Com jogo da Alemanha, descendentes lembram histórias de vida
Vitória de time europeu orgulha família Thomas, de Gramado, e incentiva reflexão sobre legado alemão
Nas paredes, os quadros são tipicamente brasileiros, com cores vibrantes e imagens tropicais. Do silêncio irrompem expressões típicas de torcedores de futebol. E, na TV, o que se vê é a seleção alemã duelando contra a argelina por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo de 2014. O idioma? É português. O coração – e a torcida –, porém, são germânicos.
Na casa da família Thomas, em Gramado, na Serra Gaúcha, o time brasileiro é unanimidade. Mas quando o assunto é paixão no futebol, o sangue alemão fala mais alto. Descendentes diretos dos imigrantes que desembarcaram no Rio Grande do Sul há 190 anos, eles mantêm vivas as tradições germânicas.
Janete Thomas Prinstrop, 52 anos, garante que torceu para a seleção alemã porque o país é composto por um povo que não se vitimiza, luta por sua história e é extremamente objetivo. A irmã dela, Clarise Thomas Meinhart, 61 anos, também não esconde o orgulho: “vibro pelo time primeiro pela garra, pela tradição e pelo bom futebol”, enfatiza.
A filha de Clarise, Marluci Meinhart, 21 anos, também esteve atenta aos lances da partida. “Torci para a Alemanha porque é uma das seleções de maior tradição na Copa e também pelo fato da descendência familiar”, explica a gramadense.
Minutos antes do jogo entre Alemanha e Argélia a família apostou nos palpites. No entanto, nenhuma das integrantes acertou o placar final da partida.
Para Marluci, o jogo acabaria em 3 a 0 para a Alemanha. Clarise e Janete optaram pela vitória alemã, mas com o placar de 2 a 0.
Sangue vermelho, preto e amarelo
Se os brasileiros costumam enaltecer seu sangue verde e amarelo, as Thomas agradecem pelo DNA em vermelho, preto e amarelo – cores da bandeira alemã. Janete revela que sua ascendência vem da família Schneider, que desembarcou no Rio Grande do Sul há 184 anos.
“Os costumes alemães foram passados de geração em geração. Aqui acho que o elemento mais típico da Alemanha é a gastronomia. Eu gosto também do estilo das casas. Eu prezo demais pela minha descendência e adoro quando me chamam de ‘alemoa’”, assegura.
A identidade alemã repassada de pais para filhos reiterou em solo brasileiro, com o avançar dos anos, os costumes e preferências típicas de alemães. Clarise lembra que seu pai, Henrique Thomas Filho, era um degustador de cerveja e adepto a apenas um gênero específico da iguaria. “Ele bebeu cerveja até o final da vida e dizia que era um de seus prazeres”, lembra.
A mesma cultura passada a Clarise pelo pai Henrique foi transferida à Marluci, que, com apenas 21 anos, mantém o idioma do país. “O dialeto alemão falado pela minha mãe e minha avó é muito forte. Além disso, a comida e as músicas estão presentes todos os dias, fazendo com que elas sejam cada vez mais lembradas e valorizadas”, afirma.
A matriarca dos Thomas é Blonda Schneider Thomas, 84 anos – ela é mãe de Clarise e Janete e avó de Marluci. Sua pronúncia pausada das palavras e o sorriso de quem se orgulha do sangue que lhe dá vida são indícios da satisfação alemã existente até hoje no núcleo familiar dos Thomas.
“Meu avô, Frederico Schneider, foi um dos primeiros imigrantes a vir da Alemanha para São Leopoldo. Casei com um descendente de alemão e mantemos a tradição na família até hoje, desde os jogos até a comida e a fala. Meus pais, inclusive, faleceram sem aprender a falar português”, conta, orgulhosa.
A paixão que a família Thomas dirige à Alemanha é uma entre tantas amostras visíveis na Copa do Mundo de 2014. O que se leva deste Mundial é a certeza de que, independentemente da cor, do credo ou do país de origem somos todos um só.
Supervisão: professora Anelise Zanoni