Veja a íntegra do discurso de 1987 de Ronald Reagan, que China usou para criticar tarifas de Trump
Presidente dos EUA anunciou pausa de 90 dias para tarifas recíprocas, mas elevou para 125% taxação sobre a China; assista ao vídeo do discurso em que Ronald Reagan critica a imposição de tarifas como medida protecionista
Ronald Reagan vs. #tariffs : 1987 speech finds new relevance in 2025pic.twitter.com/CuAMw1eQXN
— Chinese Embassy in US (@ChineseEmbinUS) April 7, 2025
O perfil oficial da embaixada da China nos Estados Unidos publicou nesta semana, em seu perfil no X (antigo Twitter), um vídeo com um trecho de um discurso de rádio do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, em uma clara alfinetada ao tarifaço anunciado pelo presidente Donald Trump. No vídeo, Reagan critica a imposição de tarifas como medida protecionista. O discurso é de 1987, quando Reagan ainda estava no cargo - ele comandou a Casa Branca de 1981 a 1989.
A publicação ocorre em meio ao conflito comercial entre os dois países. Nesta quarta-feira, 9, Trump anunciou trégua de 90 dias nas tarifas para países que não retaliariam suas decisões, mas elevou para 125% a taxação sobre a China - anteriormente, os impostos de importação sobre produtos chineses seriam de 104%. Na manhã desta quarta, o país asiático havia anunciado uma retaliação aos EUA elevando suas tarifas sobre produtos americanos para 84%.
O trecho do vídeo publicado pela embaixada na última segunda-feira, 7, tem um minuto e 28 segundos de duração. O perfil da embaixada escreveu na publicação: "Ronald Reagan vs. tarifas: discurso de 1987 ganha nova relevância em 2025? (veja acima, em inglês).
A postagem com o vídeo de Reagan não foi a única cutucada da embaixada chinesa contra as tarifas de Trump. Outra publicação (veja abaixo) faz uma comparação com a Grande Depressão, grave recessão econômica que começou nos Estados Unidos e se espalhou pelo resto do mundo, persistindo ao longo da década de 1930, e cita a Lei Smoot-Hawley, que elevou as tarifas de milhares de itens na época, com o objetivo foi fortalecer a produção interna - segundo historiadores, no entanto, a lei ajudou a aprofundar a crise econômica.
1930 vs. 2025 #Tariff https://t.co/52jK5YebRh
— Chinese Embassy in US (@ChineseEmbinUS) April 9, 2025
O que dizia o discurso de Reagan
Segundo os arquivos da Biblioteca e Museu Presidencial Ronald Reagan, o discurso de rádio foi feito em 25 de abril de 1987 e foi dirigido a todo os EUA. Ele foi feito quando o então presidente comentava o fato de que o então primeiro-ministro do Japão, Yasuhiro Nakasone, o visitaria na Casa Branca na semana seguinte - e questões comerciais envolvendo a adoção de tarifas.
"É uma visita importante, pois, embora eu espere abordar nossas relações com o nosso bom amigo Japão, que, no geral, continuam excelentes, os recentes desentendimentos entre nossos dois países sobre a questão comercial também estarão no topo da nossa agenda", disse Reagan à época.
Reagan apontou que, apesar da relação positiva entre os dois países, eles tinham divergências comerciais, especialmente sobre tarifas impostas a produtos japoneses como semicondutores, o que, segundo ele, demandava atenção.
Ele se mostrou relutante em adotar barreiras comerciais, mas justificou a medida como resposta às práticas desleais japonesas, enfatizando a necessidade de um comércio equitativo e o respeito aos acordos bilaterais.
"Como vocês talvez já tenham ouvido, na semana passada, impus novas tarifas sobre alguns produtos japoneses em resposta à incapacidade do Japão de fazer cumprir seu acordo comercial conosco sobre dispositivos eletrônicos chamados semicondutores. Agora, impor tais tarifas ou barreiras comerciais e restrições de qualquer tipo são medidas que detesto tomar", disse.
Ele assegurou que o objetivo não era escalar tensões, mas resolver questões específicas, mantendo a cooperação e promovendo o livre comércio como meio de prosperidade global. "Mas, como você sabe, ao impor essas tarifas, estávamos apenas tentando lidar com um problema específico, não iniciar uma guerra comercial", disse.
O presidente criticou o protecionismo, citando a Grande Depressão e a Lei Smoot-Hawley como exemplos dos seus perigos. Argumentou que medidas protecionistas, embora possam parecer benéficas a curto prazo, prejudicam a competitividade e a inovação a longo prazo, podendo levar a guerras comerciais e perda de empregos.
"Tarifas altas inevitavelmente levam à retaliação por parte de países estrangeiros e ao desencadeamento de guerras comerciais ferozes. O resultado é cada vez mais tarifas, barreiras comerciais cada vez maiores e cada vez menos concorrência. Então, logo, por causa dos preços artificialmente altos por tarifas que subsidiam a ineficiência e a má gestão, as pessoas param de comprar. Então, o pior acontece: mercados encolhem e entram em colapso; empresas e indústrias fecham; e milhões de pessoas perdem seus empregos", afirmou.
Reagan ainda reafirmou seu compromisso com o livre comércio e o crescimento econômico sustentável, destacando a importância de proteger empregos americanos ligados ao comércio exterior. "Em certos casos selecionados, como o dos semicondutores japoneses, tomamos medidas para impedir práticas desleais contra produtos americanos, mas ainda mantivemos nosso compromisso básico e de longo prazo com o livre comércio e o crescimento econômico".
A íntegra do discurso de Reagan (em inglês) pode ser acessada neste link. Leia o texto completo, em português, abaixo.
"Meus compatriotas americanos:
O Primeiro-Ministro Nakasone do Japão me visitará aqui na Casa Branca na próxima semana. É uma visita importante, pois, embora eu espere abordar nossas relações com o nosso bom amigo Japão, que, no geral, continuam excelentes, os recentes desentendimentos entre nossos dois países sobre a questão comercial também estarão no topo da nossa agenda.
Como vocês talvez já tenham ouvido, na semana passada, impus novas tarifas sobre alguns produtos japoneses em resposta à incapacidade do Japão de fazer cumprir seu acordo comercial conosco sobre dispositivos eletrônicos chamados semicondutores. Agora, impor tais tarifas ou barreiras comerciais e restrições de qualquer tipo são medidas que detesto tomar. E em breve mencionarei as sólidas razões econômicas para isso: que, a longo prazo, tais barreiras comerciais prejudicam todos os trabalhadores e consumidores americanos. Mas os semicondutores japoneses eram um caso especial. Tínhamos evidências claras de que empresas japonesas estavam se envolvendo em práticas comerciais desleais que violavam um acordo entre o Japão e os Estados Unidos. Esperamos que nossos parceiros comerciais cumpram seus acordos. Como sempre digo: nosso compromisso com o livre comércio também é um compromisso com o comércio justo.
Mas, como você sabe, ao impor essas tarifas, estávamos apenas tentando lidar com um problema específico, não iniciar uma guerra comercial. Então, na próxima semana, darei a mesma mensagem ao Primeiro-Ministro Nakasone: Queremos continuar a trabalhar cooperativamente em questões comerciais e queremos muito suspender essas restrições comerciais assim que as evidências permitirem. Queremos fazer isso porque acreditamos que tanto o Japão quanto os Estados Unidos têm a obrigação de promover a prosperidade e o desenvolvimento econômico que somente o livre comércio pode proporcionar.
Essa mensagem de livre comércio foi transmitida por mim aos líderes canadenses há algumas semanas, e foi calorosamente recebida por lá. De fato, em todo o mundo, há uma crescente percepção de que o caminho para a prosperidade de todas as nações é rejeitar a legislação protecionista e promover a concorrência justa e livre. Existem sólidas razões históricas para isso. Para aqueles de nós que viveram a Grande Depressão, a lembrança do sofrimento que ela causou é profunda e pungente. E hoje, muitos analistas econômicos e historiadores argumentam que a legislação de tarifas elevadas aprovada naquele período, chamada tarifa Smoot-Hawley, agravou significativamente a depressão e impediu a recuperação econômica.
Veja bem, a princípio, quando alguém diz: ``Vamos impor tarifas sobre as importações estrangeiras'', parece que estão fazendo algo patriótico ao proteger produtos e empregos americanos. E às vezes funciona por um curto período — mas apenas por um curto período. O que eventualmente ocorre é: primeiro, as indústrias nacionais começam a depender da proteção governamental na forma de tarifas altas. Elas param de competir e param de fazer as mudanças tecnológicas e de gestão inovadoras de que precisam para ter sucesso nos mercados mundiais. E então, enquanto tudo isso acontece, algo ainda pior acontece. Tarifas altas inevitavelmente levam à retaliação por parte de países estrangeiros e ao desencadeamento de guerras comerciais ferozes. O resultado é cada vez mais tarifas, barreiras comerciais cada vez maiores e cada vez menos concorrência. Então, logo, por causa dos preços artificialmente altos por tarifas que subsidiam a ineficiência e a má gestão, as pessoas param de comprar. Então, o pior acontece: mercados encolhem e entram em colapso; empresas e indústrias fecham; e milhões de pessoas perdem seus empregos.
A lembrança de tudo isso acontecendo nos anos 30 me fez decidir, quando cheguei a Washington, a poupar o povo americano da legislação protecionista que destrói a prosperidade. Mas nem sempre foi fácil. Há aqueles neste Congresso, assim como havia nos anos 30, que querem obter vantagens políticas rápidas, que arriscam a prosperidade dos Estados Unidos em nome de um apelo de curto prazo a algum grupo de interesse especial, que se esquecem de que mais de 5 milhões de empregos americanos estão diretamente ligados à exportação e outros milhões estão ligados às importações. Bem, eu nunca me esqueci desses empregos. E em questões comerciais, de modo geral, nos saímos bem. Em certos casos selecionados, como o dos semicondutores japoneses, tomamos medidas para impedir práticas desleais contra produtos americanos, mas ainda mantivemos nosso compromisso básico e de longo prazo com o livre comércio e o crescimento econômico.
Portanto, com a minha reunião com o Primeiro-Ministro Nakasone e a Cúpula Econômica de Veneza se aproximando, é extremamente importante não restringir as opções de um presidente em tais negociações comerciais com governos estrangeiros. Infelizmente, alguns no Congresso estão tentando fazer exatamente isso. Manterei vocês informados sobre essa legislação perigosa, porque é apenas mais uma forma de protecionismo e posso precisar da sua ajuda para impedi-la. Lembrem-se: os empregos e o crescimento dos Estados Unidos estão em jogo.
Até a semana que vem, obrigado por ouvir e que Deus te abençoe."