Queda das ações e vendas fracas: o que está acontecendo no mercado chinês de veículos elétricos?
Queda nas vendas, fim dos subsídios e concorrência extrema colocam à prova o domínio da BYD no maior mercado de elétricos do mundo
SEUL, Coreia do Sul — Com base em praticamente qualquer métrica, a BYD parece imparável.
Depois de uma década lutando para se estabelecer na indústria automobilística, a BYD superou a Tesla e se tornou a maior fabricante de veículos elétricos do mundo. As vendas da empresa estão se expandindo rapidamente na Europa e na América Latina, e novos e potencialmente lucrativos mercados, como o Canadá, podem em breve se abrir para ela.
Mas os investidores estão esfriando o entusiasmo com a ascensão da BYD, que saiu de uma pouco conhecida fabricante de baterias para o topo do segmento mais dinâmico da indústria automotiva. As ações da empresa chegaram a cair cerca de 40% desde o pico registrado em maio passado, colocando-a entre os nomes mais afetados em uma venda generalizada de papéis de fabricantes chineses de veículos elétricos, movimento que se intensificou após as empresas reportarem números fracos de vendas em janeiro.
A concorrência intensa está esmagando as margens de lucro, os subsídios governamentais estão desaparecendo e ciclos de produção mais rápidos significam que nenhuma empresa consegue manter a liderança por muito tempo.
A BYD é um caso emblemático de como as empresas chinesas de veículos elétricos estão se tornando vítimas do próprio sucesso. O mercado doméstico, impulsionado em parte por subsídios governamentais, cresceu rapidamente, mas as companhias locais estão "esgotando o número de pessoas para quem faz sentido" comprar um elétrico, disse John Paul MacDuffie, professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia.
As vendas estão concentradas nas grandes cidades, onde a infraestrutura de recarga é mais desenvolvida, enquanto possuir um veículo elétrico simplesmente não é prático em grande parte do restante do país. Agora, a BYD e outras montadoras precisam transformar compradores ocasionais em clientes recorrentes, construindo relações de marca de longo prazo do tipo em que montadoras mais tradicionais sempre se apoiaram.
Após crescer 28% no ano passado, as entregas de veículos elétricos da BYD em janeiro caíram cerca de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior. As vendas totais de novos veículos elétricos recuaram quase 20%, segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis.
A BYD não respondeu a um pedido de comentário. A empresa atribuiu a queda à fraca demanda doméstica, segundo comunicado publicado no WeChat.
A desaceleração do crescimento coincide com a redução dos subsídios do governo chinês. Durante anos, Pequim isentou os compradores do imposto de 10% sobre a compra de carros novos. Mas neste ano, o tributo foi restabelecido à metade da alíquota original. A expectativa é que a taxa integral volte após 2027.
Outro fator é o fluxo constante de novos concorrentes. Em 2025, quase 400 modelos de veículos elétricos estavam à venda na China, mais que o dobro do número registrado em 2019, segundo a JATO, empresa de pesquisa de mercado automotivo. Mais de 100 desses modelos foram lançados nos últimos dois anos.
Scott Kennedy, assessor sênior do Center for Strategic and International Studies, think tank em Washington, afirmou que o setor está entrando em um período de "guerra". O número de montadoras terá de encolher de centenas para apenas algumas poucas para que a indústria seja sustentável no longo prazo, disse ele.
A concorrência feroz entre as montadoras empurrou os preços para uma espiral descendente conhecida na China como "involution" (involução), na qual as empresas continuam cortando custos e adicionando recursos apenas para sobreviver, mesmo quando isso prejudica os resultados de todos. As montadoras construíram enormes fábricas e lançaram um modelo atrás do outro, apostando que o volume acabaria compensando os lucros cada vez menores.
O país está construindo um novo tipo de indústria automotiva, afirmou Tu Le, analista de transporte e tecnologia — uma indústria que se parece menos com Detroit e mais com o Vale do Silício.
Os ciclos automotivos agora se assemelham aos da eletrônica de consumo, com novos modelos e atualizações de recursos lançados todos os anos. Enquanto a picape F-Series, da Ford, é o veículo mais vendido nos Estados Unidos há 40 anos, a liderança de vendas na China nos últimos anos foi ocupada por BYD, Geely ou Tesla. Quando as preferências mudam tão rapidamente, fábricas construídas para tempos de expansão não reduzem a produção com a mesma velocidade, gerando capacidade ociosa.
Mike Smitka, especialista na indústria automotiva e professor emérito da Washington and Lee University, estima que 40% da capacidade produtiva automotiva da China esteja sem uso.
Essas fábricas ociosas contribuíram ainda mais para o excesso de novos modelos. As empresas podem contratar fábricas já existentes para produzir seus carros em vez de construir suas próprias plantas. A Huawei, gigante chinesa de telecomunicações, vende diversos veículos elétricos, mas não produz os carros diretamente.
Mesmo sob pressão, porém, as montadoras chinesas representam uma ameaça às fabricantes americanas, que estão dobrando a aposta em picapes e utilitários esportivos a combustão, em vez de continuar investindo em veículos elétricos. Ford e Stellantis registraram prejuízos bilionários após reduzirem seus planos para elétricos neste ano. E até mesmo a Tesla perdeu sua vantagem inicial no segmento para a BYD no ano passado.
Até o momento, tarifas de 100% têm mantido os veículos elétricos chineses fora dos Estados Unidos.
Mas, segundo Le, é apenas uma questão de tempo. O resto do mundo já iniciou a transição para a eletrificação, mas "os Estados Unidos ainda não receberam esse memorando".
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