vc repórter: apartamento é alagado pelo esgoto de vizinhos em SP
Moradora de um condomínio inaugurado há cerca de dois anos em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, a designer Renata Abrahams e sua família tiveram que lidar, nos últimos meses,com o medo de ter sua casa invadida pela água de esgoto de outros apartamentos.
O temor tem explicação: o apartamento em que residem, no segundo pavimento de uma torre com 19 andares, foi tomado por duas vezes pela água do esgoto que subiu pelo vaso sanitário e ralos do banheiro. O problema teria sido causado em razão do "mau uso" de outros condôminos: na primeira ocasião entulho de obra e um registro de construção foram encontrados no encanamento; na segunda ocorrência o que se achou na estrutura foram papel higiênico, cerca de 1 quilo de feijão cru e uma pedra.
Na primeira vez em que ocorreu o problema, em dezembro de 2012, Renata acionou a construtora responsável pelo empreendimento ao se dar conta de que a água de esgoto havia inundado o apartamento.
Ao Terra, a empresa afirmou que a parte hidráulica do empreendimento tinha garantia de um ano a partir da emissão do Habite-se, concedido emmaio de 2011. Apesar disso, "a empresa deslocou um funcionário para o local para realizar inspeção, e contratou uma empresa para realizar a desobstrução completa das tubulações(...). Além dos reparos, a empresa também realizou manutenção no apartamento afetado, incluindo a desinfecção completa do imóvel. Neste período, instalou a família em um apartamento mobiliado e custeou todas as despesas".
No mês passado, o episódio se repetiu. A água com resíduos de fezes subiu pelos ralos do banheiro, e se espalhou pelo apartamento, alagando os três quartos, o banheiro e a sala. Novamente, a moradora acionou a administração do prédio e a construtora, e ficou constatadaa existência de uma pedra de concreto, papel higiênico e grande quantidade degrãos de feijão in natura.
Desta vez, a Tecnisa enviou um técnico, mas se negou a se responsabilizar pelos danos ocorridos na unidade. "Nas duas ocasiões ficou constatado que os entupimentos foram provocados por mau uso. Cerca de 1 quilode grãos de feijão crus, resíduos de argamassa despejados de algum andar acima, pedra e papel higiênico foram encontrados na instalação dedicada exclusivamente ao esgoto dos banheiros", argumenta a empresa.
A resposta da construtora não convenceu a moradora."Oque estou discutindoé que não pode ser normal o apartamento encher de esgoto quando alguém de outro andar faz mau uso. Não é possível que a cada sete meses eu tenha que brigar com todo mundo. Isso não é natural", queixa-se.
"Depois o síndico me mandou um e-mail afirmando que trariam uma empresapara fazer a manutenção. Mas eles afirmam que se alguém fizeruso indevido novamente, o problema vai se repetir. Por telefone, uma engenheira da Tecnisa me disse aindaque para resolverde vezo meu problema, teriamquemudar o projeto, e que isso não seria feitopois iria se criar um problema para o morador do andar de cima", relata.
"Minha família está sujeita a uma infecção porque o apartamento não foi esterilizado como deveria, e além disso tem a preocupação com o apodrecimento dos móveis, pois o apartamento ficou submerso, e é praticamente impossível fazer a limpeza e secagem das estruturas embutidas", diz.
Para Renata, o clima é de insegurança. "O apartamento deveria ser um lar onde encontramos sossego", lamenta. A família busca agora que a administração do condomínio e da construtora encontrem uma solução definitiva para o problema. "Estamos extremamente inseguros, sem saber se vamos chegar em casa e encontrá-la alagada com esgoto, imaginando se, porum momento de distração, vamos nos deparar com um de nossos filhos em meio àágua contaminada", diz.
O engenheiro civil Jefferson Nascimento de Oliveira, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que situações como a vividas pela moradora podem acontecer quando se tem vários dutos ligados à rede de esgoto, como é o caso de uma torre de apartamentos. "Quando as pessoas fazem mau uso e jogam resíduos indevidos, esse material vai para o duto central, podendo diminuir a vazão e até bloquear o duto central. Nessa hora pode acontecer o refluxo", diz o engenheiro.
De acordo com ele, no entanto, é impossível fazer uma análise do caso sem visualizaro projeto do prédio em questão. "É precisoavaliar se a tubulação de queda é bem dimensionada, de modo que suporte o volume do esgoto despejado, e verificar se o tubo tem queda livre. Quando há angulação de 90 graus, por exemplo, cria-se um ponto de estrangulamento que pode dificultar o fluxo. Haveria que se avaliar também se houve erro no projeto ou na sua execução. De qualquer forma, é preciso ressaltar que não há como dar nenhum parecer sem ter acesso ao projeto", diz.
Apesar da solicitação do Terra, a Tecnisa se negou a oferecer o projeto do prédio, e não respondeu se pretende oferecer uma solução definitiva ao problema da moradora. Questionada se o problema teria ocorrido em decorrência de uma falha do projeto, a empresa também preferiu não se pronunciar.
"Há que se orientar os usuários a não despejar resíduos como os encontrados e eventuais restos de reformas. Estamos à disposição caso o condomínio queira fazer uma inspeção conjunta nas instalações que desobstruímos para que não reste dúvida com relação às adequadas condições das instalações executadas pela empresa. A Tecnisa ressalta que em 35 anos de mercado tornou-se referência em métodos construtivos eficientes, inovação e sustentabilidade. A empresa possui mais de 5 milhões de metros quadradoslançados em 26 cidades no País, e esse tipo de problema não é recorrente", afirmou a construtora em nota.
A internauta Renata Abrahams, de Guarulhos (SP), participou do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra. Se você também quiser mandar fotos, textos ou vídeos, clique aqui.