Latam Brasil vê expansão mais lenta em 2027 com combustível caro e dólar alto
A Latam Brasil adotou uma postura mais conservadora e prevê um crescimento mais lento em 2027, pressionada pela alta do querosene de aviação, avanço do dólar e impactos da reforma tributária. Embora mantenha o recebimento de aeronaves e a entrega de jatos da Embraer, a aérea já ajusta a frequência de rotas menos rentáveis. Apesar dos custos elevados, o grupo registrou lucro de US$ 441 milhões no terceiro trimestre e negocia o acesso a recursos do Fnac via BNDES para apoiar suas operações.
A Latam Brasil prevê crescer mais devagar em 2027 diante da perspectiva de custos elevados de combustível, alta recente do dólar e dos efeitos da reforma tributária sobre a demanda por viagens, disse à Reuters o presidente-executivo da companhia, Jerome Cadier.
A maior companhia aérea do país projeta continuar recebendo aeronaves e ampliando sua malha, mas já vê sinais de que algumas rotas podem perder atratividade econômica em um ambiente de custos mais pressionados.
"Para o futuro, sem dúvida nenhuma, a gente está mais conservador", afirmou Cadier em entrevista nesta terça-feira.
"A gente vai continuar crescendo, a gente tem muita aeronave chegando, mas a previsão é mais conservadora, porque tem algumas rotas que começam a não se pagar financeiramente. E aí você empurra a chegada de algumas aeronaves eventualmente, você aumenta mais o preço, isso faz com que o fator de ocupação caia mais, então você acaba encontrando um equilíbrio que vai gerar menos oferta e demanda", disse.
Neste ano, a companhia já tem expandido em ritmo mais lento do que o inicialmente esperado no Brasil. Cadier mencionou que o crescimento da operação em 2026 deve ficar em cerca de 7,5%, ante projeção anterior de 8% a 9%.
O grupo Latam, que tem sede no Chile, publicou nesta terça seu resultado do terceiro trimestre, com lucro líquido de US$441 milhões, alta de 16,3% ante mesmo período do ano anterior, e receita operacional de US$4,57 bilhões, crescimento de 18,4%.
Apesar da pressão dos combustíveis, Cadier avaliou que a empresa teve um terceiro trimestre sólido, com crescimento de receita, geração de caixa e margens saudáveis.
COMBUSTÍVEL CARO, CÂMBIO ELEVADO
A perspectiva mais cautelosa vem após um terceiro trimestre marcado por uma nova disparada dos preços do querosene de aviação, contrariando expectativas de que os custos começariam a ceder gradualmente após o choque provocado pelo conflito no Oriente Médio.
A Latam encerrou o segundo trimestre estimando preços de combustível de aviação próximos de US$130 por barril no quarto trimestre, mas a previsão foi elevada para US$180 após uma forte alta registrada principalmente em setembro.
Embora espere preços abaixo do pico recente, Cadier afirmou que o custo do querosene em 2027 deverá permanecer acima dos níveis que a empresa estimava há alguns meses, diante de restrições de fluxo e danos à capacidade de refino global.
"Eu não acho que a gente vai ver uma diminuição rápida, eu acho que a gente vai conviver com preço de combustível o ano que vem inteiro mais alto", disse.
"A gente ainda não fechou nossa estimativa para o ano que vem. Não vai ser tão alto quanto US$180, mas vai ser bem mais alto do que até os US$130 que a gente imaginava neste quarto trimestre."
Cadier também citou o câmbio como uma das preocupações para o próximo ano, após a forte valorização do dólar na última semana em reação do mercado financeiro à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"É óbvio que isso tem impacto, já que 60% praticamente do nosso custo é dolarizado, ou um pouco mais até ultimamente, com o combustível", mencionou.
Outra fonte de preocupação é a implementação da reforma tributária a partir de janeiro, que deve elevar os preços das passagens.
AJUSTES DE FREQUÊNCIA, FINANCIAMENTO
Cadier notou que a Latam tem ajustado frequências de algumas rotas menos rentáveis no segmento doméstico.
"A gente não deixou de operar nenhuma cidade, a gente vai fechar o ano com 67, que era o número que a gente planejava, então a gente ainda não machucou a conectividade, mas a frequência sim," disse.
A empresa anunciará na última semana de novembro uma nova leva de rotas que serão operadas com aeronaves Embraer E195-E2, projeto que segue inalterado apesar da piora recente do câmbio.
As novas ligações vinham sendo estudadas desde meados do ano e deverão começar a operar entre março e abril de 2027, disse Cadier, acrescentando que a Latam não discute qualquer adiamento das entregas dos 24 jatos E2 que encomendou em 2025.
Cadier frisou ainda que a demanda internacional continua mostrando desempenho forte, embora a expansão esteja limitada principalmente pela disponibilidade de aeronaves de grande porte, como o Boeing 787.
"Se a gente pudesse receber mais (aviões), a gente cresceria mais no internacional", disse. "Teve destinos bons esse ano, mas o ano que vem não sei se vai ter muito além de Genebra (já anunciado). A gente vai olhar para 2028 agora."
Cadier também afirmou que a Latam deve fazer em breve um anúncio sobre recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac).
Em julho, o BNDES anunciou uma linha de R$13,5 bilhões com recursos do Fnac para apoiar as maiores companhias aéreas que operam no Brasil. A concorrente Azul já acessou uma parcela do fundo.
"A gente foi engajando com o governo ao longo dos últimos meses e encontramos um caminho," disse Cadier. "A gente vem caminhando de forma positiva para poder anunciar alguma coisa nas próximas semanas sobre o Fnac."
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