Comercial da Volks é “a profanação da Kombi”, afirma Bucci
Professor de Ética na USP, Eugênio Bucci escreve no Estadão que a publicidade da Kombi com Elis Regina “é um descalabro ofensivo à arte"
O polêmico comercial da Volkswagen por ocasião de seus 70 anos, unindo as cantoras Elis Regina (morta há 41 anos) e sua filha Maria Rita, dirigindo a velha Kombi e a nova Kombi elétrica ID. Buzz continua repercutindo mal.
Um dos críticos do comercial é o jornalista e doutor em comunicação Eugênio Bucci, professor de Ética na Universidade de São Paulo (USP). Em sua coluna no Estadão do dia 13 de julho, Bucci observa que o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) abriu uma representação para analisar o comercial e que “há um problema ético na peça publicitária”.
Reconhecido como um dos mais brilhantes intelectuais da Academia, Bucci não economizou palavras duras no artigo A profanação da Kombi. “Com todo o respeito aos escapamentos dos automóveis, o comercial da marca alemã é um descalabro ofensivo à arte, à música brasileira, à memória de quem já partiu desta para a desconhecida e, sobretudo, às pessoas que, por ainda não terem falecido, tiveram de ser expostas a tamanha atrocidade”, afirma Eugênio Bucci.
Segundo Bucci, a Volkswagen já erra quando “se permitiu editar a composição clássica de Belchior, Como Nossos Pais”. A reação popular questionando a mudança no sentido da letra da música surgiu logo que o filme foi lançado, conforme mostramos em reportagem quando o filme foi lançado.
“Na verdade, o que fizeram foi esquartejar a letra, os compassos, o andamento”, afirma Bucci. “O verso ‘você diz que depois deles não apareceu mais ninguém’ sumiu do mapa, embora fosse o centro nervoso da intenção do poeta. Vai ver ele foi tirado de lá justamente por isso.”
E continua: “Alguém submeteu sua obra a uma lobotomia perversa, ao lado de outras amputações tópicas. E tudo isso em nome do quê? De vender veículos automotivos? Belchior, que cantava ‘ano passado eu morri, mas este ano eu não morro’, morreu de novo. E de novo, e de novo. Ele está aí, morrendo em horário nobre”.
Eugênio Bucci também criticou o uso da imagem de Elis Regina, que foi autorizado pela família: “Quanto a Elis Regina, foi exumada por truques malfeitos que, segundo se propagandeou, contaram com o auxílio de Inteligência Artificial. Ora, senhores. Ora, senhoras. Haja mau gosto. Haja apostasia. Haja profanação”.
Embora muitos tenham visto o comercial da Volkswagen como uma bonita homenagem à Kombi, que retorna agora ao mercado em roupagem moderna e elétrica, Bucci marca firme posição entre muitos que não viram nada disso; pelo contrário.
“A Kombi, das nossas memórias mais inocentes, mais preciosas, ressurge no papel de um féretro de mortos-vivos artificiais a serviço do entretenimento, como num cortejo de seres frankensteinianos sem pé, sem cabeça, sem coração e sem espírito”, afirma o professor doutor da USP.
Bucci conclui: “Mais uma vez fica provado que as estratégias do advertising constituem o cemitério da arte, ainda que se valham, aqui e ali, de subterfúgios que de longe lembram expedientes dos artistas genuínos. Na campanha da Kombi embalada, Belchior e Elis Regina são evocados como retalhos do que foram. Cacos de si. Carcaças em ferrugem. Ferro-velho”.
Leia aqui a matéria que publicamos no Guia do Carro no dia 5 de julho: Sobre Elis Regina, Maria Rita, a Volkswagen e duas Kombi.
