Tarifaço de Trump mistura assuntos que não deveriam ser misturados, diz ex-embaixador
Sérgio Moreira Lima diz que decisão é sem precedentes e viola acordos internacionais
As tarifas de 50% anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a produtos brasileiros representam uma "agressão ao Brasil" e "misturam temas que não deveriam ser misturados", avalia o embaixador aposentado Sérgio Moreira Lima.
"Nunca vi na minha carreira diplomática uma comunicação dentro desse padrão. É sem precedência. É surpreendente o que está acontecendo", disse ao Estadão/Broadcast o diplomata, que já serviu em países como Israel, Estados Unidos, Portugal e Reino Unido.
Para ele, a justificativa de Trump de aumentar as tarifas é lamentável. Em carta, Trump criticou o Judiciário e o sistema eleitoral do Brasil, afirmando que há uma perseguição contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
"A carta começa com uma questão que não é da alçada do Executivo, mas do Judiciário. E depois, associa isso a uma questão tarifária. O que caracteriza a democracia é um sistema de freios e contrapesos. Misturar essas questões demonstra falta de compreensão sobre o nosso sistema", declarou.
Segundo Moreira Lima, a tarifa imposta pelos Estados Unidos representa uma violação das normas internacionais e vai na contramão da história de cooperação entre os dois países. "Em um momento como esse, em que enfrentamos questões existenciais, e com aproximação da COP30, era o momento para os Estados Unidos e o Brasil estarem trabalhando juntos, e não voltados a questões que os afastam das grandes causas que os dois países sempre defenderam", afirmou.
Moreira Lima também fez críticas à política externa americana nos últimos anos. Segundo ele, Trump se afastou completamente da Organização Mundial do Comércio (OMC). "Se estivéssemos num momento em que o sistema multilateral estivesse funcionando plenamente, o caminho seria um recurso à OMC. Mas o que vemos é uma arbitrariedade praticada pelo lado americano."
O embaixador argumenta ainda que as ações dos EUA representam interferência em assuntos internos do Brasil, violando princípios consagrados do direito internacional. "O que estamos vendo é uma interferência interna nas questões do Brasil, que não deveria estar acontecendo de acordo com o direito internacional. Isso já é uma agressão."