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Entenda por que a dívida do Flamengo está controlada e a de outros clubes brasileiros não

Rubro-negro tem as contas em dia e deve continuar como associação civil, enquanto outros clubes endividados veem projeto clube-empresa como salvação

29 nov 2019
07h11
atualizado às 19h23
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Os clubes brasileiros possuem uma dívida que atingiu R$ 7,3 bilhões na temporada passada e, ainda sem o balanço final deste ano, já há indicação que ela vai aumentar 8%, batendo nos R$ 7,9 bilhões. Entre os devedores, há times que estão com o saldo negativo controlado e outros que estão em situação preocupante e que veem o projeto clube-empresa como uma salvação. A proposta do deputado Pedro Paulo (DEM-RJ) passou na Câmara dos Deputados. Segue agora para o Senado.

O Botafogo encabeça a lista entre os mais endividados, com o total de R$ 730 milhões, de acordo com os números de 2018 consolidados pela Ernst&Young, consultoria que participa da análise do projeto de transformação dos clubes em empresa. E é também o Alvinegro carioca que apresenta dívida mais nociva, uma situação bem diferente do Flamengo, que deve R$ 469 milhões e aparece em oitavo lugar nesse ranking.

Os cenários são distintos também sob o ponto de vista econômico. "É quase como comparar um financiamento imobiliário com uma dívida do cheque especial", explica Pedro Daniel, diretor executivo da Ernst&Young. Grande parte da dívida do Botafogo é de curto prazo, enquanto que o Rubro-negro tem endividamento atrelado ao PROFUT, no longo prazo, e, contabilmente, tem alguns investimentos.

Existe também uma grande diferença de receita entre as duas equipes do Rio. O Flamengo arrecadou R$ 542 milhões em 2018 enquanto que o Botafogo faturou R$ 182 milhões. Ou seja, o Flamengo está equalizado porque o que ele recebeu é mais do que o dobro de sua dívida, enquanto que o Botafogo tem uma relação de receita de aproximadamente 1/4 do seu endividamento. Esse é o ponto. E o Botafogo não está sozinho nessa. Muitos outors clubes da Série A do Brasileiro pecam em suas gestões. Gastam mais do que arrecadam. Trazem em suas administrações, endividamento de outros presidentes.

Nesta semana, o Vasco, outro grande do Rio, tratou de pegar carona na Black Friday para priomover descontos no seu projeto de sócio-torcedor. Havia preço mínino de R$ 4 para se associar. O clube, com isso, queria bater na casa dos 100 mil seguidores. Até quinta-feira tinha alcançado 75 mil de uma base que era de 30 mil. O dinheiro das mensalidades ajuda o clube a pagar algumas despesas do futebol.

"Uma coisa é você ter parcelas de R$ 1.000 para um carro tendo salário de R$ 10.000, outra coisa é ganhando um salário mínimo. Percebe que o mesmo endividamento é muito mais nocivo para quem não tem recebíveis ou fluxo de caixa?", explica Pedro Daniel, diretor da EY. Não é à toa que o Botafogo já declarou adesão ao projeto clube-empresa caso seja ele aprovado. O texto passou pela Câmara dos Deputados na quarta-feira e vai agora para o Senado. Os irmãos botafoguenses Moreira Salles encomendaram um estudo no início do ano para avaliar a viabilidade de o clube virar uma sociedade anônima a partir do próximo ano, que é quando se espera que o projeto seja sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro.

CLUBE-EMPRESA

Para ser integrado ao projeto, o clube interessado terá de apresentar um plano completo de reestruturação e aí poderá pedir a recuperação judicial e negociar suas dívidas. Os clubes-empresas vão poder parcelar débitos em até 150 meses, com uma redução das multas em 70%, dos juros em 40% e dos encargos legais em 100%. Sem dívidas e mais transparentes, os clubes podem formar equipes mais fortes e, assim, atrair mais investidores.

O texto que tramita no Congresso cria também uma tributação especial para os clubes que profissionalizarem suas gestões. Denominada Simples-Fut, a nova taxa obriga o clube a recolher 5% da receita bruta para saldar o Imposto de Renda, a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) e o Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). O valor de tributação de 5%, contudo, poderá ser reduzido em 1% caso os clubes incentivem a formação de categorias de bases do futebol feminino e o incentivo ao esporte em comunidades carentes.

Os deputados fizeram apenas uma modificação no texto e passaram a deixar como opcional a contribuição que os clubes fazem à Federação das Associações dos Atletas Profissionais (Faap) e à Federação Nacional dos Atletas Profissionais (Fenapaf). Atualmente, a cada transação de jogadores, os times pagam uma parte às entidades que cuidam de ex-atletas.

CLUBES PAULISTAS

Os times de São Paulo também têm seus problemas financeiros. Mesmo o Palmeiras, que conta com o dinheiro da Crefisa há cinco temporadas, sofre para cumprir metas de fechamento. O clube tinha de fazer R$ 50 milhões de vendas de atletas até o fim do ano. Segurou Deyverson e Borja e teve de colocar à venda meninos da base, como lateral Luan Cândido, para o Red Bull Leipzig, por R$ 43 milhões. A dívida do Palmeiras é de R$ 462 milhões. Sua receita gira em torno de R$ 580 milhões. Ocupa a 9ª colocação no ranking dos clubes mais devedores.

O paulista de menor dívida é o São Paulo, com R$ 270 milhões. O clube também vem se valendo do expediente de vender alguns jogadores das bases, ou recém-subidos ao profissional, para se sustentar. As bilheterias dão menos do que o clube gostaria, e o time se vê quase sempre envolvido com crises no seu futebol. É 13º na lista dos maiores devedores, de acordo com o estudo a que o Estado teve acesso.

Quem faz menos dinheiro com o futebol, no entanto, é o Santos. Jogos na Vila Belmiro têm média de público de 10 mil torcedores. A diretoria afirma também que trazer as partidas para o Pacaembu não dá lucro. Por anos, vender jogador tem sido o grande negócio do clube. Neymar foi um deles. Mesmo assim, por valores irrisórios ao que o jogador vale atualmente. Neste ano, o Santos encheu os cofres com o dinheiro do repasse de Rodrygo ao Real Madrid, na casa dos R$ 172 milhões. Com esse montante, poderia quitar quase metade de sua dívida, que é de R$ 407 milhões. Mas há outras contas e o clube chegou a atrasar salários ao longo da temporada.

A situação mais delicada é a do Corinthians, cuja dívida gira em torno de R$ 476 milhões. O elenco é fraco, precisa de reformulação e o novo técnico, Tiago Nunes, sabe que o dnheiro está curto. O clube também tem uma dívida de R$ 537 milhões com a Caixa Econômica Federal da construção do seu estádio em Itaquera. As rendas dos jogos têm sido destinadas a pagar essa pendência, de modo a sobrar pouco para outras quitações. A folha de pagamento gira em torno dos R$ 10 milhões, mas o presidente Andrés Sanchez promete dispensar jogadores que não queiram ficar. Ocupa a 7ª colocação dos clubes mais devedores da Série A.

Estadão
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