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Para aumentar a cobertura de seguros no Brasil vale tudo, até oferecer apólices de graça

Hoje, somente 20% dos brasileiros têm alguma apólice de seguros; para ampliar o mercado, grandes seguradoras e startups apostam nos microsseguros, que são oferecidos sem custo ou por valores muito baixos

31 mai 2022 18h25
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Após mais de oito décadas, a Porto decidiu realizar uma grande mudança na sua marca: retirou o "Seguro" do seu nome. Foi uma tática para ser vista pelo consumidor como mais do que uma seguradora - para isso, passou a oferecer novos produtos. Muitos deles, aliás, serão derivados de sua atividade principal. De olho na simplificação que a Superintendência de Seguros Privados (Susep) tem feito no setor nos últimos anos, a companhia quer oferecer novos tipos de apólices, indo além do público "endinheirado" que já tem o hábito de comprar seguros.

Um exemplo é o lançamento de um seguro por assinatura, que tem como meta convencer os donos de veículos mais antigos a fazer uma apólice. O Azul Seguro Auto funciona no mesmo modelo dos serviços de streaming: pode ser pago mensalmente e ser cancelado a qualquer momento, além de ter preços cerca de 40% menores do que o modelo convencional. Porém, á cobertura é mais limitada, com a devolução apenas de 90% do valor do veículo em caso de acidente ou furto..

"Esse tipo de produto faz com que as pessoas percebam que ter um seguro mais simples é melhor do que não ter nada. E descobrem que contratar um seguro é mais barato do que imaginam", afirma Marcelo Picanço, presidente da área de seguros da Porto. Entre os produtos de "entrada" ele cita seguros para celulares, bicicletas e o que garante pelo menos um guincho em caso de pane no veículo. Outra área em crescimento é a voltada a animais de estimação, área na qual a empresa tem parceria com a Petlove.

Marcelo Picanço, CEO da vertical seguros da Porto, acredita que mesmo um seguro mais simples seja melhor do que nada
Marcelo Picanço, CEO da vertical seguros da Porto, acredita que mesmo um seguro mais simples seja melhor do que nada
Foto: Divulgação/Porto/Fernando Marinho / Estadão

A Porto Seguro não está sozinha na tentativa de popularizar o setor de seguros - hoje, apenas 20% da população têm algum tipo de cobertura no País. Empresas como PicPay e Santander já oferecem o seguro para golpes do Pix, que protege contra transferências feitas sob coação. Já a American Life oferece a casais do mesmo sexo um seguro de vida que inclua proteção contra ataques homofóficos. E a Youse tem apólice para proteção de pintura de veículos. Esses seguros partem de preços muito baixos (abaixo de R$ 5) e alguns são até ofertados gratuitamente.

Esses lançamentos vêm sendo acelerados por causa de um movimento recente da Susep. Desde o início da pandemia, a autarquia vem buscando simplificar a regulação do setor, especialmente com a redução de custos regulatórios, tornando a atuação mais próxima da vista em países desenvolvidos. Para este ano, estão em estudo nove revisões, atualizações ou elaborações de nove tipos de regulamentações de seguros diferentes (como o rural, habitacional e o de coberturas por sobrevivência).

Algumas mudanças já facilitam a vida de quem quer comprar uma apólice. Até pouco tempo atrás, por exemplo, não era possível uma pessoa contratar seguro funeral em grupo para a família inteira, somente cônjuge e dependentes. Agora, outros familiares podem entrar na conta. "A Susep quer permitir e incentivar que o mercado possa inovar em produtos e canais e permitir a livre iniciativa", afirma Carlos Roberto Queiroz, diretor da Susep.

Concorrência

Esse movimento de simplificação das regras ajuda a criar um ambiente de concorrência que facilita a entrada de novas empresas. Entre elas está a ThinkSeg, criada por Andre Gregori, ex-presidente da área de seguros do banco de investimentos BTG Pactual, que vende um seguro para automóveis que pode ser "ligado" e "desligado" conforme o uso, reduzindo os custos tanto para a empresa quanto para o cliente.

Por meio de um aplicativo para celular, é possível, por exemplo, desligar a proteção contra assaltos enquanto o motorista está a 100 km/h em uma estrada ou a proteção contra batidas e danos a terceiros quando o veículo está parado na garagem de casa.

Criada por Andre Gregori, ThinkSeg vende um seguro para automóveis que pode ser “ligado” e “desligado” conforme o uso, reduzindo os custos tanto para a empresa quanto para o cliente
Criada por Andre Gregori, ThinkSeg vende um seguro para automóveis que pode ser “ligado” e “desligado” conforme o uso, reduzindo os custos tanto para a empresa quanto para o cliente
Foto: Divulgação/ThinkSeg/Felipe Gabriel / Estadão

"O grande diferencial não é ser digital, mas oferecer experiência fluida e marketing forte. Isso é perfumaria. Buscamos criar um produto completo, com 100% das coberturas tradicionais, a um preço mais barato.O segredo é que eu passei um ano modelando o negócio pensando no indivíduo", afirma Gregori. Devido ao seu modelo de negócios, a empresa tem taxa de sinistralidade de 49%, abaixo do mercado, que é de cerca de 70%.

Insurtechs

A Thinkseg é uma insurtech, como são conhecidas as startups de seguros. De acordo com o estudo Latam Insurtech Journey, o Brasil tem 129 empresas no setor, o que representa 32% do total da região.

Uma das que conseguiram maior destaque é a Pier. A companhia recebeu um aporte de R$ 108 milhões em 2021 e tem 120 mil clientes, oferecendo seguros oferecidos para automóveis e celulares. Com o uso de tecnologia para análise de fraudes, a empresa já conseguiu liberar o reembolso de um cliente em apenas um segundo.

Toda a contratação é feita pelo site ou aplicativo da startup, mas também há parcerias com empresas, como a montadora Jeep. Nos veículos da montadora, os dados de quilometragem e tempo de uso são enviados para a startup, que cria um plano de seguro individual. A Pier foi pioneira no registro de seguradora digital da Susep, viabilizando pagamentos mais velozes e contratação por canais digitais.

"Buscamos entender os motivos da falta de contratação de seguros com pesquisas, e os resultados mostram que o problema é de custo alto e de falta de sentido do produto para suas necessidades", afirma Igor Mascarenhas, CEO da Pier. "Fizemos um produto que permite que o consumidor esteja protegido em poucos cliques, sem pegadinhas nas letras miúdas."

Em outro segmento, a Amar Assist quer popularizar o seguro de vida de uma maneira diferente: para isso, oferece o serviço de maneira gratuita por um ano. Para ter acesso ao produto, que dá indenização de até R$ 20 mil em caso de morte, basta o usuário ter o aplicativo da empresa instalado em seu celular.

A ideia da companhia é que o usuário tenha o primeiro contato com o seguro para depois migrar para outros produtos de baixo custo, como o seguro funerário, de internação hospitalar e de jazigos. "É um investimento nosso em aquisição de clientes e por meio da análise de dados dos usuários podemos oferecer os melhores serviços para eles", afirma Bruno Gallo, presidente da Amar Assist.

Mercado

Apesar de ser o maior mercado da América Latina, com R$ 306,4 bilhões em faturamento, a maior parte dos brasileiros não tem um seguro para chamar de seu. O mais popular é o de automóvel, com cerca de 30% da frota segurada, enquanto os de residência e de vida mal chegam a 10% da população.

Na visão de Antônio Penteado Mendonça, especialista no setor e sócio da Penteado Mendonça e Char Advocacia, esse movimento de insurtechs e novos seguros de entrada é válido, mas ele não transforma o mercado como deveria - e nem deve ampliar tanto assim o faturamento do setor.

"Não é com o microsseguro que o mercado vai mudar. Se forem 20 milhões de pessoas pagando R$ 14 ao ano, isso não fará grande diferença no faturamento do mercado. O pulo do gato está na modernização do seguro de vida, incluindo opções como o resgate em vida e a cobertura para doenças graves. Nos automóveis, coberturas parciais ou intermitentes podem mexer bastante no setor."

Estadão
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