Trump usa tarifas como arma política e cobra do Brasil o preço por não se alinhar internacionalmente
Medidas comerciais do presidente americano têm sido cada vez mais utilizadas como arma política para além de qualquer objetivo econômico ou comercial
A política externa brasileira se encontra em momento crucial, em face às transformações da ordem mundial em curso. As medidas comerciais de Trump têm sido cada vez mais utilizadas como arma política para além de qualquer objetivo econômico ou comercial imediato.
Nesse sentido, devem ser entendidos como parte do acervo de medidas destinadas a promover unilateralmente o desmanche de uma ordem internacional contra a qual seu próprio criador, nesse momento, se insurge.
Para o Brasil, as medidas tarifárias adotadas pelo governo Trump são o mais evidente símbolo dos limites do não-alinhamento, traço fundamental e histórico de sua política exterior. Ao determinar tarifas punitivas ao país, Trump pretende exatamente limitar o espaço de não-alinhamento brasileiro no plano internacional.
De fato, Trump vincula tarifas ao posicionamento dos países em relação ao seu governo (não necessariamente aos Estados Unidos). Em cartas a vários líderes estrangeiros, divulgadas em suas redes sociais, o presidente alertou que as tarifas "podem ser modificadas, para cima ou para baixo, dependendo de nosso relacionamento".
Em outras palavras, as penalidades comerciais estão sendo explicitamente usadas como incentivos e punições adotadas em razão do posicionamento dos Estados no tabuleiro geopolítico. Da Europa à Ásia, os governos agora enfrentam uma Casa Branca imprevisível, pronta para aumentar tarifas de importação em razão de disputas de natureza diversa.
Essa abordagem envia uma mensagem clara de que a aproximação a outros polos de poder, ainda que na forma de múltiplos alinhamentos, pode produzir custos tangíveis na forma de perda de acesso às exportações para o mercado americano.
A estratégia tarifária da administração Trump pretende, em última instância, forçar os países ao alinhamento com Washington. Na prática, os Estados Unidos rompem com um sistema multilateral de comércio do qual foi idealizador e principal apoiador. Em seu lugar, Trump propõe adaptar a política comercial dos EUA com cada parceiro, buscando extrair lealdade e, supostamente, contribuir para financiar o enorme déficit fiscal dos EUA. Amigos recebem clemência; os demais são duramente atingidos.
No caso brasileiro, a relação comercial com os Estados Unidos tem fortes laços históricos, e o país teve nos EUA o seu principal parceiro comercial, especialmente desde o período que se iniciou após a Segunda Guerra Mundial.
Foi já no século XXI, mais precisamente em 2009, que a China passou a ser o maior parceiro comercial brasileiro, posição que ocupa até os dias atuais. Embora o Brasil corresponda a aproximadamente 1,5% do comércio de bens dos EUA, este é o segundo maior parceiro comercial brasileiro e tem especial importância na exportação de bens industriais do país.
Causou estranheza à citação a um suposto déficit comercial, para os EUA, nas suas relações com o Brasil. Com efeito, o déficit em questão é incorrido pelo Brasil, há mais de uma década.
Historicamente, a política externa brasileira é elemento de baixa densidade nas eleições presidenciais, mas a carta de Trump identificando uma questão política como fundamento para a aplicação de tarifas e a imediata resposta dos polos políticos nacionais assegura que isso deverá ser coisa do passado. Trump e a relação Brasil-EUA, e como consequência, a posição do Brasil no mundo serão tema inescapável na agenda eleitoral de 2026.
A imprevisibilidade, até o momento, é uma marca registrada do governo Trump, e foram tantas as mudanças tarifárias nos últimos meses que é preciso condicionar a análise, mas a persistirem as tarifas tais quais anunciadas na quarta-feira, haverá impacto negativo na economia brasileira e em especial no Estado de São Paulo, de onde pode sair o candidato da oposição à Lula.
Por sua vez, os candidatos à Presidência precisarão fazer cálculos complexos sobre como se posicionarem perante o tema, pois se Trump faz agora um aceno ao ex-presidente Jair Bolsonaro, é forçoso lembrar que o seu apoio não colaborou com a eleição de aliados na França e mais recentemente no Canadá.
A primeira resposta do presidente Lula indica que o país deve defender a ideia de que a sua soberania foi violada e de que uma resposta recíproca é o único caminho possível. Esta última escolha também traz em si alguns desafios para o governo atual, pois pode trazer consigo maior impacto econômico.
Ao mencionar explicitamente o maior opositor do governo atual e o processo jurídico ao qual responde, Trump deixa pouco espaço para soluções negociadas por parte do governo brasileiro.
Embora possível, uma reclamação à Organização Mundial do Comércio (OMC) neste momento servirá tão somente para marcar posição, tendo resultados práticos inócuos em face de um governo que já demonstrou não estar minimamente preocupado com a organização.
As demais opções à disposição do governo brasileiro, em curto prazo, tampouco são muito alvissareiras. O acordo Mercosul — União Europeia continua a se arrastar sem um fim à vista e por consequência da carta de Trump, objetivamente o Brasil fica em posição negocial mais prejudicada perante os europeus. Ainda que haja a conclusão bem-sucedida do acordo, seus efeitos tomarão tempo para serem produzidos.
Outra opção para o país seria aprofundar ainda mais sua relação com a China, hoje já responsável por aproximadamente um quarto do comércio internacional brasileiro. Esta opção também traz dificuldades, pois aumentaria o grau de exposição e dependência ao país asiático e faz-se necessária a ressalva de que a pauta comercial, especialmente exportadora, do Brasil com a China é muito diferente daquela encontrada com os Estados Unidos.
A reconstrução do multilateralismo mostra-se absolutamente necessária em função da ascensão do unilateralismo nas mais variadas searas, da segurança ao comércio.
Todavia, a honestidade intelectual não nos permite demasiado otimismo. Neste contexto e dinâmica, podemos estar diante de um momento crucial que pode condicionar as ações futuras do Brasil no plano internacional por anos a fio. Ao que parece, testaremos os limites e consequências do não-alinhamento.
*É professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio de Janeiro
** É professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio de Janeiro e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército