Temos de levar a energia nuclear a sério, pois no futuro precisaremos para a soberania, diz Silveira
Brasil 'não pode prescindir da energia nuclear na transição energética', especialmente via pequenos reatores nucleares, 'para sistemas isolados, data centers e indústria autointensiva', diz ministro
RIO - O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ressaltou nesta sexta-feira, 5, a importância da energia nuclear tanto para a transição energética quanto para a defesa do País.
"A legislação brasileira nos permite avançar na produção de energia limpa para transição energética e para medicina nuclear. Mas, se o mundo continuar da forma que está, um país que é gigante, tem solo fértil e tantas riquezas minerais, é importante que levemos muito a sério a questão nuclear. Porque no futuro vamos precisar da energia nuclear para a defesa nacional", apontou.
O ministro deu essas declarações ao participar da posse dos diretores da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), Alessandro Facure, Lorena Pozzo e Ailton Fernando Dias.
Silveira seguiu dizendo que hoje o Brasil tem "um líder (o presidente Luiz Inácio Lula da Silva) que dialoga com o mundo e defende a soberania, mas no futuro, vamos precisar, se o mundo continuar assim — o que eu espero que não —, de outros instrumentos", complementou.
Em sua fala, Silveira argumentou que o Brasil não pode "prescindir da energia nuclear na transição energética brasileira, especialmente através dos pequenos reatores nucleares, ideais para sistemas isolados, data centers e indústria autointensiva".
Por essas razões, disse o ministro, a criação da ANSN é importante e atende a um pleito antigo. "A ANSN é uma instituição nascente. (...) Instalar essa autoridade representa nossa responsabilidade com o fortalecimento da cadeia nuclear brasileira, já que temos uma das maiores reservas de urânio", afirmou.
'Teremos que rever uso pacífico'
Silveira avalia que o Congresso Nacional, no longo prazo, terá de rever o uso pacífico da energia nuclear do País para defender a soberania, que, segundo ele, sofreu agora ataques muito fortes. Hoje, porém, o ministro defende que o País utilize a fonte apenas para avançar na geração de energia limpa (À noite, o Ministério de Minas e Energia divulgou uma nota de esclarecimento sobre as declarações — leia mais abaixo).
"Tenho absoluta certeza que os homens públicos no País, em especial o Congresso Nacional, vão ter que rever a posição, repito, a longo prazo, para que mantenha um País soberano", disse Silveira após a posse de diretores da ANSN e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
"É óbvio que com o que o mundo está vivendo, e nós detendo a cadeia nuclear como um todo, e a Constituição só nos permite hoje utilizar a nossa cadeia nuclear para fins pacíficos, temos que avançar na produção de energia limpa e renovável nos pequenos reatores nucleares, para a gente diminuir o preço, não utilizando transmissão, levando para a indústria auto intensiva, através dos small reactors (SMRs) para as áreas mais longínquas do Brasil, principalmente os sistemas isolados da Amazônia", avaliou.
Segundo Silveira, na próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), prevista para segunda quinzena de setembro, será avaliada a finalização da terceira usina nuclear do Brasil, Angra 3, cujo voto do ministro é favorável ao fim da obra.
"Eu não tenho dúvida nenhuma que, no futuro, ter reserva (de urânio) é uma coisa positiva. Ter tecnologia nuclear avançada é positivo, por isso que nós queremos uma Autoridade Nacional Nuclear, é fundamental para o futuro dos nossos filhos e netos", concluiu Silveira.
'O ministro reafirma o caráter pacifista'
O Ministério de Minas e Energia (MME) encaminhou uma nota de esclarecimento informando que o ministro Alexandre Silveira reafirma o caráter pacifista da atividade nuclear no Brasil, como determina a Constituição Federal e tratados internacionais. A pasta cita uma "especulação" após a fala do ministro.
"O ministro respondeu que, nos ataques especulativos geopolíticos atuais e tendo o país riquezas estratégicas como 11% da água doce do planeta, terra fértil e abundante, jazidas minerais relevantíssimas, [...] petróleo e detendo a cadeia nuclear completa, em um futuro, espera, longínquo, o povo e seus representantes num país democrático têm o legítimo direito de debater como preservar sua absoluta soberania", diz a nota.
O comunicado também menciona que o Brasil cumpre integralmente os compromissos internacionais que consolidam essa posição a posição pacifistas na atividade nuclear, entre eles, o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o Tratado de Tlatelolco e o Acordo Quadripartite com a República Argentina, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a Agência Brasil-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC).