Haddad diz que reunião com secretário dos EUA foi cancelada e atribui a 'forças da extrema direita'
Segundo ministro, justificativa foi a falta de agenda para atender o governo brasileiro; Eduardo Bolsonaro nega e diz que Haddad 'prefere culpar terceiros pela própria incompetência'
BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta segunda-feira, 11, que a reunião com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que ocorreria na próxima quarta-feira, 13, foi desmarcada, sem que nova data tenha sido indicada.
A agenda, informada por Haddad na semana passada, ocorreria por videoconferência e seria destinada a discutir a aplicação da tarifa de 50% sobre parte das exportações do Brasil para os Estados Unidos. O titular da Fazenda disse ter recebido o e-mail informando do cancelamento da reunião com Bessent um ou dois dias depois que ele informou à imprensa sobre a reunião.
"Argumentaram falta de agenda, uma situação bem inusitada", afirmou Haddad, que disse ainda que a situação do Brasil é "completamente diferente" da de outros países, porque há no País uma força política que faz "uma espécie de 'antidiplomacia'".
Os demais países, como Japão e Coreia do Sul, e a União Europeia conseguiram marcar conversas para negociar o tarifaço. O Brasil não tem tido o mesmo acesso, diz Haddad. "A reunião foi desmarcada por causa de forças de extrema direita."
Ele citou uma entrevista do deputado federal Eduardo Bolsonaro, ao Financial Times, nesta segunda-feira. Eduardo afirmou que prevê uma nova onda de sanções dos Estados Unidos ao Brasil por causa do julgamento de Bolsonaro. "Não há como não relacionar uma coisa com a outra", disse Haddad.
Haddad ainda criticou o custeio do salário do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos EUA, sem que ele exerça o mandato regularmente no País. "Não estou pedindo nada diferente de cumprir a lei", disse.
Eduardo Bolsonaro rebate: 'Haddad pefere culpar terceiros pela própria incompetência'
Após a declaração, o deputado Eduardo Bolsonaro rebateu o ministro e afirmou, em nota publicada na rede social X (antigo Twitter), que "Haddad prefere culpar terceiros pela própria incompetência, enquanto Lula só fala besteira por aí e inflama a crise diplomática". A nota divulgada foi assinada em conjunto com o jornalista Paulo Figueiredo.
"Não temos, nem pretendemos ter, qualquer controle sobre a agenda do secretário do Tesouro dos EUA. O sr. Bessent é um profissional admirável, que cumpre as diretrizes determinadas pelo presidente e preserva única e exclusivamente os interesses do povo americano", diz a nota.
NOTA À IMPRENSA — Cancelamento de Reunião com Scott Bessent
O deputado @BolsonaroSP e eu tomamos conhecimento das declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que tentou atribuir à nossa atuação nos Estados Unidos o suposto motivo para o cancelamento de uma reunião com o…
— Paulo Figueiredo (8) (@pfigueiredo08) August 11, 2025
A nota diz ainda que, há quase duas semanas, o presidente Donald Trump declarou emergência econômica nos Estados Unidos, deixando claras as razões para a medida. "Até que o Brasil enfrente esses pontos, qualquer reunião será mera encenação — e, portanto, inútil", diz o texto, em referência à menção de Trump ao julgamento do ex-presidente Bolsonaro no STF.
Declaração ingênua
O ministro disse que a afirmação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre a necessidade de uma ligação do presidente brasileiro ao presidente americano é, "no mínimo, um pouco ingênua".
"Talvez seja uma pessoa que não tenha ainda o traquejo das relações internacionais. Não funciona assim", afirmou o ministro. Ele frisou a necessidade de uma "preparação prévia" para estabelecer o contato entre chefes de Estado e afirmou que há uma "resistência em função da atuação de pseudo brasileiros em Washington".
"Eu penso que o governador está sendo um pouco ingênuo de imaginar que esse telefonema é a chave de todas as portas. Não é", completou Haddad.
Haddad considerou que os EUA estão mudando a relação com o mundo inteiro e que não é questão meramente ideológica. Ele citou o caso da Índia para afirmar que há uma "mudança de postura geopolítica global" por parte dos americanos.