Efeito das tarifas se torna mais visível e tende a elevar a inflação nos EUA, diz o BC americano
Ata da reunião que manteve pela quinta vez os juros inalterados expôs temores com a economia dos Estados Unidos, apesar das pressões de Trump por corte nas taxas
Para não baixar o juro apesar das pressões do governo de Donald Trump, dirigentes do Federal Reserve (Fed) consideraram que os efeitos das tarifas "estavam se tornando mais aparentes nos dados, como indicado pelos recentes aumentos na inflação de bens". É o que mostra a ata da mais recente reunião dessa instituição equivalente ao Banco Central americano, divulgada nesta quarta-feira, 20. A reunião, ocorrida em 29 e 30 de julho, manteve, pela quinta vez seguida, a taxa básica de juros inalterada, na faixa de 4,25% e 4,50%.
Poucas horas antes da divulgação do documento, programada para as 15h (horário de Brasília), Trump abria uma nova frente de pressão contra o Fed. Pediu a renúncia da diretora Lisa Cook, depois que um membro de seu governo a acusou de cometer fraude hipotecária.
Bill Pulte, diretor da agência que supervisiona as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, instou o Departamento de Justiça a investigar Cook, nomeada para o conselho administrativo do Fed pelo ex-presidente Joe Biden em 2022 e renomeada no ano seguinte para um mandato que vai até 2038.
Quando serão sentidos os efeitos das tarifas
Segundo o documento do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed, "muitos participantes notaram que pode levar algum tempo para que os efeitos completos das tarifas mais altas sejam sentidos nos preços de bens e serviços ao consumidor".
Entre as razões citadas estão o acúmulo de estoques em antecipação às tarifas mais altas; a lenta transferência de aumentos de custos de insumos para preços finais; a atualização gradual de contratos; a manutenção de relacionamentos entre empresas e clientes; questões relacionadas à arrecadação de tarifas; e negociações comerciais ainda em andamento.
A ata do Fed ainda relatou que "as evidências até agora sugeriram que os exportadores estrangeiros estavam pagando, na melhor das hipóteses, uma parte modesta do aumento das tarifas, o que implica que as empresas e consumidores domésticos estavam arcando predominantemente com os custos".
Alguns dirigentes destacaram que companhias teriam cada vez mais que repassar os custos de tarifas aos clientes finais. Outros, porém, disseram que estratégias como "negociar ou trocar fornecedores, alterar processos de produção, reduzir margens de lucro, impor mais disciplina salarial ou explorar medidas de eficiência, como automação e novas tecnologias", vinham sendo usadas para evitar repasses integrais.
'Aumento da inflação no curto prazo parece provável'
A ata mostra que os membros avaliaram que o aumento da inflação no curto prazo parece provável, ainda que magnitude, timing e persistência da inflação sejam incertos.
O documento relata que os membros concordaram que a inflação permanecia relativamente elevada naquele momento, mas indicadores recentes sugeriam que o crescimento da atividade apresentava moderação no primeiro semestre.
Membros concordaram que, ao considerar ajustes adicionais à política monetária, avaliariam dados recebidos, além da perspectiva e o equilíbrio de riscos.
Inflação x emprego
Segundo a ata, "uma maioria dos participantes considerou que o risco de inflação em alta era maior do que o risco de enfraquecimento do emprego", embora alguns tenham visto os riscos como equilibrados e poucos tenham apontado maior preocupação com o mercado de trabalho.
Vários membros ressaltaram que a manutenção de expectativas de inflação ancoradas era central, observando que a inflação acima de 2% por período prolongado "aumentava o risco de que as expectativas de longo prazo se desancorassem".
No balanço de riscos, dirigentes ressaltaram que, se as tarifas resultarem em uma alta "mais persistente do que o esperado da inflação, ou se as expectativas subirem de forma significativa, seria apropriado "manter uma postura mais restritiva de política monetária do que seria o caso em outras circunstâncias".
Os votos dissidentes na reunião do Fed
A ata descreve os motivos que levaram aos dois votos dissidentes na reunião de 29 e 30 de julho. O documento relata que os membros que defenderam um alívio monetário, Michelle Bowman e Christopher Waller, consideraram que, excluindo os efeitos tarifários, a inflação estava próxima da meta de 2% do comitê e que tarifas mais altas provavelmente não teriam efeitos persistentes sobre a inflação.
Além disso, avaliaram que o risco de queda para o emprego havia aumentado significativamente com a desaceleração do crescimento da atividade econômica e dos gastos do consumidor, e que alguns dados recentes apontavam para um enfraquecimento das condições do mercado de trabalho, incluindo baixos níveis de ganhos na folha de pagamento privada e a concentração desses ganhos em um conjunto restrito de setores menos afetados pelo ciclo econômico.