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‘Viajar é trocar a roupa da alma’: como agências exclusivas para mulheres criam redes de apoio pelo mundo

Grupos impulsionam desejo de conhecer novos destinos e superar inseguranças

8 nov 2026 - 05h00
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Sueldes Pimental viaja em grupos femininos
Sueldes Pimental viaja em grupos femininos
Foto: Arquivo Pessoal

“Como já dizia nosso poeta brasileiro Mário Quintana: ‘Viajar é trocar a roupa da alma!’ e quero continuar trocando e compartilhando essa roupa com todas as mulheres viajantes”, diz Sueldes Pimental, quando pergunto a melhor parte de viajar com uma agência só para mulheres. A consultora ambiental, de 60 anos, já escolheu agências especializadas para sete viagens, entre nacionais e internacionais. “Sempre gostei de viajar, sozinha, com meu marido, mas, acho que viajar com mulheres, de diferentes idades, ideias e formas de pensar, deixa a experiência mais gratificante e única.”

As mulheres estão cada vez mais viajando sozinhas, o índice cresceu mais de 60% nos últimos três anos, aponta levantamento da Riskline. Entre as que nunca viajaram sozinhas, 59% têm esse desejo no radar para os próximos dois anos, segundo o Ministério do Turismo. 

Eliana Maria Palavro Schiavenin, de 67 anos, é psicóloga aposentada. Com a Mulheres Pelo Mundo já visitou Suíça, Itália e Japão. Uma amiga viajou com uma agência especializada e ela se encantou pela proposta: “Tinha destinos que eu queria conhecer, mas meu marido não, por isso entrei nessa. O que mais gosto nesse tipo de viagem é a convivência entre mulheres. A gente acaba se identificando, compartilhando interesses, conversando sobre os passeios, sobre a vida, dando risadas e, claro, aproveitando também para fazer umas comprinhas! [risos]”, comenta ela. 

Por mais que já tenha viajado em agências tradicionais, Eliana prefere as voltadas para o público feminino “É uma forma leve, divertida e muito especial de viajar! O que mais gosto é todo o cuidado e a atenção que a gente recebe, desde antes da viagem”, diz.

Conexões que ultrapassam fronteiras

Com 15 anos de história, a Mulheres Pelo Mundo já realizou 150 viagens e preveem 42 para o ano que vem, juntas Raquel Cirino e Fernanda D’Erasmo estão à frente da companhia. Além das viagens, elas organizam eventos, como peças de teatro, ateliê de pintura e clube do livro. “As histórias das viajantes são muito diferentes, mas existe algo que se repete: muitas mulheres adiam seus sonhos porque não têm companhia, porque a família não pode ir, porque os filhos cresceram, porque perderam um companheiro ou porque passaram tanto tempo cuidando dos outros que acabaram deixando os próprios desejos para depois. E existe aquela mulher que simplesmente quer viver uma aventura, conhecer o mundo e fazer novas amizades, aqui elas se encontram”, explica Raquel. 

Amarílis Reis Perini
Amarílis Reis Perini
Foto: Arquivo Pessoal

Amarílis Reis Perini, diretora de Marketing de 46 anos, escolheu a GirlsTrip para viagens curtas, bate-voltas ou para feriado, mas, neste ano, também vai passar o Ano Novo com o pé na estrada em grupo, fazendo o Circuito do Vale do Pati, na Chapada Diamantina. Ela já conheceu 51 países e, em uma agência especializada, o acolhimento é o diferencial. 

Viajar com mais confiança

A engenheira Juliana Sanchez Morine, de 38 anos, viaja sozinha há quase 20 anos, mas o medo a impediu de realizar alguns roteiros, como o Egito e a Índia. 61% das mulheres já viveram situações de insegurança em alguma viagem, levanta o Ministério do Turismo. De acordo com a Riskline, o número de mulheres que relatam ansiedade em relação a viajar subiu de 64% para 70% em um ano, sendo os medos mais comuns assédio sexual e agressão, assédio no transporte público e em espaços públicos e intimidação.

Em 2012, as irmãs, Larissa e Dandara Degon criaram a Woman Trip, uma comunidade para mulheres viajantes. A proposta era simples, mas pioneira: conectar mulheres por meio do turismo e da solidariedade. “A gente pensou: não é possível que não tenham outras mulheres querendo viajar sozinhas e que também não têm companhia ou coragem”, relembra Larissa. O caminho, porém, não foi fácil. No início, as sócias enfrentaram dificuldades para conquistar parcerias, preconceito e falta de adesão, o que chegou a desanimá-las. 

A virada veio durante uma viagem a Paraty, quando conheceram uma mulher que participava de uma comunidade feminina de viajantes — sem saber que, anos antes, as duas já haviam criado uma iniciativa com a mesma proposta. Ao acessarem o site, encontraram mais de 2 mil mulheres cadastradas. A descoberta reacendeu o projeto, que ganhou força com encontros e viagens em grupo, começando por roteiros próximos de Minas Gerais e, depois, expandindo para destinos internacionais. Desde então, a empresa cresceu, estruturou uma equipe com cerca de 20 pessoas e consolidou destinos como Jalapão e Peru entre seus principais roteiros. “A segurança, infelizmente, ainda é um ponto que sempre vai passar pela nossa cabeça, pelas nossas decisões na hora de viajar sozinha”, destaca Larissa, ao explicar uma das principais motivações das clientes. 

Hoje, a Woman Trip reúne uma comunidade que já ultrapassou 5 mil viajantes contabilizadas, embora parte dos registros antigos tenha sido perdida, e planeja realizar 90 viagens em 2026, com a meta de crescer 35% em 2027. A empresa também investiu no desenvolvimento de um sistema próprio de gestão e prepara o lançamento de um aplicativo. E, para Larissa, o crescimento do próprio mercado é motivo de celebração, não de disputa: “Eu não vejo outras empresas do mesmo nicho como concorrentes; pelo contrário, é sinal de que o mercado está crescendo, e isso é bom para todo mundo.”

“Ponte de empatia para o mundo”, é assim que Gilsimara Caresia define o trabalho da GirlsGo. Em 10 anos, a agência já levou 3500 mulheres para mais de 200 viagens. Jornalista de formação, Gil — como prefere ser chamada — trabalhou por 17 anos no mercado financeiro, até que, em 2015, largou o emprego para conhecer o mundo. 

Foram dois anos de mochilão e mais de 40 carimbos no passaporte. Durante as viagens, Gil criou a comunidade no Facebook “Mulheres que Viajam e Mochileiras” para compartilhar suas histórias, e conquistou 190 mil inscritas. Esse foi o embrião da GirlsGo ao perceber que muitas mulheres queriam viajar mais, mas barreiras, do medo a falta de companhia, as impediam. “De tanto passar perrengue, criei roteiros as protegendo deles [risos]”. 

“A vulnerabilidade de uma mulher sozinha é muito maior, mas estar em um grupo pode evitar isso”. Entre os próximos roteiros, Gil está planejando viagens para Marrocos, Egito, Machu Picchu, Atacama, Chapada dos Veadeiros, Turquia, Jericoacoara e Alter do Chão. “Lugares que são o sonho de muita gente, mas a logística até lá é complicada”, diz. 

Atualmente, Gil soma mais de 100 países viajados, e a Índia é um dos seus favoritos, tanto para agência quanto sozinha: “Morei 8 meses durante meu mochilão, lugar que me transformou, mas gera ansiedade para viajantes, principalmente mulheres”. 

“Desbravar o mundo juntas”

Thatiana Araújo e Gabriela Antunes são sócias na GirlsTrip, agência fundada em 2020, focada em ecoturismo: “Trabalhar com essas viagens me sustenta e me nutre de várias formas”, comenta Thatiana. Gabriela já era do turismo, com uma agência de viagens mista, quando decidiu focalizar no público feminino, buscou uma professora de yoga para complementar a experiência, assim que a dupla começou a empreender.

“Juntamos nossas expertises: a Gabi com o mercado de turismo, eu com o autoconhecimento e o sagrado feminino”. Entre os destinos estão Paraty, São Thomé das Letras e Chapada Diamantina, para mulheres que buscam se conectar com a natureza, elas mesmas e com outras. “A gente vem de uma sociedade que estimula a competição entre mulheres, é preciso criar espaços positivos, trabalhar o empoderamento”, diz. 

“Quem viaja com gente chega alinhada com o propósito de buscar conexão com a natureza, fazemos prática de yoga no local e uma roda de conversa, para conhecer melhor a história de cada uma, percebemos que as pessoas passam por situações parecidas”, diz Thati.

Para a professora Michele da Silva Oliveira, de 43 anos, viajando com uma agência comum, você conhece lugares novos, com uma especializada em mulheres, você também conhece a si mesma. “Desbravamos o mundo juntas, é uma alquimia muito bonita”. 

Fonte: Portal Terra
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