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Investimento estrangeiro é incerto mesmo com reforma

Cenários locais e externos podem frustrar investidor que entrou na B3 esperando crescimento econômico

24 jun 2019
05h11
atualizado às 08h36
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Depois do rombo em 2018 com mais de R$ 11,5 bilhões de saldo negativo de investimentos estrangeiros no País, 2019 - ano em que se esperava a volta desse capital - já soma mais de R$ 3,5 bilhões negativos no saldo do primeiro semestre. Mesmo sem recuperar as saídas do ano passado, porém, a Bolsa brasileira segue em alta, chegando a fechar acima de 100 mil pontos na última quarta-feira, 19. A aprovação da reforma da Previdência, que move as expectativas locais, no entanto, pode não ser suficiente para manter o fôlego de subida do Ibovespa e trazer os estrangeiros de volta: o que pode frustar a confiança local.

Para André Perfeito, economista chefe da Necton, mesmo com a aprovação do texto da Previdência, a volta dos investidores de outros países não se daria imediatamente. "O Brasil não vai começar a crescer no dia seguinte." Ele lembra que "os investidores estrangeiros tendem a não comprar ativos quando eles estão caros" e que, uma vez que a bolsa subiu sem o aquecimento esperado da Economia, essa volta fica ainda mais difícil.

Notas 100 reais
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Foto: Rafael Neddermeyer / Fotos Públicas

O economista diz que, ao fim de 2019, os investidores locais serão levados a repensar suas posições. "Boa parte da sustentação da Bolsa vem de afrouxamento monetário. Os juros baixos são consequência da atividade econômica fraca. Esse processo de queda gera o efeito riqueza: as pessoas acham está tudo bem porque a bolsa está subindo, mas não gera sustentação", diz. "No fim do ano saberemos o tamanho dessa discussão", completa.

Em relação à reação dos investidores externos com a aprovação da reforma, o mercado tem visões mais otimistas. É o caso de Rafael Passos, analista da Guide Investimentos. Para ele, com a melhora da expectativa sobre a situação fiscal do país que a reforma traria, tanto o investidor local, com ainda mais confiança, quanto o estrangeiro, fariam a bolsa continuar o movimento de alta. "O crescimento da bolsa é sustentável justamente porque ainda não temos os estrangeiros. Ainda temos cerca de R$ 100 bilhões para entrar no Brasil com esses investimentos", diz. Apesar do otimismo local, o analista admite que o atual cenário externo gera incertezas do que pode acontecer no decorrer do tempo.

Exterior

"Minha preocupação é com o exterior, não com a situação doméstica. A atividade econômica e a pressão inflacionária ainda é fraca lá fora. Por enquanto, estamos surfando essa onda e as ações são a melhor expectativa de ganho para o investidor, mas ninguém sabe no que isso vai dar." Ele explica que não há como excluir os investidores de fora do país da conta. "O Ibovespa só vai se sustentar se o gringo voltar. No caso de um ajuste monetário lá fora, teremos problema. Mas não é o que esperamos no momento."

A atenção ao cenário dos Estados Unidos e da Europa e à perspectiva de redução de crescimento da economia mundial é também um dos fatores apontados por William Eid, coordenador do Centro de Estudos de Finanças da FGV, para a constante saída dos investidores estrangeiros do País. Com a economia internacional em possível perspectiva de crescimento mais lento, somado às tensões entre China e Estados Unidos, que influenciam os países emergentes, os investidores tiram dinheiro dos lugares mais arriscados", diz.

Ele considera ainda que as próprias altas da Bolsa brasileira levam parte dos fundos internacionais a tirarem recursos daqui. "Em um fundo com determinada porcentagem de risco, quando o ativo brasileiro se valoriza muito, o gestor tem de realocar os recursos para respeitar os padrões pré-estabelecidos", diz.

Para o professor, o investidor que segue apostando no Ibovespa ainda se submete ao que chama de "incerteza radical". "Tivemos melhoras na condução do governo, mas a presidência ainda faz declarações complicadas. Se amanhã ou depois um twitte mexe com os ânimos do mercado, ou a reforma é aprovada com um tamanho inferior ao que se espera, esse investidor pode se frustar", argumenta.

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Estadão
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