Paraguai vive crise semelhante à do confisco da poupança no governo Collor? Especialistas explicam
Presidente do Paraguai, Santiago Peña, tentou renunciar ao cargo em meio à crise financeira no país
A crise financeira que o Paraguai enfrenta é similar ao confisco de poupanças que o Brasil enfrentou no governo de Fernando Collor de Mello, nos anos 90? Por mais que os efeitos práticos possam ser similares, se tratam de situações diversas. É o que explicam especialistas ao Terra.
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Na prática, nas duas situações há pessoas que não estão com acesso aos valores que tinham depositado em suas contas. Mas a origem dos casos é diferente, aponta o professor de contabilidade, controladoria e finanças na FIPECAFI, Helder França.
No caso de Collor, o plano do então presidente era fazer um controle de inflação, que passava dos 80% naquele período. Nisso, ele tomou uma medida conhecida no direito tributário como empréstimo compulsório, em que o governo basicamente confisca os valores e faz a devolução dessa quantia posteriormente.
Já no Paraguai, o Banco Ueno está no centro da questão. "Ainda não se tem notícia de a crise lá ter uma proporção mais alavancada para todo o sistema financeiro. Por enquanto está mais associada a um banco específico, que é um banco com uma capilaridade muito forte no país e apresentou um índice de insolvência muito grande, não sendo coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito do Paraguai", explica.
E foi essa situação de crise de liquidez que acarretou na renúncia do presidente do Banco Central e, posteriormente, na tentativa de renúncia de Santiago Peña, presidente do Paraguai -- ao passo que o Congresso avança com um processo de pedido de impeachment contra ele.
"Os efeitos são muito próximos, de fato as medidas tomadas inviabilizavam que os correntistas acessassem esses valores, mas há essa diferença fundamental: no Collor era uma medida mais ampla, uma arma compulsória para você tentar conter a inflação, afetando não só os correntistas de um banco, mas de todo o sistema financeiro de um modo geral. No Paraguai está mais associado a uma crise de liquidez envolvendo um banco setorialmente conhecido, que é o Ueno Bank, no qual houve uma crise de insolvência que não foi abarcada pelo Fundo Garantidor de Crédito", descreve o especialista.
A questão, agora, é entender se essa crise se tornará sistêmica, afetando outras instituições ligadas ao sistema de crédito. "As apurações vão conseguir trazer essas evidências de uma forma mais clara para que se perceba se tem alguma outra similitude entre os dois eventos", finaliza.
Comparação compreensível
Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da ESPM, aponta que a comparação entre as situações é bastante compreensível, principalmente considerando que o confisco da poupança que ocorreu no início dos anos 90 no Brasil segue como um trauma para a população brasileira.
No caso de Collor, ele frisa que o confisco foi uma decisão monetária e econômica tomada pelo governo para bloquear os investimentos. No Paraguai é um caso que envolve um banco -- mas que ganhou uma dimensão especialmente preocupante por o Ueno atender uma parcela expressiva da população do país.
"A interrupção dos pagamentos e transferências pode gerar efeitos bastante nocivos para a economia. Por exemplo, afetar a liquidez de caixa das empresas, atraso no cumprimento de obrigação, retração no consumo... A presença de recursos públicos na instituição amplia os questionamentos sobre a governança e supervisão bancária", afirma.
Além disso, ele reforça que a crise tem uma dimensão política relevante: "A gente teve um momento em que o governo Collor fez o confisco e depois de algum tempo o Collor sofreu impeachment. No caso do Paraguai, temos a crise de uma instituição financeira gerando a renúncia de Santiago Peña e isso demonstra como a combinação de perdas financeiras, uma suspeita de irregularidade e até os questionamentos relacionados à atuação dos órgãos reguladores, pode comprometer rapidamente a sustentação de um governo".

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