Elétricas abandonam trading de energia no Brasil diante de risco maior e retração dos geradores
Empresas do setor elétrico estão deixando de atuar com trading de energia no Brasil diante de um aumento de riscos nessas operações, relacionados tanto a crédito quanto à maior volatilidade dos preços, enquanto uma retração das vendas de energia por parte dos geradores também diminuiu a liquidez para boa parcela das comercializadoras.
A CPFL e a CTG Brasil, ambas grandes geradoras controladas por grupos chineses, estão entre as empresas que decidiram não atuar mais com o "trading direcional", montando posições compradas ou vendidas em energia para obter ganhos com variações de preço.
As comercializadoras de grupos como Capitale, Urca e Trinity também reduziram significativamente ou praticamente zeraram os negócios, voltando suas apostas para outros segmentos, relataram fontes e executivos dessas empresas.
A diminuição do trading ocorre por um retraimento geral após a quebra de várias comercializadoras nos últimos anos, em especial a Gold Energia no ano passado, um caso de calote bilionário que surpreendeu o mercado e mudou definitivamente a forma como grande parte dos agentes administrava seu risco de contraparte, apontaram executivos.
O mercado brasileiro de trading de energia, que movimenta dezenas de bilhões de reais por ano, opera com base em negociações bilaterais entre as empresas, sem que haja uma contraparte central com visibilidade sobre a alavancagem de cada agente.
Com isso, a reputação acaba sendo um fator-chave nesse mercado, principalmente para as comercializadoras independentes, aquelas não ligadas às empresas geradoras, já que a quebra de uma pode levar a uma reação em cadeia e contaminar o mercado.
"Chega um momento que já não sei quem tem crédito bom e quem não tem", disse um executivo do setor, que pediu para não ser identificado.
Diante da piora do mercado, a CPFL e a CTG encerraram os negócios de trading e estão atendendo sua carteira de consumidores a partir do próprio parque de geração, com energia que ficará descontratada no futuro.
Em nota à Reuters, a CPFL disse que, nesse momento, mantém sua atuação no mercado livre concentrada na comercialização de energia própria, proveniente do portfólio de geração convencional e renovável.
"A energia comercializada no mercado livre passa a ter mais foco na energia originada dos ativos próprios de geração eólica e hídrica do grupo, eliminando riscos advindos da atual conjuntura do trading de energia, e reforçando o compromisso com a transição energética e a redução das emissões de gases de efeito estufa", acrescentou a empresa.
Já a CTG disse à Reuters que encerrou sua subsidiária dedicada exclusivamente à atividade de trading na segunda metade de 2024, em decisão "estratégica e alinhada à consolidação do seu posicionamento de mercado".
A geradora adicionou que sua atuação comercial vem sendo intensificada, impulsionada pela entrada em operação de novos projetos solares e eólicos neste e no ano passado.
INDEPENDENTES SOFREM MAIS
Devido à piora do risco de crédito, vários geradores passaram a evitar ou suspender totalmente as transações com as comercializadoras independentes. Isso secou o mercado intermediário, que tem um papel importante para garantir a liquidez do mercado.
Mas as próprias comercializadoras também foram diminuindo as transações por uma percepção de risco maior associada à volatilidade de preços, após uma mudança nos modelos matemáticos no ano passado. Algumas empresas falam em "erros" nos modelos que estariam inviabilizando suas previsões.
A Capitale passou a operar "conscientemente menor" desde 2024 e segue reduzindo as atividades, com uma expectativa de diminuir o volume comercializado em 30% em 2026, disse o CEO, Daniel Rossi. "Com o atual modelo (de preços) restritivo, e a volatilidade do jeito que está, é impossível operar como operávamos, colocaríamos muito em risco."
"Nossa posição tem sido focada em zerar o portfólio existente e atuar em pequenas oportunidades, em alguns momentos de volatilidade que permitam controle de gestão de risco", acrescentou Rossi.
A comercializadora Trinity Energia, que já chegou a movimentar cerca de 2 gigawatts (GW) médios por mês, hoje negocia cerca de 10% desse volume. A empresa tem concentrado suas apostas em geração distribuída e em serviços de gestão e consultoria em energia.
"Fomos reduzindo os volumes de trading e chegou um ponto que não faz muito sentido ficar com time focado nisso, manter estrutura... O que fazemos hoje é seguir os contratos que já tínhamos, e fazer ajustes de portfólio necessários", afirmou o CEO e fundador da Trinity, João Sanches.
A Urca Trading, do grupo Urca Energia, disse que decidiu reduzir a exposição a risco ainda no segundo trimestre de 2025.
"A empresa passou a concentrar seus negócios em operações estruturadas e com grandes players, além de ter realizado a venda de sua carteira varejista. Com a reorientação estratégica, a companhia se afastou do risco sistêmico e segue registrando seguidos resultados positivos", disse a Urca, em nota.
Apesar do movimento, que inclui grandes empresas, um executivo do segmento, que pediu anonimato, avaliou que a liquidez na comercialização piorou apenas para as casas menores, que apresentam maior risco de crédito.
"Para grandes geradores, bancos, o mercado segue normal, as empresas sem lastro que vão ter dificuldade... É uma acomodação natural de mercado, com os mais imprudentes (saindo)", avaliou a fonte.
GERADORES SEGURANDO ENERGIA
A liquidez menor para o mercado de comercialização de energia também reflete uma postura mais contida de grandes geradoras, como a Copel.
O CEO disse no mês passado que a companhia está deixando mais energia descontratada em seu portfólio para aproveitar o momento de preços spot mais altos, evitando "travar" suas vendas de energia em contratos com prazos mais longos e que poderiam exigir valores menores.
A Axia (ex-Eletrobras), maior geradora brasileira e que passou a ter muita energia disponível para negociar livremente após a privatização, chegou a adotar a mesma estratégia no ano passado.