A explosiva combinação de protestos e alta dívida pública na França
Pressionado por protestos, o governo minoritário da França prometeu bilhões para a educação, agravando sua crise fiscal. Com a dívida pública em 120% do PIB e operando em déficit há meio século, o país viu a desconfiança do mercado disparar, elevando os juros da dívida em relação aos títulos alemães ao maior patamar desde a crise financeira. Enquanto os custos de refinanciamento ameaçam atingir 130 bilhões de euros até 2030, a polarização política insiste em promessas de gastos sem sacrifícios.
Pressionado, governo francês promete bilhões de euros extras para o ensino apesar de o país já enfrentar dificuldades com uma dívida pública que chega a 120% do PIB.Altamente endividada, num impasse político-partidário e com um governo sem maioria no Parlamento são atributos que descrevem bem a situação na França.
O governo minoritário decidiu, em resposta aos protestos em todo o país, disponibilizar, até 2030, 4 bilhões de euros em empréstimos com juros subsidiados para a reforma de escolas e destinar mais 1 bilhão de euros às universidades até 2029. Mas esse é um dinheiro que não existe hoje no caixa francês, que opera no vermelho.
A dívida pública da França gira em torno de 120% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Em comparação, a relação dívida/PIB da Alemanha, mesmo após o recente pacote de 600 bilhões de euros para infraestrutura e defesa, é de cerca de 65%. Pelos critérios de Maastricht, criados para garantir a estabilidade da zona do euro, essa relação não deveria passar de 60%.
A Alemanha continua ostentando a classificação máxima de crédito das agências de classificação de risco, como AAA ou Aaa. Já a França é avaliada, dependendo da agência, um ou dois graus abaixo, como AA, A+ ou Aa3. Enquanto a perspectiva da Alemanha é considerada estável por todas as agências, a da França é negativa para muitas.
Por isso, o governo em Paris precisa pagar juros mais altos do que Berlim. Essa diferença (conhecida como spread) em relação aos títulos públicos alemães atingiu o maior nível desde a crise financeira. Nos títulos com vencimento em dez anos, a França paga quase 1,6 ponto percentual a mais de juros do que a Alemanha.
O termômetro das finanças francesas
O spread funciona como um termômetro de febre para o mercado de títulos públicos, explica o economista Friedrich Heinemann, do Centro Leibniz de Pesquisa Econômica Europeia (ZEW), na Alemanha.
"Esse termômetro da febre acaba forçando uma mudança de rumo. Quando o spread sobe demais, as condições de financiamento da França ficam sob pressão, e qualquer pessoa que precise de crédito no país passa a pagar juros mais altos. Os bancos entram em dificuldades, e a crise se agrava cada vez mais", explica Heinemann. "Isso pode evoluir para uma crise financeira, e ela mostraria até para os mais céticos que não é possível continuar assim se quiserem evitar um verdadeiro colapso econômico."
Especialistas dizem não acreditar num fim rápido da "festa da dívida" francesa. "Dívida pública é algo abstrato enquanto suas consequências forem pouco perceptíveis no cotidiano", diz o economista Landry Charrier, da Universidade de Bonn. Ele lembra que, segundo um estudo do instituto francês de estatísticas (Insee), 56% da população recebe mais em benefícios e serviços públicos do que paga em impostos e contribuições. "A maioria, portanto, tem um interesse concreto na manutenção do status quo", observa.
Há mais de meio século que a França gasta regularmente mais do que arrecada em impostos. O último orçamento público equilibrado do país foi registrado em 1974.
Custos com os juros
A última vez que a França pagou um spread tão alto foi no fim de 2011, durante a crise da dívida na zona do euro. O que chama atenção hoje é principalmente a velocidade da alta: desde junho de 2026, o spread em relação aos títulos alemães mais do que dobrou.
Isso se deve menos à situação geral dos juros e mais ao elevado endividamento, à instabilidade política, aos grandes déficits orçamentários e às recentes manifestações.
Quanto maiores os juros, maior a parcela do orçamento público destinada ao pagamento da dívida. Em 2026, a França deverá gastar mais de 79 bilhões de euros com juros sobre sua dívida pública total. Para 2027, a previsão supera 91 bilhões de euros; até 2030, esse valor poderá atingir entre 125 bilhões e 132 bilhões de euros.
Nos próximos anos, a França precisará refinanciar um grande volume de títulos emitidos com taxas baixas. Ao mesmo tempo, o elevado déficit orçamentário exige nova emissão de dívida.
Se os juros permanecerem nos níveis atuais, os custos poderão chegar a 130 bilhões de euros em 2030. A projeção um pouco menor de 125,8 bilhões de euros baseia-se na proposta orçamentária para 2027 apresentada pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu. O plano prevê economia de 54 bilhões de euros para reduzir o déficit de 5,4% para 5% do PIB, mas até o momento não conta com maioria parlamentar.
"Contos de fadas econômicos"
Porém, a realidade econômica parece exercer pouca influência política na França. Tanto o partido da ultradireita Reunião National (RN) quanto o partido de extrema esquerda A França Insubmissa (LFI) fazem campanha com promessas dispendiosas.
A candidata presidencial do RN, Marine Le Pen, por exemplo, defende o retorno da aposentadoria aos 62 anos e, ao mesmo tempo, promete economias de 140 bilhões de euros. O candidato da LFI, Jean-Luc Mélenchon, foi ainda mais longe ao sugerir que os títulos públicos franceses mantidos pelo banco central francês fossem simplesmente "jogados ao fogo". "Ninguém jamais perceberá que eles desapareceram", disse.
Para Heinemann, esse é "um bom exemplo de como partidos radicais, tanto da direita quanto da esquerda, andam contando contos de fadas econômicos". Segundo ele, o denominador comum dessas propostas é a ideia de que é possível sair da crise sem sacrifícios.
Charrier está convencido de que muitos franceses ainda não compreenderam a gravidade da situação. "O euro facilitou o acesso da França a financiamento barato e reduziu por um longo tempo a pressão por ajustes", destaca. Afinal, no passado, as desvalorizações do franco francês tornavam os desequilíbrios econômicos imediatamente perceptíveis, por meio da perda de poder de compra e da alta dos preços. "Hoje esse sinal de alerta desapareceu. Assim, surgiu a ilusão de que as correções necessárias podem ser adiadas indefinidamente."
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