Marvel MaXimum Collection resgata o caos dos super-heróis dos anos 90
Homem-Aranha, X-Men e Vingadores estão reunidos nesta coletânea de jogos das gerações 8 e 16 bits
Existe uma diferença curiosa entre revisitar um jogo antigo e revisitar uma era. No primeiro caso, você está lidando com mecânicas, gráficos, limitações técnicas. No segundo, o que entra em cena é algo mais difícil de medir: contexto, sensação, o espírito de um tempo que já não existe mais.
Marvel Maximum Collection, publicada pela Limited Run Games, se encaixa exatamente nesse segundo caso. Ela não é apenas uma coletânea de jogos da Marvel — é um retrato de uma fase em que os super-heróis ainda estavam tentando entender como existir nos videogames. E talvez por isso mesmo, seja tão fascinante.
Antes da fórmula, havia tentativa
Hoje, quando pensamos em jogos da Marvel, é quase inevitável lembrar de experiências polidas, cinematográficas, cuidadosamente roteirizadas. Mas nos anos 90, adaptar quadrinhos para videogames era um exercício muito mais instintivo. Era sobre capturar o excesso.
Cores vibrantes, inimigos em quantidade absurda, trilhas sonoras marcantes e uma dificuldade que parecia existir para prolongar a vida útil de um cartucho — ou consumir mais fichas no fliperama. Não havia um modelo claro a ser seguido, e isso se reflete diretamente na variedade (e irregularidade) dos títulos reunidos aqui.
A coletânea entrega seis jogos principais — que se desdobram em múltiplas versões, chegando a 13 variações no total — e, com isso, oferece algo raro: diferentes interpretações de um mesmo personagem, dependendo da plataforma e das limitações de cada época.
O Prato Principal: X-Men: The Arcade Game
Não tem como começar por outro lugar. O lendário beat 'em up da Konami de 1992 é a estrela absoluta do pacote, lançado exclusivamente nos arcades. O destaque aqui é o suporte online para até 6 jogadores, replicando aquela loucura das máquinas de gabinete duplo.
O jogo resistiu bem ao teste do tempo, mesmo depois de mais de 30 anos, e continua entregando belas animações, sprites enormes detalhados e controles fluídos fácil de aprender - em resumo, simples, direto, visualmente marcante — e, talvez mais importante, honesto sobre o que quer ser.
O jogador escolhe um dos seis X-Men: Ciclope, Colossus, Wolverine, Tempestade, Noturno ou Cristal. Seu objetivo é impedir que o vilão Magneto cause destruição na civilização humana, e lutar contra uma galeria de vilões clássicos da equipe mutante, como Pyro, Blob, Fanático, Nimrod, entre outros.
Um mosaico de ideias — nem todas lapidadas
Se o clássico dos X-Men é o pilar, o restante da coletânea funciona quase como um mosaico. Captain America and the Avengers de 1991 da saudosa Data East está presente em sua versão definitiva (Arcade), mas também nas adaptações para Mega Drive e NES (faltou a de Super NES), revelando como um mesmo jogo podia mudar drasticamente de acordo com a plataforma.
Ele não tem o mesmo refinamento visual do título da Konami, mas compensa com variedade no gameplay — alternando pancadaria com segmentos de tiro — e com aquele charme dos diálogos canastrões exagerados.
Já Spider-Man/Venom: Maximum Carnage de 1994 (Mega Drive e Super Nintendo) representa talvez o auge da estética noventista aplicada aos games de super-heróis: agressivo, estilizado, difícil e divertido. Sua sequência, Venom/Spider-Man: Separation Anxiety (Mega Drive e Super Nintendo), expande a ideia com cooperação simultânea para dois jogadores (inexistente no original), mas evidencia também como nem toda sequência resulta em melhorias, apresentando um nível de qualidade inferior.
Há ainda experiências mais fragmentadas, como Spider-Man and the X-Men in Arcade's Revenge (Mega Drive, Super Nintendo, Game Boy e Game Gear), que mistura gêneros e mecânicas ao colocar diferentes personagens em estilos de fase completamente distintos — uma ideia ambiciosa, ainda que meio inconsistente na prática.
O jogo coloca o Homem-Aranha tentando resgatar os X-Men (Wolverine, Ciclope, Tempestade e Gambit) do Mundo do Crime do vilão Arcade, com cada um sendo jogável depois de salvo.
E, fechando o pacote, Silver Surfer - o Surfista Prateado - talvez seja o maior ponto fora da curva: um shooter impiedoso, com uma belíssima trilha sonora, lançado exclusivamente no Nintendinho que troca socos por precisão e reflexo, lembrando mais os clássicos arcades de nave espacial do que qualquer fantasia tradicional de super-herói.
Onde Marvel Maximum Collection realmente acerta é no cuidado com a preservação. Os recursos modernos — rebobinar, save states, filtros visuais e até um menu de cheats — não são apenas conveniências; eles funcionam como ferramentas para tornar esses jogos acessíveis hoje. Especialmente quando se considera o nível de dificuldade de alguns deles, claramente desenhados para outra realidade de consumo.
Mas o valor maior está nos detalhes: digitalizações de caixas, manuais, trilhas sonoras. Elementos que ajudam a reconstruir não só os jogos, mas o ecossistema ao redor deles.
Considerações
Jogar Marvel Maximum Collection em 2026 é, inevitavelmente, um exercício de contrastes. Há momentos em que tudo parece datado — controles rígidos, repetição, limitações evidentes. E há momentos em que tudo faz sentido: o ritmo acelerado, a estética exagerada, a simplicidade direta. A diferença está no olhar.
Para quem viveu aquela época, assim como eu, essa coletânea funciona como uma ponte direta para um passado nostálgico. Para quem chega agora, ela pode soar mais como um registro histórico do que como um entretenimento contínuo.
Mais do que uma coletânea, é um registro sobre uma época em que ser herói nos games não dependia de mundo aberto, narrativa cinematográfica ou sistemas complexos — mas sim de reflexo, persistência e, claro, de quantas fichas você ainda tinha no bolso.
Marvel Maximum Collection está disponível para PC, PlayStation 5, Switch e Xbox Series X/S.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Limited Run Games.