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O que se sabe sobre nova onda de ataques hacker a supermercados na Europa

2 nov 2026 - 18h46
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Resumo
Uma nova onda de ataques cibernéticos atingiu supermercados em sete países europeus, adulterando remotamente as temperaturas de sistemas de refrigeração e forçando o descarte em massa de alimentos. O incidente, que repete um episódio ocorrido na França, expõe a vulnerabilidade digital do varejo e acende o alerta para possíveis ações de sabotagem contra a cadeia de abastecimento alimentar da Europa, embora a autoria das invasões ainda não tenha sido identificada pelas autoridades.

Invasão a sistemas de refrigeração afetou redes varejistas em sete países, menos de um mês após evento similar na França. Casos expõem vulnerabilidade digital da cadeia de abastecimento alimentar da Europa.Uma nova onda de ataques cibernéticos a supermercados europeus se espalhou pelo continente nesta segunda-feira (02/11), afetando sistemas de refrigeração na Suécia, Irlanda, Holanda, Estônia, Finlândia, Bélgica e Luxemburgo. O incidente levou ao descarte de alimentos e reacendeu preocupações sobre a vulnerabilidade digital da cadeia de abastecimento alimentar da Europa, menos de um mês após um episódio semelhante atingir centenas de lojas na França.

Aumento deliberado de temperatura de freezers obrigou varejistas a descartar produtos em diversos países
Aumento deliberado de temperatura de freezers obrigou varejistas a descartar produtos em diversos países
Foto: DW / Deutsche Welle

Os ataques provocaram alterações indevidas nas temperaturas de geladeiras e freezers em dezenas de estabelecimentos.

A rede Carrefour informou que cerca de 15 de suas 700 lojas na Bélgica foram afetadas. "É um ataque cibernético, não há outra explicação", afirmou o porta-voz da empresa, Mich Vergauwen.

Na cidade belga de Mons, a varejista de móveis Ikea também teve a temperatura dos freezers de uma de suas lojas elevada remotamente. Em Antuérpia, o fundador da rede de açougues De Laet & Van Haver, Luc De Laet, relatou que, durante a madrugada, suas geladeiras foram configuradas para até 18°C.

"É muito assustador. Eles estão invadindo o sistema que faz o registro da temperatura e conseguem programá-lo à distância", disse à agência de notícias Reuters. "É revoltante ter de jogar fora tanta comida."

Sistemas de refrigeração de dezenas de lojas da varejista Ahold Delhaize na Bélgica e em Luxemburgo também foram impactados por um "incidente de TI". "Devido a ataques cibernéticos, não haverá produtos nas prateleiras refrigeradas ou congeladas. Pedimos sinceras desculpas", anunciou a empresa em uma de suas lojas.

Já o Grupo Colruyt, que opera supermercados Spar na Bélgica por meio de franquias, informou que cinco unidades tiveram sistemas de refrigeração comprometidos. A rede Intermarché relatou problemas técnicos em cerca de 15 lojas.

Na Suécia, a rede de supermercados Coop informou que sete de suas unidades tiveram problemas após um incidente envolvendo manipulação não autorizada de sistemas de refrigeração. A varejista ICA também foi atingida, com a temperatura do freezer de uma de suas unidades sendo elevada a 50ºC, segundo informou uma representante da empresa.

A atacadista irlandesa Musgrave informou que o incidente atingiu sistemas em 13 lojas da rede SuperValu, obrigando a retirada de produtos refrigerados e congelados das prateleiras.

Na Finlândia, a rede varejista Kesko registrou ocorrências parecidas. Na Estônia, o supermercado Selver foi afetado. Na Holanda, impactos foram identificados em lojas de cidades menores.

O que está por trás dos ataques

Os novos incidentes ocorrem após um ataque registrado na França no mês passado. Na ocasião, a polícia francesa informou que hackers assumiram o controle de sistemas de refrigeração em mais de 500 supermercados, provocando perdas de alimentos e, em alguns casos, incêndios.

Embora nenhum grupo tenha reivindicado a autoria dos ataques, os casos ampliaram a preocupação das autoridades europeias com ameaças híbridas à infraestrutura crítica desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

Em outubro, alertas sobre ameaças russas à Alemanha, por exemplo, se multiplicaram, levando o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, a dizer que o país é alvo diário de "uma guerra híbrida".

Moscou nega repetidamente qualquer envolvimento em operações de sabotagem.

"Não se sabe quem está por trás deste ataque, e talvez isso nunca seja determinado", afirmou Katrien Eggers, porta-voz do Centro de Cibersegurança da Bélgica.

Segundo ela, o aumento dos incidentes também está relacionado à evolução da inteligência artificial. "Todos os sistemas de TI são potencialmente vulneráveis, e a IA agora pode ser usada para explorar essas fraquezas com sucesso, especialmente por atores sofisticados", disse.

A Comissão Europeia afirmou que os ataques demonstram como as ameaças digitais estão se tornando cada vez mais disruptivas. "São uma tentativa deliberada de interromper nossa cadeia de abastecimento alimentar e minar a confiança dos consumidores nela, um alerta que devemos levar a sério", disse o comissário europeu para Agricultura, Christophe Hansen. "A recorrência desses ataques cibernéticos é profundamente preocupante."

Dono da rede de açougues afetada na Bélgica, De Laet afirmou acreditar que o objetivo dos hackers é desestabilizar as economias europeias. "Acordem, por favor, porque há algo acontecendo", disse, dirigindo-se às autoridades policiais.

Por que o varejo se tornou alvo

De geladeiras e sistemas de aquecimento a câmeras de segurança e alarmes, uma parcela crescente da infraestrutura física do varejo passou a ser conectada à internet e controlada remotamente. Essa transformação amplia a superfície de ataque disponível para criminosos cibernéticos.

Parte dos equipamentos afetados nesta segunda-feira utiliza a tecnologia de controle de temperatura da dinamarquesa Danfoss, a mesma utilizada por supermercados hackeados no início de outubro na França. A empresa afirmou estar trabalhando com os clientes para implementar correções de segurança.

Tom Hegel, pesquisador da empresa de cibersegurança SentinelOne, afirmou que ataques desse tipo costumam estar ligados à extorsão, motivação política ou operações patrocinadas por governos. Segundo ele, o fato de não terem surgido exigências financeiras sugere uma possível intenção de sabotagem.

"O varejo é um alvo fácil porque as redes supermercadistas operam enormes parques de controladores de refrigeração, sistemas de gerenciamento predial, painéis de controle de acesso e equipamentos de ponto de venda", disse.

Ele observou ainda que é difícil identificar a autoria de invasões desse tipo. "Um invasor que acessa um painel de controle exposto praticamente não deixa rastros. Um adolescente e um serviço de inteligência pareceriam muito semelhantes do ponto de vista de quem está defendendo o sistema."

Quais dispositivos podem ser alvo

Os alvos mais comuns dos hackers são aparelhos conectados à internet e controlados remotamente. No ambiente doméstico, por exemplo, estão câmeras de segurança, campainhas com vídeo, sistemas de alarme, fechaduras inteligentes, termostatos, sistemas de aquecimento central e eletrodomésticos inteligentes, como geladeiras, fornos e máquinas de lavar.

Em termos práticos, qualquer equipamento ligado à internet, seja diretamente ou por meio de aplicativos, serviços em nuvem ou redes domésticas, pode se tornar um alvo.

Em 2015, pesquisadores demonstraram como uma geladeira inteligente da Samsung poderia ser comprometida, permitindo a interceptação de parte do tráfego de internet que passava pelo aparelho. Na maioria dos casos, os invasores buscam roubar dados, interromper serviços ou utilizar dispositivos conectados como porta de entrada para redes maiores.

O que um hacker pode fazer após invadir um dispositivo

Depois de obter acesso, um invasor geralmente pode coletar informações ou assumir o controle do equipamento. Uma câmera pode revelar imagens do interior de uma residência, um dispositivo com microfone pode captar conversas e um roteador comprometido pode expor tudo o que trafega pela rede.

Quando assumem o controle de um aparelho, hackers podem ligá-lo ou desligá-lo, alterar configurações e impedir que os usuários acessem suas próprias contas. Um termostato comprometido pode afetar o aquecimento de um imóvel. Geladeiras e freezers invadidos podem ter seus controles de temperatura manipulados, resultando na perda de alimentos.

Em situações mais graves, dispositivos com pouca proteção podem ser usados para acessar outros sistemas da mesma rede ou para roubar informações pessoais vinculadas a contas online.

Hackers poderiam assumir o controle de infraestruturas críticas?

Veículos e aeronaves modernos contam, em geral, com múltiplas camadas de proteção. O mesmo ocorre com infraestruturas críticas, como redes elétricas e sistemas de abastecimento de água, que costumam operar sob padrões mais rígidos de segurança, monitoramento e regulamentação do que equipamentos de consumo.

Isso não significa que sejam imunes a ataques cibernéticos, mas, em geral, representam alvos muito mais difíceis do que um eletrodoméstico conectado a uma rede Wi‑Fi doméstica.

Em 2015, por exemplo, especialistas conseguiram assumir remotamente o controle de um Jeep em movimento por meio de seu sistema de entretenimento conectado à internet. O episódio levou ao recall de cerca de 1,4 milhão de veículos e à implementação de correções de software.

Quase uma década depois, pesquisadores divulgaram uma falha que permitia rastrear, destrancar e ligar determinados veículos da Kia utilizando apenas o número da placa. Segundo eles, a montadora foi informada sobre as vulnerabilidades e corrigiu os problemas em poucos meses.

gq (AFP, Reuters, OTS)

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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