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Pix surpreende, evolui e pode virar ferramenta de crédito

Em cinco anos, pagamento instantâneo mudou hábitos, reduziu o uso do dinheiro em espécie; agora, ele pode evoluir ainda mais

24 ago 2026 - 19h07
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Resumo
Consolidado como o meio de pagamento mais frequente no Brasil e superando o dinheiro em espécie, o Pix transformou o sistema financeiro pela rapidez e inclusão. Agora, o setor bancário discute a evolução da ferramenta para a concessão de crédito parcelado. Embora amplie as opções de financiamento, especialistas e reguladores alertam que a expansão exige normas claras e transparência sobre juros para evitar o superendividamento dos consumidores.

Em cinco anos, a adesão e, principalmente, a escala de uso surpreenderam até mesmo a equipe do Banco Central. O Pix se consolidou como uma realidade sem volta e passou a ocupar um espaço central na inclusão financeira e na transformação do sistema de pagamentos brasileiro.

"Houve uma mudança no ecossistema, com muita inovação e dinamismo. Os hábitos mudaram, com uma queda no uso de dinheiro em espécie, por exemplo", explica Márcia Vicari, responsável pela divisão de gestão do Pix do Banco Central, que participou do painel "Pix, cartões e além: a nova arquitetura competitiva dos meios de pagamento", no primeiro dia do Febraban Tech 2026, que vai desta segunda-feira, 24, até a quarta, 26.

A mudança de comportamento já pode ser medida. Um estudo do BC mostra que, em 2024, o Pix já era o meio de pagamento usado com maior frequência por 46,1% dos brasileiros, contra 22,1% para dinheiro em espécie. Em 2021, o Pix estava em apenas 16,7%, enquanto o dinheiro liderava com 60,2%. Ou seja, em três anos, o Pix ganhou quase 30 pontos percentuais na preferência/frequência de uso.

Painel no primeiro dia do Febraban Tech 2026 discutiu 'Pix, cartões e além: a nova arquitetura competitiva dos meios de pagamento'
Painel no primeiro dia do Febraban Tech 2026 discutiu 'Pix, cartões e além: a nova arquitetura competitiva dos meios de pagamento'
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

O movimento ajuda a explicar por que o Pix deixou de ser apenas mais uma alternativa de pagamento. Ele passou a alterar a própria lógica de relacionamento dos consumidores com o dinheiro e, consequentemente, a forma como os bancos desenvolvem seus produtos.

Do lado das instituições financeiras, o fenômeno tem uma explicação simples, segundo Maria Eduarda Paiva, superintendente de produtos digitais do Itaú Unibanco. "O Pix ajudou a resolver dores muito claras dos clientes", diz.

Os quatro momentos da jornada financeira de alguém

A jornada financeira das pessoas costuma passar por quatro momentos — receber, transferir, pagar e comprar. Na avaliação da executiva, o Pix atingiu de forma particularmente eficiente os dois primeiros. A mudança, porém, acabou repercutindo sobre os demais. "É um processo que ajudou também na evolução de todos os outros meios de pagamento, inclusive os cartões de crédito."

Para José Henrique Camargo, superintendente sênior de negócios e produtos do Bradesco Payments, a popularização do Pix também mudou a maneira como os bancos precisam pensar a experiência do cliente.

"O trilho que será usado não importa muito. O importante é ele conseguir fazer o pagamento dele", afirma.

Na prática, isso aumenta a responsabilidade das instituições de orquestrar diferentes meios de pagamento e oferecer ao consumidor a alternativa mais adequada a cada situação. O Pix, nesse cenário, não necessariamente elimina os outros instrumentos. Ele passa a conviver com eles e, em alguns casos, modifica a forma como são utilizados.

O próximo passo pode ser o crédito

É nesse processo de evolução que surge uma nova discussão: a possibilidade de usar a infraestrutura do Pix também para operações de crédito parcelado.

Embora a regulamentação ainda esteja em construção e a expressão "Pix parcelado" não possa ser utilizada oficialmente, a modalidade já faz parte das discussões do setor e começa a aparecer em ofertas de instituições financeiras.

Para os participantes do debate sobre o tema durante o primeiro dia da Febraban Tech 2026, o ponto central será garantir transparência para o consumidor. A facilidade e a velocidade do Pix não podem fazer com que o cliente perca de vista que, em uma operação parcelada com juros, está contratando crédito.

"Até porque existe preocupação com superendividamento", afirma Maria Eduarda.

Camargo, do Bradesco, também defende o avanço da regulamentação. "É superimportante o avanço na regulação" do Pix em parcelas, afirma. Para ele, a expansão da modalidade precisa estar associada ao uso responsável do crédito.

A lógica por trás da discussão é relativamente simples. O Pix já resolveu boa parte do problema relacionado à velocidade e à conveniência de transferir e pagar. O próximo passo seria combinar essa experiência com uma possibilidade que o cartão de crédito oferece há décadas: a compra parcelada.

Para os especialistas, essa combinação pode atender a uma demanda do consumidor por rapidez e, ao mesmo tempo, ampliar as possibilidades de financiamento. Mas a expansão só fará sentido se vier acompanhada de informação clara sobre juros, custo total da operação e capacidade de pagamento.

Estadão
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