Ingerência na Petrobrás deve dificultar aberturas de capital de subsidiárias da Caixa

Banco estatal estuda levar à Bolsa suas unidades de cartões e de loterias e também seu banco digital, criado na esteira do pagamento do auxílio emergencial

23 fev 2021
12h18 atualizado às 13h27
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A interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás poderá impor uma barreira ainda maior para a abertura de capital de subsidiárias da Caixa, segundo a avaliação de analistas. Uma das ideias do presidente do banco, Pedro Guimarães, era fazer um IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) do banco digital da estatal, lançado na esteira do pagamento do auxílio emergencial. A privatização da Eletrobrás, há anos na mesa, também é vista como mais distante.

Dentre os ativos do banco público na mesa para a realização de uma oferta pública de ações estão a unidade de cartões, a de loterias, a gestora de recursos de terceiros e a holding de seguros. Esta última tinha o processo mais adiantado e chegou a fazer o pedido de registro à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no ano passado, mas o processo foi retirado pela alegação de volatilidade do mercado.

A percepção geral, conforme fontes de mercado consultadas pelo Estadão, é de que ainda é cedo para dizer quais serão os impactos de médio e longo prazos para as operações, mas é certo que serão observados "efeitos para além da Petrobrás". "No mínimo, esse fato deveria fazer investidores pensarem duas vezes antes de investir em uma empresa estatal", comenta uma das fontes, sob a condição de anonimato. No caso da venda de ativos da Caixa, há praticamente um consenso de que a venda de qualquer ativo "será muito dura", diante da falta de confiança dos investidores em ser sócio de uma empresa estatal.

A Caixa quer abrir o capital de seu banco digital, criado para fazer o pagamento do auxílio emergencial.
A Caixa quer abrir o capital de seu banco digital, criado para fazer o pagamento do auxílio emergencial.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / Estadão

Para algumas das fontes, a ingerência do governo, que também traz nebulosidade sobre o Banco do Brasil, "enterrou de vez" a chance de a Caixa levar uma de suas subsidiárias à Bolsa no curto prazo. Outro fator que pesa contra as ofertas das empresas da Caixa é o conhecido alinhamento de Guimarães com Bolsonaro - o executivo é uma figura frequente nas "lives" promovidas pelo presidente da República.

As chances de privatizações no governo Bolsonaro ainda existem, mas se tornaram menos prováveis, destaca o fundador e presidente da consultoria de risco política Eurasia, Ian Bremmer. Com a ingerência na Petrobrás, a percepção de risco vai crescer, com os investidores preocupados se esse foi um início de virada do governo em direção a uma política populista.

"Os investidores já estavam preocupados com desequilíbrios fiscais crônicos antes dessa mudança. Com essa decisão, a visão negativa sobre o Brasil é reforçada. Muito dependerá do que o governo fizer na política fiscal e se as reformas avançam. Provavelmente obteremos algum progresso neste último. mas esses eventos aumentam significativamente a percepção de risco além das empresas estatais", afirma o especialista.

Outra fonte lembra que os investidores estrangeiros vêm de um longo período de cautela em relação aos aportes no Brasil, mas que um fluxo de capital estava voltando ao País por conta de um retorno de recursos de grandes fundos aos países emergentes, movimento do qual o País vinha se beneficiando. Com a ingerência, a aversão ao risco tende a crescer e afastar novamente os investidores, especialmente aqueles de longo prazo.

Vendas

No caso da Caixa, ainda nenhum de seus ativos foi levado à Bolsa como prometido, mas em 2019 o banco estatal conseguiu vender uma série de ações de participações minoritárias que detinha em empresas já com capital aberto, como a própria Petrobrás (em uma operação em que embolsou mais de R$ 7 bilhões), sua fatia no ressegurador IRB Brasil Re e no banco Pan. A expectativa maior girava em torno dos IPOs, que prometem uma movimentação bilionária da Bolsa. Apenas a oferta da holding de seguros é estimada em R$ 15 bilhões.

"Esse tipo de conduta (interferência na Petrobrás) afetará todos os negócios onde o governo federal tem posições. Na Caixa, isso se torna mais relevante, até porque o governo é o único acionista", destaca o presidente da consultoria MESA Corporate Governance, Luiz Marcatti.

O economista-chefe do banco digital modalmais, Alvaro Bandeira, afirma que a possibilidade de intervenção em uma empresa pública aumenta a percepção de risco do Brasil, algo que acaba se refletindo no preço de ativos e já visto no câmbio, por exemplo. "Isso acaba redundando em maiores dificuldades para uma privatização, fica mais complicado", destaca Bandeira.

Privatização, não

Segundo Bremmer, da Eurasia, o principal item na pauta rumo a uma privatização é a Eletrobrás, e isso pode se concretizar caso Bolsonaro vincule "os lucros da privatização da empresa a um fundo que ajuda a manter os preços dos serviços públicos mais baixos", diz. Mas, para ele, isso agora é improvável, dado que o Congresso e o governo estarão focados em reformas fiscais e em como financiar um novo auxílio emergencial.

Para o mercado, a privatização da Eletrobrás ficou mais distante desde que foi anunciada a saída de Wilson Ferreira Junior da companhia. Ele era o grande defensor da venda do controle da empresa de energia elétrica.

O governo deve dar sinalização de que pretende diminuir a participação da União na Eletrobrás, mas não privatizar a companhia totalmente, disse a analista política da XP Investimentos Júnia Gama, em debate no último domingo, feito pela corretora com seus clientes para discutir a situação da Petrobrás.

Procuradas, Caixa e Eletrobrás não comentaram.

Estadão
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