Fim da 6x1: governo enviará PL com urgência se perceber 'enrolação' do Congresso, diz Boulos
Segundo ministro, 'existe uma operação em curso' contra o fim da escala 6x1; com envio do projeto de lei, tema teria que ser votado em até 45 dias
BRASÍLIA - O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, disse nesta terça-feira, 17, que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentará um projeto de lei com regime de urgência sobre o fim da escala 6x1 se houver uma "estratégia de enrolação" do Congresso sobre o tema.
"Lula já tomou uma decisão. Estamos respeitando o trâmite do Legislativo, como tem de ser. Mas se terminar março e percebermos que está tendo uma estratégia de enrolação no Congresso, Lula vai entrar com projeto de lei em regime de urgência e aí terá de votar em 45 dias", afirmou o ministro.
Esse projeto do governo, disse, diminuirá a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Também acabará com a jornada de trabalho de 6x1 e estabelecerá o regime de 5x2. Tudo isso sem redução salarial.
Boulos foi o entrevistado desta terça-feira, 17, do programa "Bom Dia, Ministro", da EBC. O ministro disse que "vamos ter o fim da escala 6x1 aprovada até o fim do ano no que depender do governo". Foi uma forma de demonstrar o empenho do Palácio do Planalto com o tema.
Apesar disso, segundo o ministro, "existe uma operação em curso contra o fim da 6x1". "Quem comanda essa operação, além dos lobbies empresariais, é o Valdemar Costa Neto, o União Brasil, o Republicanos, os partidos da direita bolsonarista do Brasil", declarou. União Brasil e Republicanos têm ministros no governo Lula.
Boulos disse que a redução da jornada de trabalho é o "projeto da família brasileira", pois permite "mais tempo com a família".
"(Hoje em dia), temos aumento na aumento da renda, do salário mínimo, mas o trabalhador vê que não está compensando, porque mantém a mesma carga de trabalho", declarou. "De 1988 para cá, tivemos tantos avanços tecnológicos na produtividade. Por que o trabalhador precisa trabalhar o mesmo tempo?", questionou.
Segundo o ministro, "toda vez que fala em direito do trabalhador, vai ter reação visceral dos grandes privilegiados, patrões, empresários, do andar de cima", o que, segundo ele, "não é novidade". Boulos citou as reações à Lei Áurea, como vários integrantes do governo têm feito, como ferramenta argumentativa a favor da redução da jornada de trabalho.
"Quando a gente vê a CNI, CNA, CNC, editoriais da grande mídia gritando contra a escala, esse filme a gente já viu. Ninguém esperava apoio deles para a pauta dos trabalhadores, porque nunca apoiaram a pauta dos trabalhadores no Brasil", declarou.
"Esses são os mesmos que levantam a voz para falar que defendem a família. Sabe o que é defender a família brasileira neste momento? É defender o fim da escala 6x1. É uma defesa real, não é no gogó", completou.
Boulos disse que há hoje no Brasil uma "epidemia de burnout, estresse, esgotamento e fadiga no trabalho" por causa da atual carga de trabalho. Segundo ele, reduzi-la é uma forma de proporcionar mais tempo aos trabalhadores para passar com seus filhos e familiares.
Juros
Boulos cobrou que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduza a taxa básica de juros (Selic) nesta semana. Ele disse que "hoje tem duas coisas que drenam dinheiro das famílias trabalhadoras: bets e juros".
"Não adianta aumentar salário se tem juros escorchantes. (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central), vamos baixar os juros, pelo amor de Deus, tenha santa paciência. Isso está matando o povo brasileiro", cobrou o ministro.
Para além dos juros, o tema das bets é muito caro ao segmento religioso (em especial ao evangélico). O ministro reconheceu a dificuldade de o governo e a esquerda dialogarem com esse público. Afirmou que é preciso "promover mais e mais diálogo", mas que "o problema é que tem pontes rompidas dos dois lados", tanto da esquerda como dos evangélicos.
"Não estou falando de ponte com o Silas Malafaia, com esse está perdido, mas com milhões de evangélicos que vivem na periferia, trabalham e pensam de forma similar à esquerda sobre defesa dos serviços públicos e de um trabalho digno", declarou.