz, não o apresentou de forma alguma, sendo que esse rapaz saiu não se sabe por onde - nem se ele de fato saiu do shopping", argumenta.

Vítima desmaiou na loja

Enquanto aguardava um posicionamento da gerência da unidade, Fernanda cita que sofreu um pico de pressão e desmaiou dentro da loja. O socorro foi prestado pela irmã que a acompanhava e pela equipe de primeiros socorros do shopping.

Neste sábado, 21, ela foi ao ortopedista e recebeu o diagnóstico de fratura no pé, resultado da queda no momento do desmaio. Com isso, Fernanda terá de ficar afastada de suas atividades por 15 dias. 

"Isso não é uma coisa boa, eu ter que me afastar durante 15 dias das minhas funções. Isso vai repercutir com a empresa, pra mim, na minha vida. Por que uma pessoa me julgou pela minha cor? Estamos no século XXI, temos tecnologia avançada, as pessoas são mais esclarecidas do que antigamente. Não tem por que as pessoas serem tratadas dessa forma por causa da cor da pele", lamenta a recepcionista, emocionada.

Uma ocorrência foi registrada no Serviço de Atendimento ao Consumidor do Shopping Bela Vista e na 11ª Delegacia de Polícia, no bairro da Mata Escura. O advogado Marcos Alan Hora afirma que, além do racismo, tipificado nos artigos 5º e 20º da Lei nº 7716/89, é imputável também o crime de calúnia, devido à acusação de furto, e danos morais e materiais - estes a serem apurados em ação cível.

"Ao não apresentar o autor do fato às autoridades policiais, cientes da prática de um crime, os prepostos da loja, assim como os do shopping, devem ser responsabilizados pela facilitação da fuga do referido autor, pois impossibilitaram a realização da sua prisão em flagrante", acrescenta o advogado, que chegou a ligar para o 190 em busca de apoio policial, mas não foi atendido.

O que dizem os envolvidos

Em nota enviada à reportagem do Terra na manhã deste domingo, 22, a assessoria de imprensa da Polícia Militar informou que a 1ª CIPM, unidade que atende a região, não foi acionada para averiguar o caso. A orientação, diz a PM, é que, em caso de acionamento, os policiais sejam encaminhados ao local indicado, identifique os envolvidos e os demais aspectos que permitam averiguar o coorrido, para então encaminhá-los a uma delegacia para registrar a ocorrência.

A assessoria de imprensa das Lojas Renner não foi encontrada para comentar os fatos. A assessoria de imprensa do Shopping Bela Vista não respondeu à reportagem do Terra até o momento da publicação. O espaço está aberto a atualização para quando desejarem se posicionar.  

Fonte: Redação Terra
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