Há muitas ações possíveis pelo meio ambiente baratas ou sem custo, diz CEO da ISA Energia
Para Rui Chammas, presidente da ISA Energia, além de se adaptar às mudanças climáticas, o setor precisa ter sinais regulatórios de resiliência
De um lado, o Brasil vê a proliferação de fontes renováveis, favorecidas pela abundância de água, sol e vento; de outro, o consumo cresce em ritmo acelerado. A expansão de data centers, indispensáveis para a inteligência artificial, é um exemplo desse movimento. Menos perceptível, mas igualmente estratégico, o setor de transmissão desponta como peça-chave para completar o quebra-cabeça da transição energética.
Em entrevista à série Era do Clima Rumo à COP-30, Rui Chammas, presidente da ISA Energia Brasil, é categórico em afirmar: "Sem transmissão não há transição energética; sem transição energética, não há sustentabilidade".
Leia a seguir trechos da entrevista (disponível na íntegra no vídeo acima), na qual o executivo detalha os gargalos que o Brasil precisa enfrentar no setor energético para não perder as janelas que estão abertas para ratificar o País como uma potência verde.
Como o tema da sustentabilidade é visto, de forma prática, no dia a dia do grupo?
O setor de energia elétrica, especialmente no Brasil, é a espinha dorsal da sustentabilidade do País. Não dá para falar de desenvolvimento sustentável sem falar da eletrificação da economia. Historicamente, tivemos muitas hidrelétricas e, nos últimos anos, desenvolvemos fontes solar e eólica em grande quantidade, especialmente no norte de Minas e no Nordeste. Isso faz com que a matriz elétrica brasileira tenha uma oportunidade incrível. Para garantir que isso se desenvolva e seja aplicado na economia da melhor forma possível, você precisa de um sistema de transmissão eficiente. Aí entra a ISA Energia Brasil. Somos líderes no setor de transmissão, presentes em quase todos os Estados da União, com mais de 20 mil quilômetros de linhas e investimentos robustos. Temos R$ 13 bilhões previstos para investir nos próximos cinco anos, acelerando o desenvolvimento e garantindo que a energia elétrica sustentável chegue a toda a economia, apoiando a descarbonização do país. Costumamos dizer: "Sem transmissão não há transição energética; sem transição energética, não há sustentabilidade".
Nessa questão da descarbonização, é possível interferir em toda a cadeia, ou apenas da porta para dentro?
Reduzir a pegada interna é a parte fácil, que muitas empresas que se declaram carbono neutro fazem. Mas o papel de empresas estruturadas como a nossa é fazer essa mensagem percolar na sociedade, começando pela cadeia de suprimentos. Se buscamos ser Net Zero, incluindo o Escopo 3, estimulamos toda a cadeia, moldando um desenvolvimento relevante para a sociedade. Para evitar que o aquecimento global avance na velocidade em que estamos, é preciso descarbonizar toda a economia. Nosso papel é duplo: fornecer energia renovável sustentável e influenciar a cadeia de fornecedores.
E ampliando um pouco o debate, dá para falar que o Brasil está em um processo de transição energética real ou apenas adicionando renováveis às fontes fósseis?
Pergunta muito relevante. Essa não é a primeira transição energética que passamos. Houve a época da lenha, do carvão, do petróleo, do gás e, agora, da energia elétrica. Nenhuma fonte nova mata a anterior completamente; elas coexistem, com redução gradual da mais antiga. Hoje, no Brasil, a energia eólica, solar e hidrelétrica é extremamente competitiva e pode ocupar espaço de outras fontes, reduzindo custos globais da economia. Mas precisamos garantir confiabilidade. Energias renováveis são intermitentes. Para funcionarem 24 por 7, o setor de transmissão é crucial. Equipamentos como baterias, controle de frequência e compensadores síncronos garantem estabilidade ao sistema.
As baterias, então, funcionam como reservatórios de energia?
Exato. O Brasil tem uma bateria natural: os reservatórios hidrelétricos. Mas, quando não é suficiente, entram sistemas artificiais, como baterias de grande porte. Por exemplo, em Registro (SP), usamos baterias para controlar picos de demanda, o peak shaving. Durante eventos como o Carnaval, elas operam todos os dias, evitando sobrecargas e apagões. Durante o verão, a população no litoral sul de São Paulo pode triplicar. Construir infraestrutura que suporte esses picos é caro e, muitas vezes, ocioso em períodos de menor demanda. As baterias resolvem isso de forma eficiente.
Falando de clima, vocês fazem análise de risco frente a tempestades e eventos extremos?
Mapeamos variáveis como vento, deslizamento de terra e inundação para um intervalo que vai até 2030-2040, avaliando impactos potenciais na infraestrutura. Para cada fragilidade, podemos reforçar a estrutura ou adotar soluções de remediação imediata. Dois eventos recentes de ventos muitos fortes, em Bauru e no Vale do Paraíba, testaram nossas torres sem grandes impactos para a sociedade.
E quanto às metas de carbono zero do grupo, qual é o plano?
Primeiro, entender nossa pegada: usamos um gás isolante, 20 mil vezes mais potente que o gás carbônico, para compactar os sistemas elétricos, ele circula pela rede. Reduzimos as perdas; já tivemos 1%, hoje é menor ainda; além de buscarmos alternativas, mas as soluções disponíveis são caras. Também planejamos abastecer 100% do nosso consumo próprio de energia com solar, com quatro parques no interior de São Paulo, dois já operacionais. A meta é Net Zero até 2050, mesmo sem ter o caminho completo definido. A busca constante e a inovação da cadeia nos ajudarão a chegar lá. E sabe, como engenheiro, hesitei em assumir que queria ser Net Zero porque eu pensava, mas não sabia como vou chegar lá. Mas hoje estou convencido de que você tem de fazer o seu melhor, buscar reduzir suas emissões, fazer esse tipo de aposta e trazer a sua cadeia de fornecedores, trazer a academia, trazer a inovação para que, ao longo do tempo, você encontre as soluções que vão permitir a gente evoluir.
E a compensação entra no plano ou é residual?
Somos carbono neutro desde 2019, compensando Escopos 1 e 2. A questão da compensação é constante, mas preferimos reduzir emissões antes de compensar. Temos também programas voluntários, como o Conexão Jaguar, que apoia a preservação de áreas protegidas, como a Serra da Almolar, no Pantanal, gerando créditos de carbono que ajudam proprietários e fundos a manter o ecossistema vivo. Sou apaixonado por esse programa. E o fato de a onça-pintada ser capturada pelas câmeras, mostra que todo o ecossistema está lá, ela é o nosso indicador de saúde ambiental. Também estamos no Acre, em um outro programa que gera créditos de carbono que vão ajudar na preservação da área.
Quais são os grandes gargalos do setor de energia no Brasil?
O setor é de base. A demanda cresce com o aquecimento global (ar-condicionado), datacenters, streaming, inteligência artificial, e precisa de energia confiável, acessível e ambientalmente sustentável: o trilema da energia. Datacenters são especialmente críticos: consomem muita energia e água para climatização. O setor precisa se adaptar às mudanças climáticas, ter sinais regulatórios para resiliência e contratos de prontidão. A adaptação e a antecipação são chave para uma operação segura e eficiente. O que estamos fazendo hoje, por exemplo, nessa direção? A gente tem contratos de prontidão em várias regiões do Estado, onde a gente acha que tem uma maior necessidade pontual em alguns casos. Nós já temos torres de reserva em alguns lugares, por exemplo.
Por fim, qual é sua expectativa para a COP-30?
A COP é uma conferência das partes, um encontro anual fundamental da ONU para avaliar o que deu certo, o que deu errado e firmar novos pactos. Para o setor privado, é o momento de renovar votos, criar uma "conspiração do bem" e avançar na direção do Net Zero. Espero que as grandes e pequenas empresas comprometidas com o objetivo de ser Net Zero consigam contaminar a sociedade para avançarmos na boa direção. E tenho uma crença: há muita coisa que pode ser feita que não é cara ou não tem custo. Nós mesmos fizemos várias evoluções na companhia, em que só de avisar e informar todo o nosso time conseguimos ganhos maravilhosos. Realizar a COP no Brasil, na Amazônia, é uma oportunidade única para inspirar ações globais.