Empresa de pipoca vira alvo de ataques após pedir que cachorro mude nome no Instagram; entenda
Dono da marca Dr. Pipoca diz que a revolta dos usuários escalonou a ponto de afetar a operação da empresa
No último domingo, 29, o empresário Rodrigo Polati, dono da marca de pipocas gourmet Dr. Pipoca, foi surpreendido pelas notificações que não paravam de chegar do perfil da empresa no Instagram. Infelizmente, não se tratava de clientes interessados no produto, mas usuários revoltados com uma mensagem enviada pelo perfil da marca à página de um cachorro maltês.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
“Nós escutamos tudo o que você possa imaginar. Que nós somos uma empresa matadora de animais, que nós somos uma empresa que onde já se viu a gente matar o Dr. Pipoca. E começaram coisas absurdas, nos mandaram mensagens com xingamentos”, contou Rodrigo.
O caso ganhou repercussão por causa de uma postagem no X. Uma usuária publicou que recebeu uma mensagem no perfil de seu cachorro, também chamado Dr. Pipoca, pedindo para que mudasse o nome do perfil na rede social por se tratar de uma marca registrada.
“Meu cachorro está sendo alvo de uso inapropriado de marca…. ele é apenas um maltês com doutorado”, brincou a jovem. A publicação logo viralizou e, na quarta-feira, 1º, passava de 2,6 milhões de visualizações. Muitos usuários revoltados com o pedido foram até o perfil da marca de pipoca gourmet demonstrar sua indignação.
De acordo com Rodrigo, porém, a revolta escalonou a ponto de afetar a operação da empresa, que é familiar e conta com mais quatro funcionários além do empresário e a esposa.
“Hoje nós investimos muito em tráfego pago no Meta, e os clientes, para ter realmente certeza se eles estão comprando um produto de uma empresa de confiança ou não, eles entram no nosso perfil para ver os comentários das pessoas e ver se realmente podem comprar tranquilamente. E nós tivemos que fechar os comentários. Então, você imagina o impacto que isso nos trouxe. E aí, não o bastante, começaram a avaliar com uma estrela somente no Google. Cara, é a nossa reputação”, desabafou.
Após a repercussão, Rodrigo entrou em contato com a dona do perfil do cachorro, que sugeriu fazerem uma publicação em conjunto para tentar diminuir os ataques. Ainda assim, o empresário disse que não foi suficiente. A ideia acabou, na verdade, atraindo mais pessoas à página da marca de pipoca e gerando mais comentários negativos.
Direito de marca
Rodrigo Polati explicou que ouvia de alguns clientes que tinham dificuldade de encontrar o perfil da pipoca gourmet no Instagram, porque ao procurar por “Dr. Pipoca” o perfil do cachorro estaria aparecendo. Por isso, pensaram em mandar uma mensagem para o perfil e pedir a troca do nome. “Não foi nada de impositivo, nada de ameaçador ou absurdo”, justificou Rodrigo.
A mensagem teria sido enviada pelo perfil da empresa 15 dias antes da tutora do cachorro vê-la, o que tornou o susto com a repercussão ainda maior. “Ninguém cobrou nada nesse tempo porque foi um simples pedido”, disse o empresário.
O Terra consultou dois advogados para entender melhor sobre o direito de marca. Luiz Fernando Plastino, especialista em Propriedade Intelectual, Privacidade e Proteção de Dados e Direito de Informática, explicou que o registro garante a exclusividade de uso da marca para identificarmos uma empresa, bens ou serviços que ela oferece em determinado ramo de mercado.
“Exceto em alguns casos de proteção especial, o registro da marca serve para impedir que ela seja usada pelas empresas que oferecem produtos e serviços similares ou relacionados àqueles indicados no registro – se não, seria algo contrário à liberdade de expressão, quase como se algumas palavras fossem retiradas do vocabulário”, afirmou.
Ou seja, o uso por si só de um nome que se refere a uma marca não é uma violação. Plastino detalhou que é preciso ter “possibilidade de confundir os consumidores da empresa que registrou a marca para o uso dela ser proibido”. Assim, em situações de conflito, cada caso precisaria ser analisado individualmente.
O advogado Marco Tulio Castro, especialista em Direito Digital, Propriedade Intelectual e Empreendedorismo, também deu como exemplo os casos do jornal O Globo e o biscoito Globo. “São produtos diferentes, não causam confusão aos consumidores.”
Já com relação aos ataques que a marca Dr. Pipoca recebeu, podem, sim, ser levados à Justiça. “Os comentários ofensivos podem gerar obrigação de indenizar, caso seja considerado que eles afetam negativamente a reputação ou a credibilidade da empresa”, explicou Castro.
Fernando Plastino acrescentou que brincadeiras óbvias e inofensivas podem até ser toleradas, por serem típicas das redes sociais. Mas, caso haja excessos, o usuário “pode ser alvo de um processo por perdas e danos, chegando na possibilidade de um processo criminal nos casos mais graves”.