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Futebol

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'Sou torcedor do Brasil até a morte': por que países como Bangladesh e Líbano veneram a seleção

Cenas impressionantes de multidões de fãs apaixonados pela amarelinha na Ásia viralizaram nas redes sociais; torcedores e o embaixador do Brasil em Daca ajudam a explicar esse fenômeno

3 jul 2026 - 05h43
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As imagens que circulam nas redes sociais são impressionantes. Diversos torcedores reunidos em Bangladesh, país localizado no sul da Ásia, estão vestindo a camisa da seleção brasileira. Eles tremulam bandeiras do Brasil em frente a um telão enorme por onde assistem aos jogos da amarelinha na Copa do Mundo de 2026. Em um dos vídeos mais compartilhados, inclusive pelo presidente da Fifa Gianni Infantino, dezenas de fãs correm em direção ao telão, após Vini Jr. marcar um gol, e estendem as mãos para a projeção do atacante, em uma cena que lembra uma verdadeira veneração.

Paulo Feres, embaixador do Brasil em Daca, capital, estima que entre 80 milhões e 100 milhões de bengalis torçam pela seleção brasileira - mais da metade dos 178 milhões de habitantes do país, o oitavo mais populoso do mundo.

Como a seleção bengali não ostenta destaque na modalidade (ocupa apenas o 181º lugar no ranking da Fifa), foi natural que os locais abraçassem outras nações. Feres conta que percebeu o entusiasmo pela primeira vez na Copa de 2022, realizada no Catar, quando os fãs o paravam na rua e perguntavam os motivos da equipe comandada por Tite ter sido eliminada pela Croácia.

"É curioso o fato de que eles não jogam futebol aqui", ressalta Feres, em conversa por videoconferência. "O principal esporte em Bangladesh é o críquete, mas eles jamais vão às ruas por causa de um jogo de críquete, ao contrário do que ocorre durante a Copa. Eles se relacionam com o futebol emocionalmente. Quando a Copa acaba, esse amor entra numa espécie de latência e fica guardada até a próxima Copa. Essa relação com a seleção brasileira é tratada como um tesouro", complementa.

O embaixador também compara a forma de torcer dos bengalis com a dos brasileiros. "No Brasil, as pessoas costumam ver os jogos em casa ou ir ao bar. Aqui em Bangladesh não há bares, pois é um país muçulmano e, teoricamente, eles não podem beber. Logo, os fãs acabam se aglomerando em lugares abertos", relata.

Milhares de torcedores se reúnem em Bangladesh para torcer pela seleção brasileira
Milhares de torcedores se reúnem em Bangladesh para torcer pela seleção brasileira
Foto: Reprodução/@CBF Bangladesh via Instagram / Estadão

Recursos vêm dos próprios torcedores

Por trás das grandes festas em Bangladesh há um esforço coletivo. Os recursos vêm dos próprios torcedores, muitos deles estudantes universitários, que fazem contribuições para custear telões, estruturas, alimentação e a organização dos eventos. O governo não investe, oferecendo apenas autorizações e apoio institucional.

"Tem rapazes que trabalham intensamente, ganham US$ 200 e gastam metade do salário para poder curtir essa Copa. Existe um amor totalmente diferente pelo Brasil", diz Malik Robin Mia, empresário e influenciador de 36 anos, um dos principais incentivadores desse fenômeno.

Em Bangladesh, a economia é fortemente sustentada pela indústria têxtil e pela mão de obra estrangeira. Como tantos bengalis, Malik decidiu buscar oportunidades fora de seu país. Morando há 11 anos no Brasil, ele se impressionou com a devoção de seus compatriotas à seleção e sentiu que poderia fortalecer ainda mais essa conexão entre os dois países. Foi assim que criou a página CBF Bangladesh, hoje seguida por mais de 65 mil usuários no Instagram. O perfil reúne apaixonados pelo esquadrão verde e amarelo, compartilhando notícias, vídeos, campanhas e promovendo ações entre os fãs.

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"Sou um torcedor do Brasil até a morte", afirma Malik, falando em português direto dos Estados Unidos, onde assiste aos jogos da Copa in loco, financiado por uma família brasileira, que lhe forneceu passagens aéreas, ingressos e até roupas da seleção. "Minha paixão começou por causa do Neymar. Se você perguntar para qualquer torcedor em Bangladesh, vai perceber que Neymar é uma febre, ele conquistou uma geração", explica.

A relação do povo bengali com o Brasil, no entanto, não começou com a geração de Neymar, mas sim décadas atrás. Até 1947, Índia, Paquistão e Bangladesh formavam juntos uma única colônia britânica conhecida como Índia Britânica. Em 1971, Bangladesh conquistou sua independência após uma guerra que resultou na morte de aproximadamente 300 mil a 3 milhões de pessoas, coincidentemente logo após o time de Zagallo conquistar o histórico tricampeonato mundial no México.

Considerado Pai da Pátria, o líder da independência Mujibur Rahman era um grande admirador de Pelé. O ex-presidente teria traduzido uma biografia do jogador (Viagem em Torno de Pelé, de 1963, escrita pelo jornalista esportivo Mário Filho) para o idioma oficial do país, o bangla, e tornado o livro leitura obrigatória nas escolas. "Muitas pessoas já me abordaram e disseram que leram essa biografia. É fato que este país nasceu com a seleção brasileira entranhada nele", pontua Feres.

"Já vi meus tios brigarem feio numa discussão entre Pelé e Maradona. Então, esse fenômeno ocorre há 40, 50 anos, mas hoje possui mais difusão por causa da internet", conta Malik.

"Quando vemos o Brasil jogar, vemos arte, ritmo e expressão", aponta Md. Akteruzzaman Bappy, outro torcedor bengali popular nas redes sociais. "De vilarejos a grandes cidades, as pessoas decoraram suas casas, ruas e telhados. O que mais se destaca é a união: ricos ou pobres, jovens ou idosos, todos se unem por um sentimento compartilhado: o amor pelo Brasil", acrescenta.

Carreatas e buzinaços no Líbano

A cerca de 5 mil quilômetros dali, no Oriente Médio, o cenário se repete em outra escala. No Líbano, ruas são tomadas por carreatas, sinalizadores tingem o céu de vermelho e fogos de artifício explodem ao som de vuvuzelas e buzinaços.

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Por lá, a forte identificação com a seleção brasileira é um fenômeno relativamente recente. O Brasil abriga a maior comunidade de origem libanesa do mundo, estimada entre 7 e 10 milhões de pessoas, fato que contribui para fortalecer os laços entre os dois países. A relação foi intensificada pelo sucesso da seleção na década de 1990 e, atualmente, divide a preferência dos torcedores locais com a Alemanha, já eliminada do torneio deste ano.

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Um dos exemplos mais emblemáticos desse vínculo é a Feira Internacional Rashid Karami, em Trípoli, complexo projetado em 1962 por Oscar Niemeyer, que tem recebido exibições de partidas da Copa. Em outra cidade situada ao norte do país, uma arena com capacidade para cerca de mil espectadores recria a atmosfera de um estádio durante os jogos do Brasil. Essas mobilizações também são organizadas pela iniciativa privada e pela própria comunidade, com participação pontual do governo libanês.

Fenômenos semelhantes são observados no Paquistão, na Índia e na Indonésia, provando que se o futebol é uma linguagem universal, a seleção brasileira é um de seus sotaques mais reconhecidos, capaz de unir arquibancadas em qualquer território.

Estadão
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