Insegurança faz blindagem residencial crescer até 30% ao ano
Carros blindados, seguranças privados, câmeras de vigilância, rastreadores por satélite. A sensação de insegurança no Brasil tem alimentado um amplo mercado de produtos e serviços para garantir a proteção das pessoas - pelos menos, daquelas que podem pagar por isso. Na ponta da pirâmide social, os consumidores têm feito um investimento a mais. Segundo dados da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin), foram instalados no Brasil até o momento cerca de 500 "quartos do pânico".
Carlos Monte Serrat, presidente da Câmara de Blindagem Arquitetônica da Abrablin, informa que o mercado de blindagem de imóveis vem crescendo a um ritmo de 20% a 30% desde 2002. Segundo ele, o desempenho vem da constatação, por parte do público consumidor, de que a vigilância por meio de mecanismos como câmeras não inibe roubos e furtos.
Paralelamente, a elevação de restrições ao porte de armas no Brasil, aprovadas em 2003, pode ter feito com que aqueles que se sentiam inseguros passassem a investir na fortificação para se proteger. "Antes, quando se sentia ameaçado, um indivíduo dava dois ou três tiros na porta e o bandido ia embora", opina Carlos, que também é diretor da empresa de blindagem arquitetônica Blindaço.
Crítica
Guaracy Mingardi, cientista político e ex-subsecretário nacional de Segurança Pública, critica o que ele chama de "criação de fortalezas" dentro da sociedade. Para ele, ao fortificar suas residências, esses setores da sociedade deixam de pressionar o Estado por políticas públicas eficientes.
"Você cria um refúgio para se trancar, para as pessoas não chegarem a você, e exime o Estado de fornecer segurança", analisa. Para ele, mecanismos como quartos do pânico não resolvem o problema da segurança, mesmo no nível individual, à medida que assaltantes podem passar a render os proprietários antes que eles entrem em suas casas.
Carlos afirma que, em oito anos atuando no setor, recebeu apenas oito notícias de casos em que a fortificação das residências efetivamente serviu como proteção. "Mas claro que nem todos os casos ligam para a empresa agradecendo", ressalva.
Cristiano Vargas, diretor da empresa de blindagem arquitetônica Vault, afirma também que ambientes blindados servem como forma de dissuasão. "Temos clientes que já foram salvos pela desistência do criminoso ao se deparar com nossas portas blindadas", diz.
Guaracy avalia que há um aumento da sensação de insegurança na cidade de São Paulo - onde estão instalados 50% dos quartos do pânico do País - devido a eventos como arrastões. Mas destaca que, em linhas gerais, houve uma forte queda da violência no Estado.
"A sensação de insegurança depende não só da segurança objetiva, mas também do grupo social atingido", diz. Para ele, mesmo que possa estar havendo um aumento do número de crimes neste ano, ele só se destaca porque quebra uma série histórica de queda.
Segundo a Secretaria Estadual da Segurança Pública de São Paulo, de 1999 a 2011 houve uma queda de 72% dos crimes contra a vida no Estado. É uma redução de 35,27 crimes contra a vida a cada 100 mil habitantes para 10 a cada 100 mil. Do pico histórico de 2002, com 321 casos de sequestro, São Paulo apresentou uma queda de 77,9%, chegando a 71 ocorrências em 2011. Em 2012, no entanto, diversos indicadores de criminalidade do Estado voltaram a crescer.
Mercado
Carlos, da Abrablin, conta que, quando começou a trabalhar com blindagem, o conceito mais difundido de fortificação de um cômodo era o dos
bunkers. Com o encarecimento do metro quadrado e o desenvolvimento de técnicas mais baratas, o conceito de quarto do pânico começou, no entanto, a se popularizar. Segundo ele, os
bunkerstêm paredes de um metro de concreto. O quarto do pânico tem uma blindagem mais leve. Até então,
bunkersprivados eram cômodos restritos às residências de cônsules e altos executivos de multinacionais.
Por serem mais leves e baratos, hoje os quartos do pânico também podem ser montados mesmo nos segundos andares de propriedades da classe AA. Segundo Carlos, o preço de uma porta blindada se mantém estável em cerca de R$ 4 mil desde 2000, apesar da inflação. O preço se tornou possível com o aumento da concorrência e do volume de negócios.
A implantação de um quarto do pânico tem um custo que varia de acordo com o seu tamanho e complexidade. A prática geralmente é a de adaptar um quarto já existente na casa, mantendo sua função. Carlos afirma que já blindou e adaptou um banheiro por R$ 40 mil, enquanto que a suíte de uma residência saiu por R$ 1 milhão. Cristiano, da Vault, crava o preço entre R$ 20 mil e R$ 500 mil.
Quando passou a atuar no mercado em 2002 ¿ coincidentemente, o ano em que foi lançado o filme "O Quarto do Pânico", estrelado por Jodie Foster -, Carlos estima que havia, além da Blindaço, apenas três empresas fornecendo o serviço. Hoje, esse número se estende às dezenas.
Homologação
No Brasil, as blindagens devem ser autorizadas pelo Exército, chegando até o nível 3 estabelecido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Essa blindagem resiste a disparos de fuzis, rifles e submetralhadoras, por exemplo. Geralmente, quartos do pânico recebem também uma porta de cofre, além de linha telefônica e alimentação de energia independentes das do resto da casa.
Carlos estima que, das mais de 20 empresas atuantes no mercado, apenas seis sejam homologadas pelo Exército. Ele afirma que é comum que empresas funcionem por poucos anos com preços baixos e qualidade enganosa, fechem as portas antes de passarem a prestar assistência e reabram com outros nomes.
"Regularmente, a Abrablind faz testes provando que certos produtos não funcionam e denunciamos para o Exército", revela.