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'Poderia estar mais rico, nunca fiz besteira por causa da bebida e depressão foi quando saí da NBA'

Aposentado do basquete aos 28 anos, Lucas Bebê revela ajuda do volante Jucilei, ex-São Paulo, e passa a limpo sua carreira; fala dos problemas pessoais e se prepara para lançar um CD

1 mar 2021
16h06
atualizado às 17h56
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Lucas Bebê quer esquecer definitivamente o basquete. A frustração por inúmeras lesões e o prejulgamento das pessoas em relação ao comportamento exposto nas redes sociais fizeram o jogador de 2,13 m se aposentar aos 28 anos. O talento que o levou à NBA, onde defendeu o Toronto Raptors, não era mais suficiente para mantê-lo em quadra. O amor chegou ao fim.

Em entrevista exclusiva ao Estadão, o agora ex-pivô conta os detalhes da decisão que surpreendeu muita gente e diz que é o momento de seguir adiante. Sincero, Lucas Bebê fala abertamente dos problemas com álcool, de depressão e revela que o volante Jucilei, com passagens por Corinthians e São Paulo, foi o responsável por ajudá-lo a ter um pós-carreira tranquilo, apesar da aposentadoria prematura.

"O Jucilei mudou o meu patamar financeiro", revelou. "Claro que eu poderia estar mais rico do que estou atualmente, mas tenho o suficiente para sustentar minha família e minha filha lá fora", citando Stella, que mora nos Estados Unidos com Caroline Kuczynski, ex-mulher de Lucas Bebê.

A sua aposentadoria pegou muita gente de surpresa... Quando você tomou esta decisão?

Nunca é uma decisão tranquila, claro, mas foi de cabeça fria, eu já sabia o que queria pra mim. Obviamente fui contra muita gente, mas eu não me encontrava mais feliz no esporte. O basquete não era mais uma alegria, enfrentei muitas lesões. Falei com o (Alberto) Bial (técnico do Fortaleza Basquete Cearense) e o Espiga (auxiliar) no quarto do hotel, quando o time estava concentrado para jogar pelo NBB e avisei que não queria mais jogar. Sei que o Bial ficou irritado, era para eu ser o pilar da equipe dele, mas acredito que agora ele entendeu. Muitas pessoas ficaram decepcionadas, frustradas, porque queriam muito que eu continuasse, mas apenas eu sei o quanto estava sendo difícil para eu continuar jogando basquete. Estava dois anos e meio sem jogar quando voltei no Fortaleza. Tomei esta decisão de parar definitivamente e resolvi seguir adiante.

No vídeo em que anunciou sua despedida, você comentou das lesões e 'algumas coisas injustas que aconteceram na sua carreira'... O que aconteceu que te fez perder sua paixão pelo basquete?

Muito prejulgamento, muita gente que diz entender de basquete e, na realidade, não sabe nada. Isso vai te esgotando. As pessoas dando palpite na tua carreira e em outras coisas também. Não quero acreditar que alguém tenha inveja de mim. É uma palavra pesada. Mas é muito estranho algumas pessoas que não me conhecem fazerem um prejulgamento. Só pelo meu jeito espalhafatoso, pelo que vê nas redes sociais, por eu viver uma vida fluida sem medo de me expor. A galera acha que sou doidão, mas nunca tomou um café comigo para saber da minha índole, do meu caráter. Esse tipo de julgamento machuca. Em Brasília, na bolha, uma menina que tem um namorado que é jogador de basquete me disse que ele me achava um babaca. Mas ele não me conhece. Tenho certeza de que se ele tomar um café comigo, me conhecer de verdade, vai mudar de ideia. São pessoas que não te conhecem e desejam o seu mal. Dá nojo. A última coisa que eu vi é que estou falido. E posso garantir que não estou falido. Tenho consciência de que posso trazer isso para mim pela maneira como eu vivo, me expondo, mas abraço qualquer consequência sem problema algum.

Você mudaria algo em sua trajetória na carreira?

Sim, sim, mudaria. Sei que cheguei na NBA e joguei na Europa por causa do meu talento e não pelo trabalho. Foi isso que me tirou da NBA. Se eu tivesse me dedicado mais ao esporte, tivesse trabalhado de uma maneira mais árdua, talvez estivesse até hoje lá. Não ganhando milhões, porque apenas os predestinados ganham milhões na NBA. O restante carrega piano e faz o trabalho sujo, o que eu poderia fazer com tranquilidade. Muitos jogadores não têm o mesmo talento e estão ou ficaram muito tempo na NBA. Então, se tivesse de mudar algo, seria isso. A minha maneira de ver. Hoje estou com 28 anos e sou pai de família. Naquela época, eu tinha 22, 23, era um garoto ganhando muito dinheiro. Tinha quatro carros, comprei uma Ferrari. A minha cabeça era outra. Teria focado no que realmente era importante e não em coisas supérfluas como eu fiz.

Você admitiu ter tido problemas com álcool...

Eu gostava da bebida. Gosto de beber, tomo minha cervejinha. Mas nunca tive problema sério com bebida. É apenas para me divertir. Nunca fiz besteira por causa da bebida, nunca bati carro ou bati em mulher. Nunca causei nenhum acidente. A história do alcoolismo foi um pouco exagerada e isso ficou marcado, como outras coisas. Não tinha crise de abstinência ou mesmo compulsão por beber. Mas eu bebia muito mesmo quando saía.

Você chegou alguma vez para treinar sem condições por causa da bebida?

Nunca tive problema de indisciplina por causa disso. Nunca fiquei bêbado, para ser sincero. Não sei se é pelo fato de o meu corpo ser muito grande e tal, mas nunca passei vergonha na rua, não.

Você sofreu também de depressão, um tema que considero importante falarmos, porque muitas pessoas passam pelo mesmo problema... Como conseguiu superá-la?

Isso aconteceu quando eu saí da NBA e deixei de ser alguém. Eu era alguém só porque estava lá. As pessoas sumiram, viraram as costas para mim. Não tinha mais convite para balada, para nada, ninguém tinha mais interesse e isso me fez cair em depressão. Eu pensei: 'Sou um m..'. Mas depois tirei de dentro de mim que a vida era muito mais do que jogar na NBA. Entendi que essas pessoas não serviam para andar comigo ou fazer parte da minha vida. Eu filtrei quem merecia estar realmente comigo. Tirei esta força de dentro de mim e consegui seguir adiante.

O Felipe Melo entra em qual momento da sua vida para te ajudar?

O primeiro contato foi pelo Instagram, trocamos mensagens. O Felipe Melo é parecido comigo, um cara espontâneo, verdadeiro, fala o que pensa, também sofre com o prejulgamento das pessoas, mas quem o conhece sabe o tamanho do coração que ele tem. Me ajudou bastante, morei um tempo na casa dele. Estamos sempre conversando. Até neste momento, com o negócio da aposentadoria, ele quer me ajudar, trabalhar o aspecto financeiro comigo para eu ficar bem o resto da vida. Sou muito grato por tê-lo na minha vida. Mas há outra pessoa muito especial, que eu devo a minha vida a ele, que mudou a minha vida para outro patamar. Esse cara se chama Jucilei. Todo dia eu vou no WhatsApp e escrevo para ele 'bom dia, patrão, obrigado por tudo'. Ele investiu o meu dinheiro e hoje eu tenho uma segurança financeira absurda. Também me ensinou o mais importante, que é não gastar. Ele tem uma condição financeira ótima, mas vive muito barato, não gasta com coisas supérfluas, compra o que é necessário para ele, o filho e a mulher... Morei com ele por um mês e meio agora no Rio para absorver isso. Felipe Melo é um cara que eu amo muito, mas foi o Jucilei que mudou o meu patamar financeiro.

A sua situação, como você disse antes de estar falido ou não, poderia ser pior sem ajuda do Jucilei?

Com certeza. Existem caras que ganharam dez vezes mais dinheiro do que eu e perderam tudo. Obviamente se continuasse gastando o meu dinheiro, ele iria acabar um dia. Hoje você vê os atletas jogando até 40 anos. Eu parei com 28. Ele me ajudou a ter uma rentabilidade mensal para eu gastar com segurança o que quiser e não quebrar.

Mercado financeiro é uma área que você quer aprender?

Quero entender mais. O Jucilei me colocou até em uma empresa para eu aprender, estou procurando ir lá sempre. Sou um cara que recebo muita coisa, me falam para colocar o meu dinheiro aqui, ali... Acabei de ter uma experiência negativa há um mês e meio. Perdi meio milhão de reais. Hoje tenho muito cuidado onde eu coloco o meu dinheiro. O Jucilei me apresentou um cenário concreto, comprovou com números que era um bom investimento. Conversei com os meus empresários, que são conservadores, entramos e estamos até hoje. Estou tranquilo. Claro que eu poderia estar mais rico do que estou atualmente, mas tenho o suficiente para sustentar minha família e minha filha lá fora.

Você gosta de cantar, dá para notar nas redes sociais, é algo que pretende investir?

O CD está pronto, mas, para lançar, preciso falar com a Regina, mulher do Almir Guineto, o nosso mestre que nos deixou (em 2017). Ela é detentora dos direitos juntamente com outros compositores de algumas músicas que cantei com ele. Preciso ter esta liberação caso eu queira levar isso para frente, colocar nas mídias digitais. A minha ideia é fazer outras coletâneas, sempre homenageando estas pessoas do samba, que são dignos de aplausos.

Quais são suas influências musicais?

Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Cartola... Tenho minha preferência, o samba, o rock, MPB, mas gosto de música boa. Sou muito chato neste aspecto. Se for algo bom, eu vou aplaudir. A música brasileira, infelizmente, hoje perdeu o rumo. As pessoas estão valorizando coisas ruins. Quem merece valor está largado por aí.

Para encerrar, a última temporada da NBA foi histórica pela mudança na postura dos atletas, que protestaram, que fizeram ser ouvidos na luta contra o racismo. Como viu este movimento?

A atitude dos jogadores foi sensacional. Aqui no Brasil, infelizmente, não é igual. As pessoas defendem o seu próprio interesse. Pode morrer negro mendigo ou rico que nunca vai ter algo igual como foi lá. Os negros no Brasil, que tem voz, não vão defender com medo de perder patrocínio. Eu não tenho voz como gostaria de ter no meu País. Se tivesse, não teria medo algum e iria falar o que penso. Lá eles não vão ver conta bancária ou o número de seguidores que esta pessoa tem no Instagram. Basta ser negro e acontecer algo, que vão te defender. O Brasil vive um racismo social. Já aconteceu comigo. Sempre andei de carro bom e não era parado em blitz. O que acontece nos Estados Unidos tinha de ser repetir no mundo todo.

Estadão
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